Domingo XVI do Tempo Comum - ano B - 22 de julho de 2018


1 – A delicadeza e a compaixão de Jesus hão de converter-se na docilidade e na ternura em todos nós. O discípulo não é superior ao Mestre e feliz o discípulo que for como o seu Mestre.

O cristianismo é, antes de mais e sobretudo, um acontecimento, uma Pessoa, um encontro. A morte, como entrega até à última gota de sangue, até ao último suspiro, e a Ressurreição, milagre maior (e único, primeiro, à luz do qual todos os outros milagres se tornam percetíveis) da nossa fé. Com efeito, é na Ressurreição que nascemos como cristãos, que nascemos como comunidade crente. Quando nos reunimos, fazemo-lo à volta do mistério pascal, morte e ressurreição de Jesus. É um encontro com Jesus Cristo, que nos diante do mesmo Pai, pela ação vivificante do Espírito Santo.

Em alguns momentos poderá parecer que o cristianismo se move a partir de um catálogo de leis e de proibições, e, até mesmo, de condenações. Será, com efeito, uma perceção errada de quem não percebeu nada da mensagem e da vida de Jesus Cristo oferecida para que tenhamos vida abundante (cf. Jo 10,10). Claro que em qualquer grupo de pessoas, por mais pequeno que seja, há um mínimo de regras, de orientações. Mas as regras só são necessárias para ajudarem à harmonia, para evitar descarrilamentos, no reconhecimento da nossa fragilidade humana e da possibilidade de, em certos momentos, vermos a vida apenas a partir de nós, dos nossos interesses ou das nossas comoções!

Diz-nos Santo Agostinho sobre o amor: ama e faz o que quiseres! Bom, mas há quem mate por amor! Ou talvez não! Quando muito isso acontece por deficiência, por desconfiança, por negação, por ciúme, por inveja. Uns para se vingarem de um amor não correspondido, outros para defenderem de ameaças (reais ou imaginárias) aqueles que amam. Daí a necessidade de recorrer a Jesus e ao modo como nos ama: ama-nos no serviço, na entrega, na compaixão, gastando-Se inteiramente, até ao fim, a favor de cada um, a favor de todos. Não há maior amor do que Aquele que dá a vida pelos amigos.

 

2 – A vida resolve-se nos pormenores, nas pequenas coisas. Por isso, podemos invocar Deus como o Deus das pequenas coisas (título de um livro de Arundhati Roy). Isso não secundariza o mistério maior, gigantesco, da nossa fé, a Ressurreição de Jesus Cristo. Porém, é preciso valorizar o que nos une, o que nos aproxima, o que nos faz sorrir, ou nos faz sentir úteis, acarinhados. Quem descura as pequenas coisas, acabará por nunca descobrir a beleza da vida. Quem espera constantemente por um milagre, um arrebatamento, um momento transcendente de luz, quem aguarda por algo surpreendente, como ganhar a lotaria ou o Euro-milhões, ou espere que a outra pessoa mude em 180 graus, poderá passar ao lado da felicidade, entendida como caminho e não somente como meta.

Vejamos um exemplo: só aceito um emprego cuja remuneração ultrapasse os 10 mil euros por mês, com motorista particular, com horário flexível, com subsídios de refeição, representação e deslocação, com um escritório virado para o mar! Até lá fico à espera... Poderia trabalhar, mas só me oferecem metade do que eu desejo e o escritório não tem vista para a praia! Então recuso. Ficarei à espera... à espera... do que nunca chegará, pois ninguém vai contratar alguém que nunca mexeu uma palha! Há empresários de sucesso que no início tiveram que dar no duro.

Outro exemplo: esperar um príncipe/princesa encantado/a, em cima de um cavalo branco, em fuga para o país das maravilhas! Será muito mais honesto descobrir as qualidades naqueles/as que Deus coloca à nossa beira. Nas relações humanas, a ansiedade e o desencanto verificam-se quando se procura alguém perfeito. Claro que devemos melhorar os aspetos que dificultam o entendimento com os outros. Mas em vez de ficarmos à espera, tomemos a iniciativa! Um sorriso, uma carícia, uma palavra simpática, um gesto de generosidade, baixará as nossas defesas, baixará as defesas do outro!

 

3 – Os Apóstolos foram enviadas a anunciar a Boa Nova, a expulsar os demónios, a curar os doentes. Regressam para junto de Jesus. Contam-Lhe tudo o que aconteceu. É tempo de fazer avaliação.

É sugestiva e surpreendente a resposta de Jesus: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco». O evangelista recorda-nos que havia sempre muita gente a chegar e a partir que mal tinham tempo para comer e para descansar. Jesus alegra-se com os Seus discípulos, mas atende ao pormenor: alimentação e descanso. Em momentos tão sublimes, em que os Apóstolos falam em milagres, em curas, em expulsão de demónios, Jesus poderia promover uma catequese, uma reflexão, um debate, mas do que Ele se lembra, de uma coisa simples: os discípulos precisam de se alimentar, precisam de descansar e retemperar forças. E vão de barco para um lado isolado.

As pessoas percebem para onde Jesus vai e chegam lá primeiro que eles. Ao desembarcar, Jesus vê aquela grande multidão. E o que é que Ele faz? O que esperávamos que Ele fizesse? Talvez que pedisse paciência e que aguardassem um pouco. No entanto, Jesus compadeceu-Se de toda aquela gente, que eram como ovelhas sem pastor e prossegue ensinando-lhes muitas coisas. Também aqui a sensibilidade e a compaixão de Jesus são desafio à nossa disponibilidade para os outros. Tudo é importante. Em cada momento teremos que avaliar o que é essencial e agir em conformidade. O descanso era importante, mas há ali uma multidão faminta de descansar dos anseios, dúvidas e medos!

 

4 – «Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho!». As palavras do Senhor são um aviso para todos. Comprometemo-nos uns com os outros. É um compromisso que assenta e parte do Batismo. Somos, sempre, discípulos missionários. Com a cabeça inclinada sobre o peito de Jesus, como o discípulo amado na Última Ceia, para escutar o Seu amor e perceber o caminho a percorrer para Lhe sermos fiéis. Mas o discípulo é simultaneamente missionário. Somos verdadeiros discípulos de Jesus na medida em que O vivemos, O testemunhamos, O transparecemos.

O Profeta Jeremias traz-nos o recado de Deus que nos pedirá contas caso tenhamos dispersado ou perdido as ovelhas do Seu rebanho. O rebanho é do Senhor. Não é nosso. Não somos proprietários, somos administradores! Não somos patrões, somos servos! Não apascentamos o rebanho em nosso nome, mas em nome do Senhor. Ele é o Pastor que vem para reunir e congregar, que vem salvar, e nos leva a descansar em verdes prados. Ele reconforta a alma.

Deus conta connosco. Aposta em nós. Se não o fizermos, porque não temos tempo nem paciência, porque achamos que outros podem fazê-lo melhor, então saberemos que Deus nos perguntará por todos aqueles a quem fomos enviados para ajudar e não o fizemos por distração ou por birra ou por preguiça.

A promessa feita por Deus através de Jeremias efetiva-se com a vinda de Jesus: «farei surgir para David um rebento justo. Será um verdadeiro rei e governará com sabedoria; há-de exercer no país o direito e a justiça. Nos seus dias, Judá será salvo e Israel viverá em segurança. Este será o seu nome: ‘O Senhor é a nossa justiça’».

O que é próprio de Jesus há de ser por nós assumido, como ovelhas de um só rebanho.

 

5 – Toda a vida de Jesus comunica amor, compaixão, serviço à humanidade, mas é sobretudo no mistério da Sua morte e da Sua ressurreição que se visualiza em plenitude a Sua entrega por nós e a garantia que o Seu projeto não acaba na Cruz. Nada nos fará separar do amor de Deus, nem a própria morte. A ressurreição garante que uma vida gasta a favor dos outros não se esgota no tempo, mas é elevada/ressuscitada em Cristo Jesus. Quem morre em Cristo, em Cristo ressuscita. Primeiro sacramentalmente, pelo Batismo, e quando chegar a hora para a vida eterna.

Na sua epístola à comunidade de Éfeso, o Apóstolo lembra-nos que Jesus nos aproximou de Deus pelo Seu sangue, isto é, pela Sua entrega ao Pai por nós. «Cristo é, de facto, a nossa paz. Foi Ele que fez de judeus e gregos um só povo e derrubou o muro da inimizade que os separava, anulando, pela imolação do seu corpo, a Lei de Moisés com as suas prescrições e decretos… Pela cruz reconciliou com Deus uns e outros, reunidos num só Corpo, levando em Si próprio a morte à inimizade».

A reconciliação dá-se em dois sentidos, aproximando-nos dos outros, fazendo de nós um só povo, um só rebanho, e a todos conduzindo para Deus Pai, na força do Espírito Santo. É sugestiva a imagem da roda de bicicleta, quando mais os raios estão afastados entre si mais estão afastados do centro. E, o contrário, quando mais estivermos afastados do centro – de Cristo Jesus – mais afastados estaremos entre nós. Aproximemo-nos de Cristo e, dessa forma, aproximar-nos-emos uns dos outros.

 

6 – Onde tudo começa e tudo acaba: Deus. No encontro com Deus. Não é um círculo fechado, é uma espiral que envolve cada vez mais pessoas, até as colocar todas dentro desta comunhão trinitária. O cristianismo é antes de tudo um encontro com Jesus Cristo. N'Ele nos encontraremos como irmãos, procurando a fidelidade aos Seus ensinamentos, ou melhor, ao Seu modo de amar e de Se doar.

A oração predispõe-nos a sintonizar o nosso coração e a nossa vida com o coração e a vontade de Deus. «Sede propício, Senhor, aos vossos servos e multiplicai neles os dons da vossa graça, para que, fervorosos na fé, esperança e caridade, perseverem na fiel observância dos vossos mandamentos», isto é, que nos amemos uns aos outros como irmãos.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Jer 23, 1-6; Sl 22 (23); Ef 2, 13-18; Mc 6, 30-34.


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