Domingo XV do Tempo Comum - ano C - 14 de julho de 2019


1 – Compaixão. Ternura. Misericórdia. Serviço. Caridade. Proximidade. Amor. Kénose (Abaixamento). Não há palavras suficientes para mostrar Jesus, o Seu esvaziamento para Se fazer um de nós. Enche-Se, pleniza-Se com o Amor do Pai, na dinâmica do Espírito Santo. Esvazia-Se de tudo o que belisca o amor, a verdade, a justiça, a vida, a dignidade, a transparência de Deus. Gasta-Se, como facilmente vemos, como facilmente percebemos, a favor de todos, preferencialmente dos necessitados, pobres, excluídos, publicanos, doentes, pecadores, dos esquecidos da cultura, do poder e até da religião.

No ano pastoral anterior, a Diocese de Lamego teve como lema: "Vai e faz tu também do mesmo modo". Procurámos – e temos que obrigatoriamente continuar a fazê-lo –, saber o modo de atuar de Jesus, como Ele agiria no nosso tempo, diante as circunstâncias atuais, nos contextos novos que vão surgindo, em situações reais, históricas e concretas. Um tempo diferente, com desafios variados, mas a resposta pode ser visualizável através da postura constante de Jesus: olhar para os outros com olhos de ver, com o olhar do coração, colocando-os em primeiro lugar, independentemente do tempo ou da vida a gastar, em atitude de serviço, tornando-Se próximo, afável, pronto a ajudar, a fazer tudo o que está ao Seu alcance para redimir, curar, salvar, restaurar a dignidade perdida e/ou roubada.

Um dos textos essenciais para conhecer Jesus e perceber como segui-l'O é-nos apresentando hoje na parábola do Bom Samaritano. É um texto emblemático que põe a descoberto a prioridade da misericórdia, de condoer-se com o sofrimento alheio, fazendo-se próximo, irmão, para ajudar. No final o mandato de Jesus é clarividente: vai e faz o mesmo! Seguir Jesus, amar Jesus, viver ao jeito de Jesus implica que queiramos fazer COMO Ele, amar ao Seu jeito, gastar-nos como Ele Se gastou.

 

2 – Do meio da multidão, um doutor da Lei, um estudioso da Sagrada Escritura, levanta-se e experimenta o saber de Jesus: «Mestre, que hei de fazer para receber como herança a vida eterna?»

A nossa reação seria responder imediatamente, apontando o caminho da verdade, do bem e do serviço aos outros. E, por certo, a resposta expectável e dentro do nosso compromisso religioso! Jesus argumenta connosco e faz-nos refletir, procurando a resposta na Sagrada Escritura: «Que está escrito na Lei? Como lês tu?».

Se procurarmos na Bíblia logo encontraremos: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento; e ao próximo como a ti mesmo». Amar a Deus, antes e acima de tudo e ao próximo como a si mesmo. Resposta simples. Se o fizermos estamos no caminho certo, a não ser que façamos uma interpretação à medida das nossas limitações ou egoísmos. Jesus sanciona as palavras sagradas: «Respondeste bem. Faz isso e viverás».

E poderíamos ficar por aqui. As perguntas foram feitas e respondidas. A conclusão foi tirada: faz isso e viverás. Estás no caminho certo.

No entanto, o doutor da Lei não se deu por satisfeito e provoca nova discussão. Para uma resposta tão simples não seria necessário levantar-se e fazer tal pergunta. Então justifica-se com outra pergunta: «E quem é o meu próximo?» E, novamente, poderíamos responder sem pensarmos muito: próximo é aquele/a que precisa da minha ajuda. E está bem! Mas por vezes gostamos de complicar as coisas, e a vida e a relação com os outros.

O primeiro mandamento da Lei não oferece discussões. Deus é único, só a Ele adorarás, só a Ele prestarás culto! O segundo mandamento é complementar e subsequente: amar o próximo como a si mesmo. Aliás, os 10 mandamentos explicitam esta dinâmica, com os primeiros a referirem-se à nossa relação com Deus e os seguintes à nossa relação com os outros. Já aparecem bastantes cenários no quais podemos concretizar o amor ao próximo. Porém, as discussões académicas abrem brechas, fugas ou desculpas! Próximo o que é da minha família, o meu vizinho, o que é da mesma religião, o que tem a mesma nacionalidade! A discussão poderia continuar infinitamente, descomprometendo-nos com "alguns próximos": de outra família, de outro país, com outra religião!

 

3 – Jesus não entra em discussão. Não adianta explicar seja o que for a alguém que não quer compreender. Por outro lado, uma discussão académica pode prolongar a resposta a dar ao sofrimento do irmão ou criar azedume, altercação, sem consequências práticas. Não se trata aqui de desvalorizar a reflexão, o debate, o diálogo, tão importantes para tornar mais visível a direção a seguir. Mas aqui já se percebeu que a discussão é de lana caprina, só pretende criar confusão.

Porém, Jesus opta por nos envolver na procura de uma resposta, válida para todos, para os simples e para os complicados. Só não percebe quem não quer viver do mesmo jeito que Ele, o Mestre da Sensibilidade. Então, Jesus faz-nos entrar na parábola com intervenientes. Teremos de ver depois quem queremos imitar.

«Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores. Roubaram-lhe tudo o que levava, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o meio-morto. Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas, deu-as ao estalajadeiro e disse: ‘Trata bem dele; e o que gastares a mais eu to pagarei quando voltar’».

Sem mais delongas, Jesus pergunta ao doutor da Lei e a cada um de nós: «Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?». A resposta é óbvia: «O que teve compaixão dele». A bola passa para o nosso lado! O próximo é o outro, que precisa da minha ajuda, mas a proximidade depende sobretudo de mim e de ti: faço-me próximo? Aproximo-me para ajudar a levantar aquele que está caído, que vive prostrado, que está em dificuldade?

 

4 – «Senhor nosso Deus, que mostrais aos errantes a luz da vossa verdade para poderem voltar ao bom caminho, concedei a quantos se declaram cristãos que, rejeitando tudo o que é indigno deste nome, sigam fielmente as exigências da sua fé».

A oração predispõe-nos a acolher a vontade de Deus e compromete-nos com o que pedimos. Só assim a oração será autêntica. Jesus clarifica as dúvidas que pudéssemos ter e logo nos envia: «Então vai e faz o mesmo». Podemos contra-argumentar, fazer novas perguntas, mas a direção é luminosa. O proceder do Bom Samaritano terá que ser o nosso proceder. O Bom Samaritano, por excelência, é Jesus. É a Ele que temos de seguir e imitar. Ou arranjámos uma justificação como o sacerdote ou o levita?

 

5 – Deus não nos pede o impossível, pede-nos o melhor de nós. Criou-nos por amor, desafia-nos a viver na mesma lógica: amar, cuidar, criar, construir. Criou por amor, criou-nos livres, inscrevendo em nós aquela lei que nos faz voltar, nos faz amar, nos faz reconhecer que dependemos uns outros, pertencemos uns aos outros, pois temos a mesma origem.

Moisés elucida os mandamentos que mantêm como povo de Deus. «Escutarás a voz do Senhor teu Deus... converter-te-ás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma. Este mandamento que hoje te imponho não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance. Não está no céu, para que precises de dizer: ‘Quem irá por nós subir ao céu, para no-lo buscar e fazer ouvir, a fim de o pormos em prática?’. Não está para além dos mares, para que precises de dizer: ‘Quem irá por nós transpor os mares, para no-lo buscar e fazer ouvir, a fim de o pormos em prática?’. Esta palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática».

O mandamento não vem de nós, mas está em nós, é-nos intrínseco, está no nosso coração, não nos é estranho. Melhor, faz-nos reconhecer a nossa origem, a nossa identidade e a nossa meta: Deus. E se todos nos posicionarmos como iguais, lado a lado, como irmãos, partiremos do mesmo seio, encontrar-nos-emos no mesmo chão, chegaremos ao mesmo coração: Deus.

 

6 – A referência é, naturalmente Jesus Cristo. A Lei ganha vida, encarna, tornando-se ainda mais acessível acolher, perceber e viver a vontade de Deus, pois Jesus exemplifica com a Sua vida como é possível tornar concreta e real a vontade do Pai.

Filho bem-Amado, resgata-nos do pecado, das trevas e na morte, inserindo-nos na vida divina, fazendo-Se nossos irmãos, fazendo-nos Seus irmãos e irmãos uns dos outros. "N’Ele foram criadas todas as coisas no céu e na terra, visíveis e invisíveis... Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo. Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos; em tudo Ele tem o primeiro lugar. Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus".

Os muros que criamos, as traves que colocamos no nosso olhar, o nevoeiro que escondeu os nossos corações, está desfeito pelo amor de Deus vivido e partilhado por Jesus. Ele escancarou a eternidade, a vida divina, mostrou-nos como sermos filhos e herdeiros de Deus Pai, como integrarmos a Sua morada e a Sua vida e sermos Sua família, aqui na terra, enquanto caminheiros, e depois junto d'Ele para sempre.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Deut 30, 10-14; Sl 68 (69); Col 1, 15-20; Lc 10, 25-37


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