Domingo XV do Tempo Comum - ano B - 15 de julho de 2018


1 – Como o Pai Me enviou também Eu vos envio. O Espírito do Senhor Me ungiu e Me enviou a anunciar a Boa Nova aos pobres, a proclamar o ano da graça do Senhor, a libertar os cativos, a dar a vista aos cegos... Vai e faz tu também do mesmo modo...

A nossa vocação, discipulado e apostolado partem de Jesus, assentam em Jesus e encaminham-se para Jesus. Somos chamados para O seguir. Somos discípulos para aprendermos com Ele, uma e outra vez. Somos enviados para anunciar a Boa Nova aos pobres e, com Ele, fazermos do mesmo jeito, libertando os outros das amarras da pobreza, da exclusão, da solidão e de todo o mal.

Seguir Jesus, a primeira vocação do cristão, não visa sentar-nos com Ele na cavaqueira à espera que o tempo passe, que a vida aconteça, enquanto vamos passando entre os pingos da chuva, procurando não nos molharmos, assobiando para o lado, lavando as mãos, cruzando os braços, encolhendo os ombros, fazendo de conta que não é nada connosco!

A vida, o mundo, os outros, são responsabilidade nossa. Desde o início. Desde sempre. Deus criou-nos para os outros, por causa dos outros. Somos auxiliares semelhantes. Da mesma costela, da mesma carne. Do mesmo sangue. Com a mesma origem. Temos origem em Deus. Mas a meta da nossa vida também é Deus. Pelo meio não podemos e não devemos andar arredados daqueles que são parte essencial da nossa vida. Não podemos andar de costas voltadas quando queremos chegar ao mesmo lugar, ao coração do Pai.

 

2 – Jesus chama os 12 Apóstolos e envia-os dois a dois. Jesus projeta um modelo de envio e de compromisso missionário que não nos permite ir sozinhos, nem em nome próprio. Vamos dois a dois, uns com os outros, fazemos parte da Igreja, e vamos em nome de Cristo, para fazer como Ele fez.

O próprio Jesus lhes/nos dá as instruções para o apostolado, para a missão. Dá-lhes o poder sobre os espíritos impuros, mas também a responsabilidade da cura, da inclusão, da paz!

Para irmos precisamos de leveza. Quantas mais coisas tivermos para levar, a quantas mais coisas estivermos presos, mais difícil será partirmos em missão. O que é necessário? O bastão, para nos apoiarmos, para nos sentirmos como pastores! "Nem pão, nem alforge, nem dinheiro... Calçados com sandálias", levando apenas uma túnica. Só o essencial, só o que não nos impede de chegar aos outros, de nos aproximarmos dos outros. As coisas podem pesar-nos, podem interpor-se entre nós. Uma imagem rápida: levamos dois sacos pesados, com coisas preciosas, um em cada mão, como fazemos para nos abraçarmos?! E se temos medo que alguém nos roube o que temos nos sacos? Colocámos no chão ou optamos por não abraçar mantendo a distância?

Para seguirmos Jesus, para agirmos como Ele, não devemos deixar que o pão, o dinheiro, o vestuário, ou as nossas roupagens obstaculizem à missão, ao serviço aos irmãos, ao anúncio da paz, ao compromisso com a justiça. Que nada nos afaste da família, que tudo seja oportunidade para nos enriquecermos e nos ajudarmos mutuamente.

 

3 – O Evangelho é Boa Notícia. É uma proposta de vida. Não é uma imposição, uma desculpa, uma fuga. Não é um analgésico para os contratempos, ou uma bolha que nos protege nas dificuldades. É um acontecimento, é uma Pessoa, é Jesus Cristo na nossa vida, na minha e na tua vida! Não é uma guerra que se ganha pela força, pela retórica, pela chantagem ou pela ameaça. É um desafio e um compromisso. Desafia-nos a darmos o melhor de nós mesmos, não contra os outros, mas a favor de todos. É um compromisso com aqueles que estão no mundo, no mesmo barco que nós, e especialmente por quem se encontra em situação mais frágil.

Eis a recomendação: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles».

O encontro com os outros há de comprometer-nos a ficar, a permanecer, e não a saltar de casa em casa, de lugar em lugar. Há tempo para tudo. A fé também se fortalece com os laços de amizade que nos aproximam e nos irmanam. Por outro lado, se as nossas palavras e o nosso testemunho forem recusados, nem por isso devemos deixar de transparecer Jesus. Se alguém não conhece Jesus, se alguém desconhece o Seu Evangelho, o Seu projeto de vida, então façamos por que O conheçam e possam dessa forma decidir com as cartas todas na mão.

Naquele tempo, os Apóstolos procuraram corresponder às recomendações de Jesus, partindo e pregando o arrependimento, expulsando os demónios, ungindo com óleo os doentes e curando-os. Hoje cabe-nos fazer como eles, cabe-nos seguir Jesus, procurando agir do mesmo modo, anunciando-O e transparecendo o Seu amor.

 

4 – Na primeira leitura, e tal como no Domingo passado em relação a Ezequiel, o profeta Amós apresenta-se para anunciar a mensagem de Deus enfrentando a oposição.

O templo e a religião, coniventes com o poder real, tinham-se distanciado dos desígnios de Deus, promovendo o luxo e os que tinham um estatuto mais elevado, esquecendo e explorando as pessoas mais pobres, afastando-as do Templo, criando obstáculos e dificuldades, fazendo-os sentir-se impuros.

O sacerdote do templo real, incomodado com as palavras e a coerência de Amós quer expulsá-lo, proibindo-o de profetizar. A resposta de Amós é clarificadora: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor de gado e cultivava sicómoros. Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’».

Amós tem consciência da sua origem. Não foi chamado por ser rico ou bem-falante, ou pertencer a uma classe social elevada, ou a uma classe religiosa. Era pastor, cultivava sicómoros. É Deus quem o chama e quem o envia. Num ambiente favorável ou adverso, não está em nome próprio, mas em nome de Deus, o que não anula, evidentemente, a sua personalidade. Prevalece, contudo, a decisão firme de comunicar Deus e a Sua mensagem.

 

5 – Do que somos ao que queremos e devemos ser há um caminho de santidade a percorrer. O papa Francisco, na mais recente Exortação Apostólica Gaudete et exsultate (alegrai-vos e exultai), relembra-nos que a santidade é para todos, está acessível a todos, por todos deve ser procurada. Ser santo não é para um grupo, é para cada um. Como sublinha o Vaticano II, a vocação à santidade é universal, é a vocação de todo o batizado. Com efeito, procurar ser santo significa seguir Jesus e procurar identificar-se com Ele. Como dirá um dia São Paulo e como devemos também sentir-nos: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gál 2, 20).

Na segunda leitura o Apóstolo São Paulo clarifica esta nossa vocação e tarefa. Desde sempre Deus nos chamou para «sermos santos e irrepreensíveis, na caridade, na Sua presença». A vinda de Jesus assume o propósito de nos revelar o mistério da Sua vontade. N'Ele, Deus concede-nos a abundância dos Seus dons e da Sua bênção a fim de sermos um hino de louvor da Sua glória, pela nossa vida e em comunhão com os outros. A redenção passa pela aproximação aos irmãos, pela caridade, pelo serviço ao outro.

Este caminho de santidade radica e enraíza-se em Deus. Como cristãos, havemos de transparecer a Sua caridade nas nossas palavras e na nossa vida, sempre com a preocupação de O testemunharmos diante dos outros, em todo o tempo e lugar.

Como sempre, na dúvida ou na fraqueza, não cessemos de O invocar: «Senhor nosso Deus, que mostrais aos errantes a luz da vossa verdade para poderem voltar ao bom caminho, concedei a quantos se declaram cristãos que, rejeitando tudo o que é indigno deste nome, sigam fielmente as exigências da sua fé» (oração de coleta). Esta oração, com que iniciámos a Eucaristia, engloba-nos a nós que somos batizados na água e no Espírito Santo e continuamos inseridos na comunidade cristã, mas também engloba os que se afastaram ou ainda não chegaram à luz da Fé, e por quem somos responsáveis como enviados, como Apóstolos e Profetas.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Amós 7, 12-15; Sl 84 (85); Ef 1, 3-14; Mc 6, 7-13.


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