Domingo XV do Tempo Comum - ano A - 16 de julho de 2017


       1 – «Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho: vieram as aves e comeram-nas. Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram, porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz. Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e afogaram-nas. Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um».
       Jesus inspira confiança e, por conseguinte, as multidões continuam a aproximar-se, de tal que, nesta situação, tem de subir para um barco para se fazer ouvir. Os meios não são o mais importante, mas Jesus, exímio comunicador, também se serve dos meios, ora subindo a um barco, ora aproveitando o recolhimento da Sinagoga e a oportunidade para falar, ora subindo ao monte, a um lugar mais elevado, ou num lugar visível, ao centro, para que que todos possam fixar n'Ele o olhar e Ele o possa fazer com todos.
 

 
       2 – Saiu o semeador a semear, lançou a semente à terra, mas nem toda a semente caiu em terra favorável ao seu crescimento e amadurecimento. Fácil imaginar Jesus em Nazaré, da infância à idade adulta, num contacto próximo com a vida do campo, com a agricultura, com a natureza. Relembramos que o Pai, José, era carpinteiro. Por certo, também Jesus seguiu as pisadas do Pai. Um carpinteiro, à época, fazia vários trabalhos, da madeira à pedra e ao ferro; o que fosse necessário como arranjar alguma portada, ajudar a edificar um templo ou um palácio, construir ou reparar uma ponte, canalizar a água para algum campo. Mas as famílias sobreviviam também com o que produziam, trigo, centeio, hortaliça, árvores de fruto, animais de pequeno porte, cabras e ovelhas, que permitiam recolher a lã, o leite, produzir queijo. Na festa da Páscoa, tinham os próprios cordeiros para consumo familiar, permitindo também a venda de alguns ou a troca por outros bens necessários.
       A proximidade à terra facilita a compreensão da parábola. O semeador lança a semente, projetando o braço e abrindo a mão de forma a ir soltando o trigo ou o centeio. As sementes não caem de forma uniforme e o controlo sobre o lugar onde caem é bastante preciso, mas há sempre sementes que ultrapassam o limite do campo. O próprio Jesus poderá ter desempenhado esta tarefa ou visto familiares a fazê-lo. O objetivo do semeador é que a semente caia em boa terra para frutificar com abundância.
 
       3 – Algumas das parábolas deixam que possamos retirar ilações e explicações, tentando perceber o que Jesus nos quer dizer. Com esta parábola também, mas com um senão, o próprio Jesus a interpreta:
 
«Quando um homem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe de momento com alegria, mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante, e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra, sucumbe logo. Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra, que assim não dá fruto. E aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».
       A explicação de Jesus faz-nos perceber a Sua mensagem. O Semeador é Jesus. A semente é a Palavra de Deus, a fé concretizável na esperança e na caridade. O campo somos nós. Por vezes somos terra árida, muitas coisas nos ocupam e distraem. Outras, temos boa vontade e até estamos recetivos, mas surgem dificuldades e não estamos para nos chatear. Há ocasiões em que persistimos apesar de tudo, do sofrimento, do sacrifício e das contrariedades e fazemos com que a Palavra de Deus, semente em nós lançada, rebente e frutifique generosamente.
 

 
       4 – A semente, como se vê na parábola, é abundante. Cai em todo o lado, é para todos. Mas se é Deus que lança a semente e a faz frutificar, há um dado que salta à vista, depende também de nós. Se nos fechamos, o Espírito de Deus não fará germinar a semente. Se abrimos o nosso coração e a nossa vida a Deus, se nos tornarmos terra trabalhada, cavada, a semente encontrará as condições para frutificar.
       As palavras de Jesus assumem uma forte interpelação: «O coração deste povo tornou-se duro: endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos». Os discípulos estão chamados a seguir Jesus e não a dureza "deste povo": «Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque veem e os vossos ouvidos porque ouvem!».
       Na primeira leitura, o profeta Isaías sublinhava que a Palavra de Deus é como a chuva e a neve que caem à terra e que não regressam ao céu «sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer». Assim a Palavra de Deus e a Sua vontade. O salmo alinha pelo mesmo diapasão: «Coroastes o ano com os vossos benefícios, por onde passastes brotou a abundância. Vicejam as pastagens do deserto e os outeiros vestem-se de festa. Os prados cobrem-se de rebanhos e os vales enchem-se de trigo. Tudo canta e grita de alegria».
       Deus toma a iniciativa. Vem na abundância da Sua bênção e dos Seus dons. Cumpre com a Sua palavra e a missão de nos trazer a salvação. Todavia, por vezes deixamos que o nosso egoísmo, o nosso pecado, as ervas daninhas, ocupem lugar no nosso coração e na nossa vida. Daí a necessidade e a urgência da oração. Na oração da Eucaristia, pedimos-Te: «Senhor nosso Deus, que mostrais aos errantes a luz da vossa verdade para poderem voltar ao bom caminho, concedei a quantos se declaram cristãos que, rejeitando tudo o que é indigno deste nome, sigam fielmente as exigências da sua fé».
       A fé há de germinar na nossa vida de todos os dias, gerando frutos de caridade!
 
       5 – Na missiva aos Romanos, Paulo recorda-nos como Cristo nos redimiu pela oblação da Sua vida. No entanto, vivemos ainda "na carne", vivemos sob as coordenadas do espaço e do tempo e da história, sujeitos às nossas fragilidades e às limitações dos outros.
        O Apóstolo anima-nos a colocar o olhar no horizonte, como esperança, como certeza de encontro festivo com Deus. Olhar para o manhã, não para desculpar o presente, mas para persistir, lutar, comprometer-se com o mundo atual. Com efeito, saber que Deus nos salva em Jesus Cristo levar-nos-á a dar razões da nossa esperança, resistindo ao mal, superando os obstáculos, fortalecendo a fé. Os sofrimentos presentes nada são em relação aos benefícios que se hão de manifestar. «Toda a criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. E não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adoção filial e a libertação do nosso corpo».
       A gravidez é uma bênção e sobretudo quando é desejada (mesmo que não o tenha sido inicialmente). Os incómodos da gravidez e as dores do parto são superáveis pela certeza da nova vida que está a chegar, como osso dos meus ossos, carne da minha carne.
       A certeza do amanhã, a esperança que nos atrai para Deus mobiliza-nos ao compromisso com as pessoas que caminham connosco, pois sabemos que todo o bem feio hoje permanecerá para sempre, na glória de Deus, que se inicia no momento presente, aqui e agora.
 
Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (ano A): Is 55, 10-11; Sl 64 (65); Rom 8, 18-23; Mt 13, 1-23.

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