Domingo XIX do Tempo Comum - ano C - 11 de agosto de 2019


1 – Vigilância cristã: oração e serviço. É bem conhecido o lema de São Bento, regra da ordem beneditina: ora et labora (reza e trabalha). Ou a expressão de Santo Inácio de Loiola: «Age como se tudo dependesse de ti, mas consciente de que na realidade tudo depende de Deus».

A vigilância proposta por Jesus não é passiva, de quem espera que o sol se ponha e a vida se cumpra, mas ativa, de quem trabalha a terra, a vida, o coração, de quem aproveita o sol e a chuva, para que ajudem a germinar e a amadurecer a semente que foi lançada no campo!

A vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens. Dizia-nos Jesus há oito dias! Dessa forma se colocava contra a ganância e a avareza. Mas se a vida não depende da abundância dos bens, isso não significa que os bens não sejam importantes. O pão nosso que Deus nos dá em cada dia é também pão lançado à terra como semente, ceifado, grãos moídos, farinha amassada e cozinhada. O pão nosso que Deus nos dá traz o sabor do nosso trabalho, das nossas mãos, e nele colocamos também o coração e por isso sabe tão bem e tão bem que sabe que queremos que os outros também o saboreiem.

Os discípulos precisam de aprender a desprender-se. Nada deve antepor-se ao projeto de Deus. Nada nos pode separar do Seu reino de amor e de paz. «Não temas, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino. Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração».

 

2 – «Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração».

Vivemos para trabalhar ou trabalhamos para viver? A resposta a esta questão pode fazer toda a diferença, entre a avareza e a alegria! Se vives para trabalhar, para acumular, para teres cada vez mais, independentemente dos outros, ou melhor, mesmo que tenhas de usares os outros em teu benefício, então a vida passar-te-á ao lado, pois o teu mundo será preenchido apenas de preocupações, ansiedade, medo de perder para os outros, desconfiança. Se trabalhas com honestidade para viveres, com dignidade e com a comodidade própria de cada tempo, então não faltará oportunidade para olhares e apreciares o mundo que te rodeia, a natureza, as pessoas, encarando os fracassos e os sucessos numa perspetiva mais ampla, sem cair em desespero na adversidade, sabendo que há altos e baixos, nem criando laivos de soberba na bonança.

Se o nosso olhar se mantiver baixo, inclinado sobre nós ou sobre o que pisamos, sobre o que dominamos, então a vida sempre nos surpreenderá (negativamente), sempre nos provocará calafrios e os menores contratempos serão vistos como desgraçadas. Se o nosso olhar se abre aos outros, ao mundo, além da árvore que está à nossa frente, se conseguimos ver a floresta, olhar para o Céu, será então possível que até mesmo os momentos negativos sejam vistos como momentos passageiros que fortalecem a nossa garra em viver, sabendo que o que nos mantém seguros é o amor, a ligação aos outros, a vida em Deus.

As palavras de Jesus desafiam-nos a uma vigilância que se faz serviço. «Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento... Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem».

Oração e serviço. Atenção, contemplação, disponibilidade para acolher, para amar, para cuidar, para servir. A qualquer hora do dia ou da noite. É assim a vida dos discípulos de Jesus, sempre em dinâmica de oração, procurando em tudo perscrutar a presença de Deus, e em atitude de serviço aos irmãos, em todas as circunstâncias da vida.

 

3 – «Senhor, é para nós que dizes esta parábola, ou também para todos os outros?». Pedro, uma vez mais, em nosso nome também, questiona Jesus sobre as suas palavras, como se se pudesse colocar de fora.

Todavia, quando Jesus fala, recordemo-lo, nunca é para o outro, é para mim e para ti. Só assim estaremos dentro do grupo dos seus discípulos. Por outro lado, Jesus deixa claro que quanto maior a consciência, a proximidade a Ele, maior a responsabilidade. «O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou ou não cumpriu a sua vontade, levará muitas vergastadas. Aquele, porém, que, sem a conhecer, tenha feito ações que mereçam vergastadas, levará apenas algumas. A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».

A vigilância é para todos, o compromisso é de cada um, com as suas qualidades e imperfeições.

 

4 – Caminhamos como peregrinos até que nossa seja a morada celeste. Vamos experimentando a fragilidade dos nossos passos, mas igualmente, pela fé, a certeza que Deus nos ampara e protege, nos abençoa e ilumina os nossos passos.

O livro da sabedoria dá-nos nota como os israelitas sentiram sempre a presença e a intervenção de Deus, ao ponto de serem conduzidos até à terra prometida, sendo libertados do Egito e guiados pelo deserto. A Deus, a Quem Jesus nos ensina a chamar Pai, nos dirigimos em oração: «Deus eterno e omnipotente, a quem podemos chamar nosso Pai, fazei crescer o espírito filial em nossos corações para merecermos entrar um dia na posse da herança prometida». Reconhecendo-O como Pai, assumindo-nos como filhos, comprometendo-nos como irmãos.

 

5 – O ponto de encontro: a fé. Pois só a fé nos faz ver além do tempo e da história, e nos faz perceber que existe vida além do chão, das nossas preocupações e do nosso trabalho. A fé faz-nos ver Deus, faz-nos reconhecer que a vida Lhe pertence, para que ninguém no-la possa tirar.

A fé, diz-nos a Epístola aos Hebreus, «é a garantia dos bens que se esperam e a certeza das realidades que não se veem. Ela valeu aos antigos um bom testemunho. Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento e partiu para uma terra que viria a receber como herança; e partiu sem saber para onde ia. Pela fé, morou como estrangeiro na terra prometida, habitando em tendas, com Isaac e Jacob, herdeiros, como ele, da mesma promessa, porque esperava a cidade de sólidos fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus».

Abraão continua a ser uma referência luminosa da fé e da confiança em Deus. Procura escutar a voz de Deus para concretizar, com a sua família, a vontade divina. Do mesmo modo, diz-nos a mesma Epístola, «Sara recebeu o poder de ser mãe já depois de passada a idade, porque acreditou na fidelidade d’Aquele que lho prometeu. É por isso também que de um só homem – um homem que a morte já espreitava – nasceram descendentes tão numerosos como as estrelas do céu e como a areia que há na praia do mar. Todos eles morreram na fé, sem terem obtido a realização das promessas».

Todavia, as promessas foram vistas à distância, vivendo como peregrinos à procura da pátria, não a anterior, mas a celeste. As promessas serão cumpridas, plenamente em Jesus Cristo que pela ressurreição antecipa a vida eterna, onde Ele já Se encontra e de onde nos atrai e para a qual nos preparamos, agora, aqui na terra, identificando-nos com Ele, para que, quando o Céu chegar para nós, Ele nos reconheça como Seus e nos acolha à direita do Pai.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Sab 18, 6-9; Sl 32 (33); Hebr 11, 1-2. 8-19; Lc 12, 32-48.


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