Domingo XIX do Tempo Comum - ano B - 12 de agosto de 2018


1 – Sejamos realistas: o que é que nos sacia? Falando em apetite físico, biológico, nem todos os alimentos são iguais, nem todos os alimentos nos satisfazem da mesma forma. De contrário, poderíamos comer apenas um alimento, na quantidade certa, ou preparar um comprimido com os diversos ingredientes, proteínas, vitaminas, fibras... para que o nosso organismo estivesse equilibrado e saudavelmente robusto. Mas há muitos fatores em que os sentidos intervêm, o aspeto – os olhos também comem – a textura, cheiro – abre-nos o apetite ou afasta-nos da mesa – conta também o apetite que se tem, a companhia, o tempo disponível e a própria disposição momentânea. Há quem esteja mal e não consiga comer e quem coma sem parar como que a tentar preencher algum vazio de emoções, ansiedade, preocupação! O mesmo tipo de alimento nem sempre nos satisfaz.

Já nos aconteceu estar diante de um belo banquete e não nos apetecer nada, não termos fome ou comermos meio enfastiados! Qual pedido ao Ambrósio: apetecia-me algo, não sei bem o quê!

Uma das condições para saborear um alimento, à partida, é a vontade de comer. Só procuramos comida quando sentimos necessidade. Não é um absoluto, pois o odor ou o aspeto da comida pode despertar-nos o apetite. Noutras situações, é necessário provocar esse apetite. Tudo isto pode ajudar-nos a refletir na Palavra de Deus que hoje nos é servida como alimento que nos compromete e nos desafia, nos preenche e pode tornar luminosa a nossa existência.

 

2 – Jesus apresenta-Se como alimento para esta vida e até à vida eterna. «Eu sou o pão que desceu do Céu». Não é uma afirmação fácil. Não é uma afirmação neutra. É a Sua identidade! É a Sua garantia em tornar-se PÃO que alimenta e sacia a nossa fome no que tem de mais profundo, de busca, de caminho, de felicidade!

É curioso verificar que há pouca ou nenhuma neutralidade na postura de Jesus. Habituamo-nos a ver a Sua delicadeza, docilidade, a sua diplomacia até em contraste com João Batista, cuja frontalidade é explosiva. Porém, Jesus suscita opções, seguimento ou recusa. Quem quiser seguir-Me renuncie a si mesmo! A vossa linguagem sejam "sim, sim" e "não, não", tudo o que vai além disso é diabólico!

Aproximemo-nos um pouco mais de Jesus! As Suas palavras geram controvérsia e murmuração entre judeus. Mas porquê? "Eu Sou o Pão da Vida"! Será uma provocação? Será assim tão ofensivo? No seguimento, começamos a perceber a alcance das palavras de Jesus. Ele não diz que é como o pão, Ele afirma-Se «o Pão vivo» e isso implica que nos posicionemos, reconhecendo-O ou seguindo outro caminho.

Os judeus estranham e contestam as palavras de Jesus: «Não é Ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que Ele diz agora: ‘Eu desci do Céu’?». Fica claro também para nós que Jesus é maior do que o nosso conhecimento a Seu respeito. Podemos conhecer algumas coisas, mas o decisivo será acolhê-l'O e deixar que entre na nossa vida, ainda que continue a ser mistério.

 

3 – O que sabemos acerca de uma pessoa é sempre relativo. Obviamente que vamos aprofundando o conhecimento na proximidade, na comunicação, falando, observando atitudes e comportamentos, mas há sempre, positiva e/ou negativamente, aspetos que nos escapam, pois a pessoa não é um objeto de conhecimento neutro, mas sujeito que se apresenta como mistério, para os outros, mas também para si.

Por maioria de razão, Jesus é mistério que Se revela, Se comunica e, sobretudo, que Se dá a favor da humanidade. É mistério que nos traz a eternidade de Deus, nos revela o amor do Pai, tornando visível o acesso à vida eterna. Ele é a Porta, é a Ponte que nos liga a Deus Pai, num movimento ascendente e descendente. Faz-Se um de nós, tornando-Se Deus connosco e, não deixando de ser Deus, permanecendo verdadeiramente Homem. N'Ele a comunhão perfeita, plena, o encontro definitivo de Deus e do Homem. Ele é verdadeiramente o único Mediador entre Deus e a Humanidade.

«Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia... Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino vem a Mim... Quem acredita tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram. Mas este pão é o que desce do Céu... Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo»

Nas palavras de Jesus, a certeza que n'Ele é visível o amor de Deus, a Sua bondade, a Sua misericórdia infinita. Jesus é o alimento para esta vida, abrindo-nos as portas da eternidade, inserindo-nos no coração de Deus. A acentuação do mistério revela, por outro lado, que o decisivo é a fé em Jesus, como Filho amado de Deus, que nos dá Deus e nos permite comungar com Ele para sempre.

 

4 – «Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos» (2 Crónicas 36, 21). Recuperamos a promessa feita ao Povo Eleito, através do profeta Jeremias, para mergulharmos na história da salvação que tem o seu pleno cumprimento em Jesus Cristo, no mistério da Sua morte e ressurreição.

Deus assiste o Seu povo em prol da humanidade inteira. Como Pai, como Pastor, como Mãe que amamenta os seus filhinhos, através dos profetas e dos reis, dos sacerdotes e dos juízes, Deus não cessa de velar pela bondade que salva, pelo amor que redime, pelo perdão que aproxima, pela ternura que converte, pela misericórdia que nos constitui como povo, como família. Mas são muitos os sábados de afastamento, de pecado, de egoísmo e de ódio, de violência e soberba, de inveja e ganância desmesurada, de prepotência bárbara e de usurpação do poder, de divisão e idolatria.

Elias é um dos profetas mais bem quistos de Israel. Ele transporta de novo a esperança ao povo de Deus. Faz regressar a vontade de seguir os preceitos do Senhor. Elias não se coloca sobranceiramente acima do povo, mas dentro da sua história e do seu pecado. No deserto sente a tentação do abandono, chegando a desejar a própria morte. «Já basta, Senhor. Tirai-me a vida, porque não sou melhor que meus pais».

E quando parece que tudo se desvanece, ainda resta Deus. O Seu Anjo vem até Elias: «Levanta-te e come... porque ainda tens um longo caminho a percorrer». Uma e outra vez, o pão cozido e a água refrescante. Uma e outra vez, Elias come e bebe, alimentando-se e fortalecendo-se. Pode agora voltar à estrada, caminhando durante 40 dias e 40 noites, até ao monte de Deus, o Horeb. O verdadeiro alimento vem de Deus, sacia-nos das fomes mais profundas que há em nós. Podemos prosseguir ao Seu encontro.

 

5 – Diante de Jesus não há lugar para meias-tintas! Ele conhece-nos e sabe que somos barro! No entanto chama-nos. A todos. A mim e a ti. Chama-nos não em virtude dos nossos méritos, mas por amor, envolvendo-nos, desafiando-nos, enviando-nos. É paradigmático o chamamento de Pedro, apóstolo que surge titubeante, impulsivo, com o coração ao pé da boca; pronto para tudo, para defender o Mestre, mas quando chega a hora da verdade, rabo entre as pernas, e toca a esconder-se, a negá-l'O, a disfarçar-se de alguém que não é. Mas é a Pedro que Jesus chama e designa para chefe da Sua Igreja, pela humildade e pela capacidade de regeneração. Lá diz o ditado, Deus não chama os capazes, capacita os chamados!

Se aceitamos seguir Jesus, se O reconhecemos como Messias, o Filho de Deus, como o Pão vivo descido do Céu, cabe-nos, em consequência, viver de acordo com o que dizemos, com o que professamos, de acordo com Aquele que acolhemos como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Quem ama vai querer ajustar-se ao sujeito do seu amor, identificando-se, sincronizando. Isso mesmo nos diz São Paulo: «Não contristeis o Espírito Santo de Deus... Seja eliminado do meio de vós tudo o que é azedume, irritação, cólera, insulto, maledicência e toda a espécie de maldade. Sede bondosos e compassivos uns para com os outros e perdoai-vos mutuamente, como Deus também vos perdoou em Cristo. Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados. Caminhai na caridade, a exemplo de Cristo, que nos amou e Se entregou por nós, oferecendo-Se como vítima agradável a Deus».

Bondade e compaixão, perdão e caridade, imitando Deus, que Se revela totalmente em Jesus Cristo, que nos amou primeiro e Se entregou por nós.

 

6 – Com a ajuda do salmista e em jeito de oração, de súplica, de reconhecimento de tudo quanto Deus faz por nós, respondamos à Palavra de Deus com a própria Palavra de Deus: «A minha alma gloria-se no Senhor: escutem e alegrem-se os humildes. Enaltecei comigo o Senhor e exaltemos juntos o seu nome. Procurei o Senhor e Ele atendeu-me, libertou-me de toda a ansiedade. Voltai-vos para Ele e ficareis radiantes, o vosso rosto não se cobrirá de vergonha. Este pobre clamou e o Senhor o ouviu, salvou-o de todas as angústias. O Anjo do Senhor protege os que O temem e defende-os dos perigos. Saboreai e vede como o Senhor é bom: feliz o homem que n’Ele se refugia».

Em atitude de pobreza humilde, abramo-nos à graça de Deus, saboreando a Sua bondade infinita!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): 1 Reis 19, 4-8; Sl 33 (34); Ef 4, 30 – 5, 2; Jo 6, 41-51.


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