Domingo XIV do Tempo Comum - ano C - 7 de julho de 2019


1 – "Ide". Esta é a conclusão do encontro final de Jesus com os Seus discípulos. Hoje somos nós os discípulos. A última palavra que Jesus nos diz compromete-nos com a evangelização. Durante alguns anos a Diocese de Lamego viveu enformada por este "IDE", cujo mandante é Jesus, através da Igreja; os mandatados somos nós, os batizados, em Igreja, membros do Corpo de Cristo. Eu e tu. Em missão. Todos, tudo e sempre em missão.

Em comunhão com o Papa Francisco, que a cada passo nos recorda a importância da Igreja estar em dinâmica de saída, ao encontro das 99 ovelhas que se encontram fora do redil, na convocação do um mês missionário extraordinário no próximo outubro; em sintonia com a Igreja em Portugal, que vive um ano missionário extraordinário (de outubro a outubro, de 2018 a 2019), a nossa diocese, sem se esquecer daquele "IDE", refletindo sobre a realidade eclesial, fixou-nos no lema: Igreja de Lamego, chamada e enviada em missão.

Víamos, nos domingos anteriores, como Jesus nos chama e quais as exigências que nos faz: responder com palavras e com a vida, não hesitar em segui-l'O, saber que poderão advir dificuldades, a importância de O conhecermos (com o coração) em primeira mão, pessoalmente, e não apenas por interpostas pessoas, ainda que sejam importantes na aproximação a Ele, para O amarmos, transparecendo-O.

A primeira vocação, universal, de todos os batizados, é à santidade. Dito de outra maneira, a vocação a seguir Jesus com tudo o que isso implica de transfiguração da nossa vida para ser semelhante à de Jesus, procurando assemelhar-nos a Ele, sintonizarmos com a Sua vontade, procurando decalcar os nossos passos nos d'Ele, imitando-O a fazer o bem, a aproximar-se de todos, atendendo especialmente aos mais frágeis.

 

2 – Seguindo a lógica de Jesus, a acentuação de uma dimensão da vida, ou da fé, não exclui as demais, quando muito pressupõe-nas ou exige-as. Acentuar a dimensão vocacional, não invalida ou secundariza a dimensão litúrgica ou caritativa, ou a dimensão missionária. A aposta terá de ser na inclusão, pois não se compreendem umas sem as outras. É essa a opção de Jesus, o Seu agir. Vem para todos, está atento a tudo, mas a opção preferencial é pelos excluídos, pobres, pecadores, publicanos, os mais pequenos da sociedade, crianças, mulheres, servos, doentes. Assim nas paróquias, nas dioceses ou, por sugestão papal, na Igreja Católica, vão-se propondo temas, anos jubilares, peregrinações, temáticas, para nos ajudar a viver melhor a nossa fé, na inserção à comunidade.

Isto tudo para dizer que o "IDE" da Diocese de Lamego não deixou de estar presente e de se vincar a cada passo. Também no presente ano pastoral, sublinhando-se, desta feita, que a vocação e a missão andam de mãos dadas, são faces da mesma moeda, não vivem uma sem a outra. Não há ninguém que seja chamado que não tenha por missão transparecer e testemunhar Aquele que chama. Ninguém é enviado sem ser chamado, sem estar ligado e próximo d’Aquele que envia. Dizia-se que o cristão é discípulo e missionário/apóstolo. A V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe, em Aparecida – na qual o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, atual Papa Francisco, presidiu à Comissão dos Relatores do Documento final – consagrou a expressão "discípulos missionários", concluindo-se que não pode haver discípulos que nãos sejam missionários, nem missionários que não sejam ou deixam de ser discípulos.

 

3 – As últimas palavras de Jesus cristalizam o envio, a missão de ir por todo o mundo a anunciar o Evangelho, a proclamar o Reino de Deus, a batizar e fazer discípulos. Embora fruto e consequência da Ressurreição, é uma preocupação que está presente durante o seminário que os discípulos fazem com Jesus. Por um lado, porque o Próprio vai agindo desse modo. Ele vive em movimento, por aldeias e cidades. Pára o tempo necessário, mas avança: vamos a outros lugar levar a Boa Nova da Salvação, porque foi para isso que Eu vim ao mundo. Por outro lado, vai clarificando as condições para que os discípulos sejam Seus discípulos e as exigências para serem Seus apóstolos.

O Evangelho de hoje é sintomático. Jesus "treina" os Seus discípulos, enviando-os, dois a dois, aos lugares aonde Ele havia de ir. Com o envio vêm as indicações, os avisos e as cautelas. Primeiro a oração para que outros possam participar da missão e para que tomemos consciência que somos sempre poucos. E, por outro lado, a certeza que é o Espírito Santo o protagonista da missão. «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara». A oração fortalece-nos para o que vamos encontrar. «Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos».

A leveza é uma das condições para partir ao encontro dos outros. «Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho». Se vamos muito sobrecarregados, a pensar no que deixámos atrás, se nos distraímos com tudo e mais alguma coisa, estamos a trair a missão.

Não nos pregamos a nós. Aviso de São Paulo às comunidades. Levamos a Mensagem de Jesus. Ou, por outras palavras, a Mensagem é o próprio Jesus que havemos de anunciar e a Paz que Ele nos dá, fruto do amor e do perdão. «Quando entrardes nalguma casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Comei do que vos servirem, curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’». A missão implica-nos e compromete-nos. Temos que nos envolver na vida das pessoas, nas suas dificuldades e sofrimentos, nas suas alegrias e festas. Temos que comer do que nos servirem, a bonança ou a adversidade, a partilha ou dureza das situações. Não andemos a saltar de casa em casa, a fazer de conta. Curemos os enfermos, anunciemos a proximidade do Reino e o Amor que Deus nos tem. Se não nos receberem, ainda assim não deixemos de anunciar a proximidade do Reino.

 

4 – Na volta, os 72 discípulos extravasam alegria: «Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome». Mais uma vez se vê que Jesus não ficou sentado à sombra da bananeira, mas a rezar para que os discípulos sentissem a alegria de levar a Boa Nova às aldeias e cidades: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões e dominar toda a força do inimigo; nada poderá causar-vos dano. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».

Na oração com que iniciámos a Eucaristia, situamo-nos igualmente na Boa Nova de Jesus que nos salva, livrando-nos de toda a escravidão: «Deus de bondade infinita, que, pela humilhação do vosso Filho, levantastes o mundo decaído, dai aos vossos fiéis uma santa alegria, para que, livres da escravidão do pecado, possam chegar à felicidade eterna».

 

5 – A alegria que os discípulos experimentam é prometida e anunciada por Isaías. "Alegrai-vos com Jerusalém, exultai com ela, todos vós que a amais. Com ela enchei-vos de júbilo, todos vós que participastes no seu luto".

A promessa cumprir-se-á com Jesus. Isaías já vê! E quer que o povo de Deus não se deixe abater pelas contrariedades, pois o Senhor não tardará. «Farei correr para Jerusalém a paz como um rio e a riqueza das nações como torrente transbordante. Os seus meninos de peito serão levados ao colo e acariciados sobre os joelhos. Como a mãe que anima o seu filho, também Eu vos confortarei: em Jerusalém sereis consolados. Quando o virdes, alegrar-se-á o vosso coração e, como a verdura, retomarão vigor os vossos membros. A mão do Senhor manifestar-se-á aos seus servos». O luto dá lugar ao júbilo, a dúvida à esperança, a incerteza dá lugar à fé. O Senhor não falta com as Suas promessas.

 

6 – São Paulo deixa bem claro que é Apóstolo de Jesus e, por conseguinte, não se gloria de si mesmo, mas sempre da cruz de Jesus, pela qual o mundo está crucificado para ele e ele para o mundo. É pela Cruz de Jesus, pela Sua oferenda por nós ao Pai, que nos tornámos novas criaturas.

E, sendo discípulo missionário, também Paulo anuncia a paz de Cristo. "Paz e misericórdia para quantos seguirem esta norma, bem como para o Israel de Deus". A identificação de Paulo a Jesus é sublinhada em diversas ocasiões. Nesta mesma Carta, aos Gálatas, o apóstolo diz inequivocamente: "Já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim" (Gal 2, 20). Hoje, voltando-se para a comunidade, desafia-a: "Doravante ninguém me importune, porque eu trago no meu corpo os estigmas de Jesus". É um desafio que é também um testemunho e, por isso, termina-os saudando-os: "Irmãos, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito". Assim seja.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Is 66, 10-14c; Sl 65 (66); Gal 6, 14-18; Lc 10, 1-12. 17-20


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