Domingo XIV do Tempo Comum - ano B - 8 de julho de 2018


1 – «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». Tendo crescido em Nazaré, Jesus é conhecido de todos, pois é uma cidade pequena, em que todos se conhecem, são vizinhos, têm relações familiares, ao ponto de no Evangelho os Seus parentes serem referenciados como irmãos e irmãs e Ele ser conhecido como filho de Maria e de José, o carpinteiro!

Quando nos conhecemos bem uns aos outros e convivemos amiúde, é natural que não esperemos mais do que aquilo que estamos habituados a ver. A ausência de alguém durante determinado período de tempo pode alterar o conhecimento e as expetativas. Jesus tinha iniciado a Sua vida pública e antes de chegar a Nazaré já lá tinha chegado a fama de pregador, profeta e fazedor de milagres. Alguns dos seus conterrâneos, amigos e familiares vão até Ele com certa curiosidade.

Num primeiro momento, contudo, ressalva-se a admiração provocada pelas suas palavras: «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?»

A perplexidade toma conta dos seus ouvintes. O texto não pressupõe qualquer atrito até ao momento de Jesus voltar à carga: «Um profeta só é desprezado na sua terra…».

 

2 – A sobriedade de Marcos não nos permite saber com exatidão o que terá acontecido entre a admiração inicial dos ouvintes e a reação provocatória de Jesus.

O evangelista São Lucas é mais prolixo nesta passagem. No regresso a Nazaré, Jesus vai à Sinagoga, em dia sábado. Aí, levanta-Se, entregam-Lhe o livro de Isaías onde lê a passagem: «Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres…». Jesus conclui que naquele momento se cumpre esta passagem da Escritura. E prossegue: por certo ides citar-me o provérbio «Médico cura-te a ti mesmo… nenhum profeta é bem recebido na sua pátria...». E acrescenta que Elias não foi enviado às viúvas de Israel mas a uma viúva estrangeira... e que no tempo de Eliseu, havendo muitos leprosos, só o sírio (estrangeiro) Naaman foi purificado (cf. Lc 4, 16-30).

Em Lucas, o furor da multidão parece mais razoável, ainda que não haja uma justificação cabal para "dramatização" de Jesus, a não ser pela Sua sensibilidade, pela observação cuidada dos rostos e das expressões, pela capacidade de perscrutar os corações daqueles que estão à Sua frente. Nem sempre precisamos que nos respondam com palavras para percebermos as reações, sentimentos ou emoções que provocamos nos outros, basta um olhar, um sorriso, um encolher de ombros, um franzir das sobrancelhas, a agitação de movimentos corporais...

Na conclusão, o evangelista diz-nos claramente que Jesus estava admirado com a falta de fé daquela gente e, por conseguinte, não podia ali fazer qualquer milagre, "apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos".

 

3 – Milagres e curas! Jesus, apesar de tudo, curou alguns doentes e prosseguiu por outras aldeias e cidades a ensinar. Questionamo-nos: então as curas não são milagres? Pelo menos são sinais de que Deus continua a agir no mundo. Porém, o verdadeiro milagre, o mais difícil é a conversão, a mudança de vida, a resiliência diante das dificuldades, a aceitação das próprias limitações e fragilidades, a solidariedade nas dificuldades, o apoio aos mais frágeis, o serviço a favor dos mais simples e pobres.

Durante a vida pública de Jesus, a começar pelos Seus discípulos, são frequentes as disputas de poder, a procura do milagre fácil, o desejo de vingança com os que estão no poder, a demarcação dos eleitos de Deus para com os estrangeiros e os impuros, a expetativa de um reino novo que se imponha pela força, substituindo o vigente. Jesus vai mostrando, pelas palavras, pelos gestos e pelas obras, que é necessário amar, trabalhar pelo alimento que perdura até à vida eterna, servir, cuidar do outro, dar a outra face, perdoar em todas as circunstâncias, dar e dar-se a favor dos outros, acolher, incluir, dar a vida! No reino que Ele inaugura, anuncia e preconiza o primeiro lugar é para quem serve!

Nem só de pão vive o homem... mas também do pão e do trabalho, do suor e das lágrimas. Logo no início, Deus deu-nos a tarefa de cuidarmos da terra. O pecado e a ganância sem limites, o egoísmo e a inveja conduziram ao pecado, ao trabalho como castigo e não, como deveria ser, como realização e vocação, como compromisso solidário por todos. Mas ficar à espera que a vida aconteça sem fazermos por isso não cabe nos planos de Jesus: dai-lhes vós mesmo de comer!

4 – Olhando mais diretamente para a nós, para a nossa vida e para o nosso relacionamento com os  outros, em que ponto a Palavra de Deus, sobretudo o Evangelho, nos desafia e compromete?

Os conhecidos, os amigos e familiares de Jesus surpreenderam-se com Ele! Com efeito, o outro é sempre um mistério, nunca o conhecemos totalmente. Não podemos dar o outro como garantido, na família, no trabalho, na profissão, nos grupos a que pertencemos. A pessoa é mistério! Em todo o caso devemos apostar, acreditar, confiar. Mas nunca endeusar. Contar que os outros podem desiludir-nos, pois não são deuses. Contar que em algum momento, por algum deslize, por algum esquecimento, poderemos magoar os outros e desiludi-los. Apesar disso, apostar, acreditar e confiar na bondade e na autenticidade dos outros, como fez Jesus, que escolhe os Seus discípulos, sabendo que pelo caminho podem falhar, mas mesmo assim escolhe-os, prepara-os, previne-os e não desiste deles, nem mesmo depois de O abandonarem, O traírem e de O negarem.

Ninguém é profeta na sua terra ou em sua casa! Todos conhecemos na família, entre os amigos, ou na vizinhança, pessoas extremamente afáveis, simpáticas, generosas para os de fora, mas verdadeiros trastes em casa, indelicadas, indispostas, rabugentas! De fora ninguém sonha. O que se passa no convento só sabe quem está dentro. Por um lado, o convívio coloca-nos mais à vontade, relaxa-nos, dá-nos segurança e confiança. E isso é bom, desde que continuemos a ser atenciosos e capazes de dizer "obrigado", "com licença", "desculpa", as três palavrinhas que fazem bem aos relacionamentos, às famílias, como tem sublinhado o Papa Francisco em diversas ocasiões. É tempo de começarmos por ser profetas na própria casa, pois não podemos ser fora o que não somos em casa. Seria uma hipocrisia tremenda. Mesmo sabendo que há momentos em que o cansaço ou as diferenças geram aborrecimentos. Mas momentos são momentos, não são o tempo todo!

 

5 – Entre os parentes e os conterrâneos, Jesus apresenta-Se como Profeta. Podem não O escutar, mas Ele não deixa de Se comunicar, de revelar a vontade do Pai, encarnando o Reino de Deus, nas palavras e nos gestos, no apelo à conversão, na denúncia daqueles que espezinham o pobre, e propõe a inclusão de todos a começar pelos mais desfavorecidos. Para Deus todos são filhos, também os pobres, também as mulheres, as crianças, os pecadores, os estrangeiros, os doentes, os cobradores de impostos.

Na primeira Leitura, Ezequiel é impelido pelo Espírito e, como Profeta, é enviado para o meio do povo, a anunciar os desígnios Deus. «Podem escutar-te ou não – porque são uma casa de rebeldes –, mas saberão que há um profeta no meio deles». Ezequiel tem a missão de ser mensageiro de Deus, procurando caminhos de justiça, de verdade e de reconciliação. Mas nem tudo dependerá da sua missão. Pode não transformar aqueles a quem anuncia, mas tem a missão de ser profeta, de fazer o que lhe compete. O mesmo para nós. Não nos cabe mudar o mundo todo, cabe-nos fazer o que está ao nosso alcance para que todo o nosso mundo, a nossa vida, transpareça a bondade de Deus que nos habita.

 

6 – Na segunda leitura, São Paulo salienta como em toda a sua jornada, não teve a vida facilitada, precisamente, confessa, para não se ensoberbecer pela grandeza da missão: o anúncio do Evangelho. Na oração pede a Deus que o livre de tais tormentos. Deus não lhe retira o sofrimento, mas garante-lhe a Sua graça, pois na fraqueza revela a Sua grandeza.

Paulo conclui dizendo que de boa vontade se gloriará das suas fraquezas, para que nele habite o poder de Cristo. «Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte».

Na verdade, a grandeza e a salvação que vem de Deus tem o seu ponto mais expressivo e solene na Cruz, isto é, na aparente derrota, na humilhação e morte de Jesus. É também essa a oração inicial da Eucaristia: «Deus de bondade infinita, que, pela humilhação do vosso Filho, levantastes o mundo decaído, dai aos vossos fiéis uma santa alegria, para que, livres da escravidão do pecado, possam chegar à felicidade eterna».

O próprio Apóstolo, na primeira missiva aos Coríntios, clarifica, dizendo que «o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa» (1 Cor 1, 27-28).

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Ez 2, 2-5; Sl 122 (123); 2 Cor 12, 7-10; Mc 6, 1-6.


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