Domingo XIII do Tempo Comum - ano C - 30 de junho de 2019


1 – Chamamento e missão, vocação e envio, discipulado e apostolado. Expressões que se completam e mutuamente se exigem naqueles/as que querem seguir Jesus e, por conseguinte, se convertem em discípulos missionários.

A Diocese de Lamego assumiu como lema pastoral precisamente: Igreja de Lamego chamada e enviada em missão. Esta decorre daquela e aquela só faz sentido se tiver como finalidade esta. Ninguém é chamado para se deitar à sombra da bananeira, a gozar de um descanso imerecido. Ninguém é enviado sem antes ser chamado, como se compreende. Ninguém se envia ou se faz missionário por auto recreação, pois, nessa mesma lógica, ninguém se anuncia ou se prega a si mesmo, mas anuncia e prega Aquele que chama e envia.

Na semana passada Jesus aferiu da nossa firmeza e da nossa fé. E vós quem dizeis que Eu sou? Víamos que não basta sabermos umas coisitas acerca d'Ele, precisamos de O conhecer a fundo (conhecer com o coração e não apenas intelectualmente), de O amar, de saber quem É e como age, para nos deixarmos transformar por Ele e, só nessa ocasião, podermos testemunhá-l'O.

Hoje Jesus dá-nos mais algumas pistas. Não poderemos depois alegar que não sabíamos. Ele não nos promete um paraíso caído do Céu, mas um caminho que nos conduzirá ao paraíso, ao Céu, e que passa por cuidar da terra e sobretudo das pessoas. Sem reservas. Sem vacilar. Cuidar, amar e servir.

 

2 – O caminho de Jesus é seguro e decidido. Por amor, Jesus vai até ao fim, até Jerusalém. Independentemente dos obstáculos. Perante as dificuldades, os discípulos reagem intempestivamente, querem logo invocar as forças do Céu para destruir e aniquilar quem não sintonizar com os seus propósitos. Os discípulos querem preparar hospedagem em terra de samaritanos, mas estes não O querem receber, porque iam a caminho de Jerusalém. Imediatamente os discípulos, Tiago e João à cabeça, querem mandar fogo sobre eles. Jesus repreende-os. O Seu caminho é outro, a paz não se impõe, a guerra e o conflito não humanizam, a destruição não constrói. O caminho de Jesus é o da conversão, a força usada é o amor, o perdão e o serviço.

Por outro lado, a recusa dos samaritanos parece justa, pois levavam outra direção. Mas pode ser uma provocação também para nós, quando recusamos Jesus e o que Ele nos pede! Podemos ter as melhores justificações do mundo, mas ainda assim Ele fica sem a nossa hospedagem.

Pelo caminho, aproximam-se alguns candidatos a discípulos. Um: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus responde-lhe com clareza e sem promessas vãs: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». A outro é Jesus que interpela: «Segue-Me». Mas logo vêm as hesitações: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Outro ainda: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».

O seguimento exige prioridades e firmeza: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus. Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus».

Jesus não nos pede nada que Ele próprio não tenha feita ou não esteja disposto a fazer: veio para fazer a vontade do Pai, sempre, em todas as circunstâncias, sem virar a cara à luta, às adversidades, indo até à morte, até ao fim, gastando-se, por inteiro. Quem quiser seguir-Me renuncie a si, tome a sua cruz de todos os dias e siga-Me. Quem guardar a vida para si, desperdiçá-la-á, mas quem gastar (perda) a vida, em Meu nome, ganhá-la-á, vivendo!

 

3 – Na primeira leitura, dá-se a passagem de testemunho. Elias, a mando do Senhor, ungirá Eliseu. Elias faz o que o Senhor lhe ordena e vai procurar Eliseu. Encontra-o a lavrar. Passando junto dele, Elias lança-lhe a sua capa. Eliseu larga os bois e faz um pedido: «Deixa-me ir abraçar meu pai e minha mãe; depois irei contigo». O mesmo pedido feito a Jesus. Elias responde a Eliseu: «Vai e volta, porque eu já fiz o que devia». Então "Eliseu afastou-se, tomou uma junta de bois e matou-a; com a madeira do arado assou a carne, que deu a comer à sua gente. Depois levantou-se e seguiu Elias, ficando ao seu serviço".

Eliseu teve tempo para se despedir da família e celebrar com a sua gente. Aos discípulos de Jesus será exigido mais? Talvez! Mas, bem vistas as coisas, e em muitas situações concretas se tem verificado, o seguimento de Jesus não nos afasta do essencial, da família ou dos amigos, coloca as relações noutro patamar. Nada serve de desculpa. Nada se pode interpor entre nós e Jesus. Mesmo que tenhamos razões muito válidas, como tinham os samaritanos ou como tinham os que Ele foi encontrando pelo caminho. É uma questão de prioridade e se a nossa prioridade é Jesus e o anúncio do Evangelho certamente encontraremos tempo e oportunidade para não faltarmos à família e ao grupo de amigos, ainda que agora a família seja maior e o grupo de amigos tenha engordado muito!

 

4 – O salmo, que nos faz rezar a Palavra de Deus e responder-lhe, fala-nos desta prioridade essencial: o Senhor é a minha herança. A tribo de Levi dedicava-se ao culto e ao Templo. Não tinha terras. Dependia do Templo, das oferendas que as outras tribos traziam ao Templo, dependiam da fé das pessoas, numa palavra, as suas vidas dependiam de Deus.

"Senhor, porção da minha herança e do meu cálice, está nas vossas mãos o meu destino. Bendigo o Senhor por me ter aconselhado, até de noite me inspira interiormente. O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo".

O salmista confia em Deus. A confiança é a base e o alimento da vida. Sem confiança não caminhamos, não progredimos, não crescemos. Temos medo que nos enganem ou voltem a enganar-nos, temos medo que nada seja como "prometido". Deus, porém, não falha nas Suas promessas. Podemos confiar. Rezemos para que dilate o nosso coração e nos guie pelo caminho do bem: "Senhor, que pela vossa graça nos tornastes filhos da luz, não permitais que sejamos envolvidos pelas trevas do erro, mas permaneçamos sempre no esplendor da verdade".

 

5 – O caminho da vocação e da missão levam-nos a Jesus, comprometem-nos com o Seu agir.

Diz-nos São Paulo que Cristo nos libertou da escravidão. Mas a libertação é metade do caminho, a outra metade é a caridade. Pela caridade, insiste Paulo, coloquemo-nos ao serviço uns dos outros, pois é esse o caminho de Jesus. Na verdade, toda a Lei se resume no mandamento do amor: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo».

A caridade irmana-nos apesar das nossas diferenças. "Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente, tende cuidado, que acabareis por destruir-vos uns aos outros. Deixai-vos conduzir pelo Espírito e não satisfareis os desejos da carne. Na verdade, a carne tem desejos contrários aos do Espírito e o Espírito desejos contrários aos da carne. São dois princípios antagónicos e por isso não fazeis o que quereis. Mas se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sujeitos à Lei de Moisés”.

Numa dinâmica vocacional e missionária, cabe-nos transparecer – sob o alento e a inspiração do Espírito Santo, que nos chama, nos impele, nos insere na vida divina, mormente pelos Sacramentos, e nos assiste em toda a nossa vida, também nas nossas fragilidades e contradições – Jesus e o Seu amor infindo. Se nos entrepomos entre Jesus e os outros, porque deixamos vir ao de cima as nossas teimosias, impedimos que os outros O vejam e cheguem a Ele, tornando-nos opacos. Deixemo-nos guiar pelo Espírito que nos liberta das nossas escravidões, deixemo-nos converter e tornemos mais visível o caminho para chegar a Jesus.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): 1 Reis 19, 16b. 19-21; Sl 15 (16); Gal 5, 1. 13-18; Lc 9, 51-62


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