Domingo XIII do Tempo Comum - ano B - 1 de julho de 2018


1 – Quem faz o que pode a mais não é obrigado. Por vezes faltam as palavras, mas os gestos devem prevalecer no abraço, na carícia, na presença, no acolhimento e na bênção. A palavra humaniza-nos mas será sempre insuficiente se não se traduzir em bondade, na ajuda fraterna, no serviço ao irmão. Ou, parafraseando, por exemplo, Paulo VI, o nosso tempo não precisa de mestres, mas de testemunhas, ou de mestres que sejam testemunhas. As palavras movem, os testemunhos arrastam.

Mesmo que não consigas, pelo menos tenta! Faz o que está ao teu alcance! Afirmações que nos incentivam a fazer o que humanamente nos é possível, a fazer com que o (quase) impossível se torne acessível e resolúvel (a não ser que seja milagre, é contraditório alguém afirmar que fez o possível e o impossível! Se fez o impossível, é porque era possível, ainda que não parecesse!)

Não nos é pedido que façamos o mesmo que fez Jesus! Até porque se Jesus o fez, está feito, já não precisamos de o fazer. O que nos é pedido, como cristãos, como seguidores de Jesus, é que façamos do mesmo modo. Assim é o lema pastoral da nossa diocese de Lamego: Vai e faz tu também do mesmo modo! Modo este visível na parábola do Bom Samaritano e em toda a vida de Jesus, nas palavras – ditas com autoridade – e nas obras – que dão autoridade às palavras proferidas!

A vida de Jesus transparece o amor de Deus e a Sua ternura! Toda a vida de Jesus é um hino de louvor ao Pai e identificação com a humanidade, nos seus sonhos e nos seus sofrimentos.

 

2 – Jesus passa à outra margem. O Filho do Homem está em movimento! Vem ao nosso encontro. Sai de uma para a outra margem, onde se junta uma grande multidão. É um movimento constante no Evangelho: Jesus vai (vem) ao encontro das multidões, vai à Sinagoga, passa de aldeia em aldeia e de cidade em cidade. Vem (vai) ao encontro das pessoas, onde elas se encontram, entra nas suas vidas e, quando deixam, transforma-as, curando-as, reintegrando-as na humanidade.

O Papa Francisco, em mais de uma ocasião, tem desafiado os pastores a terem o cheiro das ovelhas. Jesus está no meio de nós como quem serve, não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida por muitos, por todos! A fama de Jesus espalhara-se! As pessoas reconhecem-n'O. Mesmo que haja informações contraditórias, prevalece a certeza da Sua bondade e delicadeza, da Sua atenção e aproximação aos mais pobres, aos mais frágeis, aos excluídos da sociedade.

No evangelho, dois encontros inesperados, duas pessoas com estatuto social diverso, um homem e uma mulher. Jairo, bem conhecido de todos, pois é um dos chefes da Sinagoga, e procura uma resposta para a sua filha enferma. E uma mulher, desconhecida, que engrossa a multidão e (quase) não se distingue dos demais. Como outras mulheres naquela época, o seu lugar é o anonimato, é em casa!

 

3 – A multidão absorve e pode fazer esquecer a pessoa como pessoa. Vejam-se os ajuntamentos, os grupos, as manifestações! Para o bem e para o mal, a multidão sanciona comportamentos, reforça atitudes, desculpa e/ou disfarça o que corre mal. Numa peça de teatro, ou num jogral, há o coro, que repete uma palavra ou uma frase, exprime admiração ou horror!

Jairo destaca-se da multidão, porque chega, não estava na multidão, aproxima-se de Jesus, cai aos seus pés e suplica-Lhe:  «A minha filha está a morrer. Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva». Jesus segue Jairo para se inteirar do que se passa e poder agir em conformidade.

Entretanto vêm avisar Jairo que a filha tinha morrido. O que este pai temia aconteceu! A reação da multidão é espontaneamente fria: «A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?». Contudo, Jesus não se esconde atrás da multidão e diz-lhe que basta ter fé. Pedro, Tiago e João acompanham-n'O a casa de Jairo. Chegados aí encontram grande alvoroço com pessoas a gritar e a chorar. Jesus serena os presentes dizendo-lhes que a menina está apenas a dormir.

Jesus usa as palavras da ressurreição: «Talita Kum – Menina, Eu te ordeno: Levanta-te».

E a menina ergueu-se, ressuscitada. Jesus é homem como nós, mas é também verdadeiro Deus. Mais uma vez mostra ao que vem: salvar, redimir, ressuscitar, dar-nos nova vida. Depois de tão grande milagre, o pormenor de Jesus mandar que deem comida à menina! Sensibilidade e atenção!

 

4 – De partida para casa de Jairo, uma mulher aproxima-se de Jesus, por entre os apertos da multidão, toca-Lhe o manto e sente-se curada de um fluxo de sangue que a atormentava há vários anos. Não nos é revelado o nome, mas esta mulher tem rosto e tem uma história de sofrimento que carrega há muito. Gastou os seus bens à procura de cura. Quantas pessoas passam pelo mesmo? Recorrem a tudo e mais alguma coisa, ora com esperança ora cansadas de lutar. Gastam balúrdios e gastam-se e, em muitas situações, inutilmente. Havendo esperança há que prosseguir, mesmo que o caminho seja doloroso. A fé pode ser essa força que nos anima, nos fortalece e não nos deixa desistir.

Para lá da doença física, a impureza cultual e o afastamento do contacto humano e social. A lei era explícita: «Quando uma mulher tiver o fluxo de sangue que corre do seu corpo, permanecerá durante sete dias na sua impureza. Quem a tocar ficará impuro até à tarde. Todo o objeto sobre o qual ela se deitar, durante a sua impureza, ficará impuro... Quem tocar nalguma coisa que estiver sobre a cama ou sobre o móvel em que ela se sentou, ficará impuro até à tarde. Se um homem coabitar com ela e a sua impureza o atingir, ficará impuro durante sete dias, e todo o leito em que se deitar ficará impuro... Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue durante vários dias, fora do tempo normal de impureza, isto é, se o fluxo se prolongar para além do tempo da sua impureza, ficará impura durante todo o tempo desse fluxo, como no tempo da sua impureza» (Lv 15, 19-25).

Uma vez por mês, a mulher, com a menstruação, torna-se impura e, por conseguinte, está remetida ao isolamento. E assim também por ocasião do parto! Entenda-se que é uma impureza cultual e não uma impureza moral. No caso presente, é um fluxo de sangue que perdura há muito. É um estigma religioso e social. Jesus poderá ser a última oportunidade: «Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada». Aproxima-se discretamente, não quer ser denunciada. Basta o que tem sofrido. De Jesus emana uma força que salva, que acolhe, que cura, que inclui, que devolve a dignidade. «Minha filha, a tua fé te salvou». A força da cura sai de Jesus, mas advém também da fé desta mulher.

Sublinhe-se ainda a sensibilidade de Jesus que vê, sente, percebe esta mulher por entre uma multidão aos encontrões, para surpresa dos Seus discípulos: «Vês a multidão que Te aperta e perguntas: ‘Quem Me tocou?’».

 

5 – Já muitas vezes ouvimos dizer e dissemos, quando acontece algo de mau, que é a vontade de Deus, temos que nos conformar, manda Quem pode e obedece quem deve! Pode até ser salutar, pois leva-nos a não desanimar, a não cair num desespero avassalador. Ao jeito de Job: “Deus mo deu, Deus mo tirou”. Revela, ainda assim, confiança em Deus. Noutras situações é contraproducente, pois remetemos a culpa de todo o mal para Deus que aparece não como Pai, mas como Juiz severo!

Em Jesus Cristo, Deus mostra-Se próximo, benevolente, é um Deus que é Pai e nos quer bem. A fragilidade da vida é uma constatação, umas vezes por responsabilidade própria ou alheia e outras sem qualquer responsabilidade direta. Jesus não vem acabar com todos os problemas que nos afetam. Ele próprio vive e sofre. Não é um super-homem. É de carne e osso. N'Ele convive o humano e o divino. Não é menos humano por ser divino, nem é menos divino por ser verdadeiramente homem. Assume as nossas dores, carrega os nossos sofrimentos. Faz o que está ao Seu alcance para sarar as nossas feridas, para nos reabilitar, para nos curar.

O livro da Sabedoria evidencia que «não foi Deus quem fez a morte, nem Ele Se alegra com a perdição dos vivos. Pela criação deu o ser a todas as coisas, e o que nasce no mundo destina-se ao bem... Deus criou o homem para ser incorruptível e fê-lo à imagem da sua própria natureza». Deus criou-nos para a bondade. É também este o sentido da oração inicial da Missa: «Senhor, que pela vossa graça nos tornastes filhos da luz, não permitais que sejamos envolvidos pelas trevas do erro, mas permaneçamos sempre no esplendor da verdade».

 

6 – Seguir Jesus, amar Jesus, imitar Jesus, transparecer Jesus. É a missão de todo o discípulo, de cada batizado. O Apóstolo São Paulo, em conformidade com Evangelho, sublinha a generosidade de Jesus Cristo «que era rico, fez-Se pobre por vossa causa, para vos enriquecer pela sua pobreza».

O ponto de partida, a referência, é Jesus. Cabe-nos agir do mesmo modo. «Já que sobressaís em tudo – na fé, na eloquência, na ciência, em toda a espécie de atenções e na caridade que vos ensinámos – deveis também sobressair nesta obra de generosidade... aliviai com a vossa abundância a sua indigência para que um dia eles aliviem a vossa indigência com a sua abundância. E assim haverá igualdade» E conclui o Apóstolo: «A quem tinha colhido muito não sobrou e a quem tinha colhido pouco não faltou».

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Sab 1, 13-15; 2, 23-24; Sl 29 (30): 2 Cor 8, 7. 9.13-15; Mc 5, 21-43.


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