Domingo XII do Tempo Comum - ano C - 23 de junho de 2019


1 – A nossa condição de batizados deveria estar sempre presente nas nossas escolhas, no nosso caminhar. Em sintonia com o lema pastoral da nossa mui nobre Diocese – Igreja de Lamego, chamada e enviada em missão – cabe-nos validar, comprovar e fazer transparecer o chamamento. A nossa vocação primeira e essencial é à santidade: procurar em tudo e sempre configurar-nos a Jesus Cristo. Seguir Jesus, aprender com Ele, alimentar-se d’Ele, seguir no Seu encalço.

«Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem quiser perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á». A referência é sempre Ele. Ponto de partida e chegada. Amar como Ele, servir como Ele, gastar a vida como Ele. Quem guarda a sua vida, como se guardasse uma peça de vestuário numa caixa de farinha, acabará por desperdiçar a vida, o tempo, os dons. A vida não é para guardar, é para viver, não é para si, é para os outros e com os outros. Há mais alegria em dar do que em receber. Salva-Te a Ti e a nós também. Jesus, até ao fim, até à Cruz, opta por nos salvar e não por salvar a Sua pele.

A proximidade a Jesus, leva-nos a imitá-l’O e a deixar-nos enviar por Ele. A vocação não é estática, não é para cruzarmos os braços e nos sentarmos à sombra da bananeira, mas é precisamente para sairmos, para irmos ao encontro dos outros, especialmente dos mais pobres, para anunciarmos a Boa Notícia em todo o tempo, em toda a parte, a todas as pessoas, como Ele fez. Vamos a outros lugares, anunciar o Evangelho, foi para isso que vim ao mundo. Assim Ele, assim nós, discípulos missionários.

 

2 – Os discípulos fazem o seminário com Jesus. Durante três anos andam com Ele. Veem o que Ele faz, como fala, como age, as Suas prioridades, as opções de vida e de missão. E que veem eles? Nem sempre aquilo que Jesus lhes quer mostrar, nem sempre o que o Mestre da Sensibilidade lhes ensina.

Se olharmos, para Jesus, também hoje, também nós, perceberemos com facilidade a Sua postura de vida. Desde a encarnação à ressurreição. Veio para estar próximo. Faz-Se um de nós. Identifica-Se comigo e contigo! Sujeita-Se à fragilidade e finitude humanas. Em tudo igual a nós, exceto no pecado. A Sua agenda é fazer o bem, ajudar quem precisa, dar alento a quem anda perdido, curar de enfermidades  e dúvidas quem está doente, perdoar a quem se perdeu, amar quem foi ferido pelo pecado, pelo abandono, pela incompreensão, levantar quem está prostrado pelo sofrimento, pela traição e pelo injustiça, promover a paz e a concórdia, à base do perdão, do amor e do serviço.

Não faz aceção de pessoas. Como sublinha São Paulo, “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; todos vós sois um só em Cristo Jesus”, pois “todos vós sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, porque todos vós, que fostes batizados em Cristo fostes revestidos de Cristo”.

Não Se resguarda, não guarda tempo para Si mesmo. Precisa de descansar, de dormir, de alimentar-Se, de rezar, mas tudo fica para segundo plano se é necessário acolher, se é preciso atender alguém, veja-se quando cuida para que os discípulos comam e descansem, mas logo sai ao encontro da multidão que eram como ovelhas sem pastor; aguarda pelos discípulos que foram à cidade comprar alimento, mas entretém-Se a falar com a Samaritana e esquece-Se que precisa de comer…

 

3 – Vivemos um tempo apressado, com uma mentalidade líquida, quase gasosa. Sabemos umas coisas sobre tudo, mas nada em profundidade, lemos as “maiores”, os títulos, mas sem nos prendermos ao conteúdo, à explicação, ao enquadramento e às razões. Ouvimos dizer qualquer coisa sobre um acontecimento e até falamos dele, mas sem prestarmos grande atenção, temos mais com que nos preocupar. Se nos perguntarem… bem, ouvi qualquer coisa, mas não me lembro muito bem, não cheguei a perceber… ouvi apenas de passagem, estavam a falar disso, mas eu não vi nem li a notícia!

Para ser cristão preciso de saber umas coisitas, ter umas noções da doutrina, saber o essencial da mensagem e, sobretudo, não pode faltar, agir, praticar o bem! Com certeza, mas para praticar o bem não é preciso ser cristão. Ser cristão implica-nos totalmente, na mensagem e na prática. Não seremos cristãos se não levarmos à prática o que sabemos e o que professamos! A prática, sem a fé, sem a Palavra, sem a mensagem, sem Cristo, sem Igreja, é defensável, mas não se identifica com o ser cristão. Ser cristão é professar a fé na Ressurreição de Jesus Cristo, algo que está antes da prática e que torna esta alegre! E, por outro lado, não sendo mera filantropia evita o endeusamento de quem ajuda ou a instrumentalização de quem é ajudado! E isso faz toda a diferença. Se o fazemos por filantropia, deixámos de o fazer quando nos cansamos ou quando entendemos que não nos agradecem ou simplesmente achamos que não merecem. Se, pelo contrário, o fazemos em nome de Jesus Cristo será sempre missão, “obrigação” (interior) e mesmo que nos cansemos, ou não no-lo agradeçam, fazemo-lo por Cristo, em Seu nome, e por sabermos que estamos a cuidar d’Ele.

 

4 – Em clima de oração, com os discípulos, Jesus pergunta-lhes: «Quem dizem as multidões que Eu sou?» Conhecemos a resposta: João batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou… Aprovados no exame. Os discípulos sabem o que se diz acerca do Seu Mestre. Ouviram dizer, fala-se por aí, chegou-nos aos ouvidos! É a opinião pública. É a sensibilidade popular acerca d’Aquele pregador itinerante que come e bebe com publicanos e pecadores e Se mistura com gente de má índole, das classes sociais inferiores.

Até aqui tudo muito certo. Os discípulos não precisam de se comprometer, dizem o que ouviram dizer aos outros. São as opiniões alheias, que vêm da multidão, vêm de pessoas mais ou menos estranhas. Mas logo Jesus arremete com uma pergunta mais pessoal e implicativa: «E vós quem dizeis que Eu sou?» Já não é suficiente um conhecimento pela rama, derivado, repetitivo. Os outros disseram e é isso que eu tenho para dizer. Não. Jesus pergunta-te, pergunta-me: E tu, quem dizes que Eu Sou? Não podemos assobiar para o lado, lavar as mãos como Pilatos. É a nós que Ele interroga. Somos nós, eu e tu, que temos de responder. Pedro, tomando a dianteira, responde: «És o Messias de Deus». Estamos implicados na resposta. É o que pensamos e sabemos. É o testemunho que nos cabe dar acerca de Jesus. Quem Ele é para nós, o que podemos dizer acerca d’Ele aos outros, ao mundo! O discipulado dá lugar à missão, para o testemunho.

Para que não haja ilusões, Jesus diz claramente o que podem esperar: «O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escrivas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».

 

5 – Para amarmos precisamos de conhecer. Não amamos o desconhecido, o que nos é estranho. O amor resulta do encontro, que permite acolher e começar a conhecer o outro. O conhecimento, neste contexto, é mais que a informação exterior, neutra, abstrata, é conhecimento integral, de coração a coração, encontro de olhares. Quanto mais amamos, mas queremos conhecer a pessoa amada, mais queremos ligar-nos a ela, estar por dentro dos seus sonhos e projetos, dos seus gostos e das suas fobias. Quanto mais conhecemos, melhor podemos amar, pois passaremos a amar em concreto e não a abstração de uma pessoa, não uma imagem prefabricada. Daí também a importância de conhecer não apenas pelo que outros nos dizem, mas a partir do encontro… com Jesus Cristo.

 

6 – Na primeira leitura, Zacarias aponta para um futuro marcado pela vinda do Messias. “Sobre a casa de David e os habitantes de Jerusalém derramarei um espírito de piedade e de súplica. Ao olhar para Mim, a quem trespassaram, lamentar-se-ão como se lamenta um filho único, chorarão como se chora o primogénito… Naquele dia, jorrará uma nascente para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém, a fim de lavar o pecado e a impureza”.

Diante das dificuldades dos tempos presentes, Zacarias balança-nos para o futuro com Deus.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Zac 12, 10-11; 13,1; Sl 62 (63); Gal 3, 26-29; Lc 9, 18-24


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