Domingo VIII do Tempo Comum - ano C - 3 de março de 2019


1 – Pelos frutos vos conhecerão! Se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei saberão que sois meus discípulos! Não julgueis e não sereis julgados. Perdoai e sereis perdoados. Amai os vossos inimigos. A enxurrada com que Jesus nos envolvia na semana passada, para que não restem dúvidas, continua neste Domingo. A acentuação recaía no amor aos inimigos, no perdão aos ofensores, na generosidade com os ingratos e maledicentes, na rutura com o ciclo da violência pagando o mal com o bem. Esta semana, o Evangelho clarifica os juízos de valor sobre os outros.

Num tempo em que se valoriza a superficialidade, em grande escala, em muitos setores da vida social, cultural, religiosa, o Evangelho faz-nos exigentes connosco e tolerantes para com os outros. É conhecida a máxima de Santo Agostinho: condenar o pecado, mas salvaguardar o pecador. Com efeito, todos somos pecadores, porquanto somos peregrinos, com a possibilidade de sermos cada vez melhores. Sede perfeitos como o Vosso Pai celeste é perfeito. Misericordiosos como Pai. Mas, enquanto caminhamos neste corpo mortal, na expressividade paulina, estamos sujeitos à fragilidade, à contradição e ao pecado. Há que perseverar. Não nos compete esmorecer, dando a vida como adquirida, a santidade como um estado. Somos caminho. A vida faz-se caminhando. É bom que transpareçamos Jesus e o Seu Evangelho de caridade, mas cientes que em qualquer momento o nosso egoísmo e as nossas limitações podem fazer-nos balançar, hesitar, desanimar ou mesmo contradizer o nosso seguimento e pertença a Cristo.

A exigência não nos torna ou não nos deve tornar rígidos. A rigidez, lembra o Papa Francisco, não tem a ver com o amor verdadeiro. O amor torna-nos flexíveis com os outros. A atenção aos outros visa ajudá-los, ir em seu auxílio, gastando-nos a seu favor. Nunca por motivos de coscuvilhice ou para condenar. Só a Deus cabe um juízo definitivo. É certo que vamos ajuizando atitudes e comportamentos, mas é de evitar os juízos de valor sobre os outros e, se isso acontecer, é preferível não os verbalizar se for para prejudicar. E isso, como é óbvio, nada tem a ver com frontalidade. Eu digo tudo, sempre, independentemente de quem está à minha frente. Isso é estupidez, não é frontalidade. Para o cristão, a verdadeira frontalidade reveste-se de caridade, de amor, de compreensão, de ajuda, que inclui bons conselhos e chamadas de atenção, não para nos colocarmos como "melhores", mas, com humildade, para reconhecermos que a felicidade dos outros é também nossa responsabilidade.

 

2 – Não atires pedras ao telhado dos outros se o teu é de vidro. É um dito popular que nos desafia a termos tento na língua quando falamos dos outros, pois também eles podem ter coisas semelhantes a dizerem a nosso respeito e/ou, preventivamente, porque no futuro podemos encontrar-nos em situação semelhante à que agora criticamos.

Mas não apenas isso, pelo menos para aqueles que somos e nos assumimos como cristãos, seguidores de Jesus, pois cabe-nos viver em lógica de caridade, de perdão e de bondade, imitando-d'O. «O discípulo não é superior ao mestre, mas todo o discípulo perfeito deverá ser como o seu mestre». A nossa referência é Jesus, o Seu modo de agir, de viver, de Se gastar a favor de todos, de dar a Sua vida para que nós tenhamos vida e vida em abundância (Jo 10, 10).

Ele veio salvar o que estava perdido. Compete-nos, da mesma forma, ajudar a implementar o Seu reino de amor e de conciliação, contribuindo para salvar, remir, incluir e, por conseguinte, não temos como desperdiçar tempo e energias a descobrir os pecados dos outros ou a complicar-lhes a vida. Diante de Jesus somos todos cegos, pois estamos a caminho, e seguimo-l'O pois Ele é a luz que irradia em nós, no nosso coração e na nossa vida. Claro que temos a missão de transparecer o Amor que vem de Deus. Mas a nossa luz é derivada, como a Lua em relação ao Sol, como a Igreja em relação a Jesus Cristo. Podemos e devemos ajudar os outros a chegar a Jesus, mas pela bondade e serviço, pela misericórdia e ternura, pela compaixão e serviço, e não pela ameaça e condenação. Como ouvia há dias a um colega sacerdote, nós temos o mandato de Cristo para anunciar o Evangelho, a Boa Nova, não temos mandato para anunciar o inferno.

«Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão os dois nalguma cova? Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua? Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o argueiro que tens na vista’, se tu não vês a trave que está na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás bem para tirar o argueiro da vista do teu irmão».

 

3 – As palavras revelam a pessoa, ainda que os gestos e as obras confirmem ou contradigam essas palavras. Jesus é, por antonomásia, a Palavra de Deus que Se faz carne e cuja coerência se expressa em toda a sua vida, com a autoridade de Quem faz corresponder as palavras às atitudes e aos gestos, interpelando as multidões com palavras e prodígios, não pedindo mais do que aquilo que Ele está disposto a dar, e Ele dá-Se sem medida, nada reservando para Si, sem condicionais, mas em tudo deixando assomar a bondade e a vontade de Deus.

É nesta perspetiva que Jesus nos relembra que «não há árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto. Cada árvore conhece-se pelo seu fruto: não se colhem figos dos espinheiros, nem se apanham uvas das sarças. O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração».

Eu e tu, nós e os outros. Escrevemos a vida com palavras e com opções, com gestos e ações. Nem sempre cumprimos com a verdade e com a justiça, o que é aceitável, pois somos limitados, não temos a informação toda e, por outro lado, não "advínhamos" as intenções do outro. No entanto, se o nosso fundo é bom, se nos deixamos moldar pelo Espírito Santo, se procuramos ser justos, honestos, sensatos nos juízos de valor, colocando-nos, quanto possível, no lugar dos outros, é possível que sejamos boa árvore que dá bons frutos, mesmo que em algum momento prevaleçam as nossas falhas e o nosso egoísmo e não o amor de Deus que nos liberta. As palavras revelam o coração, manifestam-nos. Somos o que dizemos, reconhecendo, com humildade, que muitas vezes teremos (ainda) que limar as palavras que proferimos, para que sejam mais condizentes com a nossa identidade cristã.

O sábio de Israel, Ben Sirá, explicita como as palavras também nos dizem: «Quando agitamos o crivo, só ficam impurezas: assim os defeitos do homem aparecem nas suas palavras. O forno prova os vasos do oleiro e o homem é posto à prova pelos seus pensamentos. O fruto da árvore manifesta a qualidade do campo: assim as palavras do homem revelam os seus sentimentos. Não elogies ninguém antes de ele falar, porque é assim que se experimentam os homens».

Poderemos colocar a acentuação nas ações em detrimento das palavras, mas sabemos como as palavras também são ações e por vezes muito mais letais, porque ordenam ações, direcionam escolhas, provocam decisões, e porque são capazes de destruir uma pessoa, uma família, uma nação inteira.

 

4 – A vida eterna já começou para todos nós, como introdução, como treino, como experiência. O que havemos de ser ainda não se manifestou total e plenamente, só na eternidade, como fim (finaliza e dá sentido ao caminho), mas a configuração a Jesus já se iniciou no dia do nosso Batismo, para nós cristãos, e prossegue todos os dias. É um caminho que se faz caminhando.

Quando chegar a nossa hora de passarmos deste mundo para a casa do Pai, cumprir-se-á então a Palavra da Escritura: “«A morte foi absorvida na vitória. Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão?». Dêmos graças a Deus, que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, caríssimos irmãos, permanecei firmes e inabaláveis, cada vez mais diligentes na obra do Senhor, sabendo que o vosso esforço não é inútil no Senhor”. Não apenas o que fizermos, mas também a predisposição para acolhermos a vontade de Deus, procurando sempre concretizar a Sua palavra na nossa vida diária, fazendo com a boa obra em nós iniciada, possa produzir cada vez mais frutos. 

É hoje, não amanhã, esse pertence a Deus, é hoje o tempo que temos disponível para nos configurarmos a Jesus, tornando-nos semelhantes a Ele, para que depois, amanhã, quando formos à Sua presença, em definitivo, possamos ser por Ele reconhecidos, porque semelhantes, porque irmãos.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Sir 27, 5-8; Sl 91 (92); 1 Cor 15, 54-58; Lc 6, 39-45.


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