Domingo VII do Tempo Comum - ano C - 24 de fevereiro de 2019


1 – Amar os amigos, rezar pelas pessoas de quem se gosta, emprestar de quem se espera algo em troca, fazer favores para mais tarde os cobrar, não é nada do outro mundo. Jesus convida a ir mais longe, a amar mais, a dar-se mais, a gastar-se totalmente em prol dos outros. «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos injuriam. A quem te bater numa face, apresenta-lhe também a outra; e a quem te levar a capa, deixa-lhe também a túnica. Dá a todo aquele que te pedir e ao que levar o que é teu, não o reclames. Como quereis que os outros vos façam, fazei-lho vós também».

Aquele é (ou era) uma pessoa cinco estrelas, amigo do seu amigo. Eu sou amigo de toda a gente, desde que não me cheguem mostarda ao nariz, pois aí é que me ficarão a conhecer. É uma tautologia. Ser amigo do amigo não custa, é natural, lógico, não se esperaria outra coisa. Ora o Evangelho desafia-nos a superar-nos, a perdoar a quem nos ofende, a dizer bem (= a abençoar) de quem nos injuria, a optar por inverter qualquer resquício de ódio, de irritação contra o outro, colocando de lado a vontade de vingança. Não apenas a não dizer mal, não apenas a não fazer mal, mas positivamente, dizendo e fazendo bem.

A referência é Cristo, que passou fazendo o bem, sem exceção de pessoas. Isso não invalida a Sua opção preferencial pelos mais pobres, os excluídos da sociedade, da cultura, da política e da religião, da economia, doentes, leprosos e coxos, cegos e surdos, pecadores e publicanos, mulheres de vida duvidosa e crianças, estrangeiros e pedintes. A lógica é precisamente essa: incluir, devolver a dignidade perdida, recuperar, refazer o tecido humano e social, salvar pecadores.

Por vezes, ao olharmos para o mundo, podemos desanimar perante a espiral de violência, pobreza, corrupção, expressão de egoísmo, de inveja e de prepotência. Sempre foi assim… Isso é para quem tem dinheiro e conhecimentos... Que posso fazer para mudar as coisas? E, depois, ouvimos a Santa Teresa de Calcutá: o que faço pode ser apenas uma gota de orvalho no vasto oceano, contudo, essa gota faz diferença, sem ela o oceano não está completo.

 

2 – Jesus não Se rende, não vacila, não Se cala diante das injustiças, da hipocrisia. Mais do que palavras usa a vida, os gestos, convivendo com os excluídos, misturando-Se com o povo, como dirá o Papa Francisco, tem o cheiro das ovelhas, entranha-Se nas suas vidas, com as suas alegrias e tristezas, com as suas lutas e os seus sofrimentos.

Pela palavra e pelos gestos, Jesus não Se conforma com a falsidade, com a arrogância, com os abusos de poder, mas a Sua luta não passa pela força, pela violência, não passa por pagar com a mesma moeda. A Sua força é amor, a Sua vingança é o perdão, a Sua revolta é a compaixão.

Pode ter havido momentos de tentação, de responder, de expulsar os vendilhões do Templo, de usar o milagre para resolver os problemas do mundo inteiro e a todos convencer do Seu poder divino; pode ter havido momentos em que Se interrogou se valeria a pena tanto sofrimento – Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice – mas prevalece a bondade e a decisão firme de usar (apenas) as armas do amor. Quem com ferros mata com ferros morre. É o que diz a Pedro: embainha a espada. Se Eu quisesse pedia ao Pai e Ele mandar-Me-ia mais de 12 legiões de Anjos! A violência só gera mais violência. A lei de talião – olho por olho, dente por dente – ainda que tivesse uma preocupação de justiça, para que o lesado não exigisse mais do que lhe fora tirado, é um fato que não assenta em Jesus, melhor, para Ele seria uma espécie de camisa de forças, que não liberta, que não vence o mal, que não permite avançar, evoluir e gerar vida.

 

3 – Para seguir Jesus, ser cristão, não basta não fazer mal, é preciso imitá-l'O e procurar ser fiel aos Seus ensinamentos. Há, a propósito, uma estória de um homem, que no seu viver escrupuloso pediu para ser encerrado numa cabana, com as mãos e os pés atados, para não fazer nada a ninguém. Quando morreu e foi à presença do Senhor, apresentou-se feliz pois nunca tinha feito mal a ninguém. Então o Senhor perguntou-lhe: e fizeste bem a quem? Quantas pessoas ajudaste? Os dons que eu te dei o que fizeste, guardaste-os para quem?

Seguir Jesus implica-nos com os outros, com o mundo, com a transformação positiva da realidade, procurando ser mais-valia em todas as situações. «Se amais aqueles que vos amam, que agradecimento mereceis? Também os pecadores amam aqueles que os amam. Se fazeis bem aos que vos fazem bem, que agradecimento mereceis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem outro tanto».

Não precisamos de querer ser melhores que os outros, pelo menos na intenção e na definição, precisamos de ir mais além em tudo o que fazemos. «Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco»

 

4 – Belíssimo o episódio que nos é apresentado na primeira Leitura e que ilustra bem, antecipando, a mensagem do Evangelho e a postura de Jesus, nomeadamente na Cruz: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem. Para nós cristãos, Jesus é o novo David, como Pastor que vem para reunir, guardar, proteger todo o rebanho. E, por outro lado, David, apesar das suas falhas, tem sempre dois vértices presentes: a fé, a obediência a Deus, e o cuidado pelo povo. Quando Deus apresenta a David diferentes castigos pelo seu mau proceder, ele opta por salvaguardar o povo, aceitando o castigo sobre a sua casa e a sua família.

No episódio que hoje nos é apresentado, David tem a possibilidade de matar o Rei Saul. Essa é a escolha de Abisaí, companheiro de David: «Deus entregou-te hoje nas mãos o teu inimigo. Deixa que de um só golpe eu o crave na terra com a sua lança e não terei de o atingir segunda vez». A resposta de David é inequívoca: «Não o mates. Quem poderia estender a mão contra o ungido do Senhor e ficar impune?» Afastando-se, levando consigo a lança e o cantil de Saúl, e à distância, David exclama: «Aqui está a lança do rei. Um dos servos venha buscá-la. O Senhor retribuirá a cada um segundo a sua justiça e fidelidade. Ele entregou-te hoje nas minhas mãos e eu não quis atentar contra o ungido do Senhor».

Escutando David, perceberemos que o nosso inimigo é "ungido" do Senhor, pelo que não podemos, em situação alguma, atentar contra a sua vida. É o primeiro passo. Não atentar contra a vida do nosso semelhante, pois é imagem e semelhança de Deus, nem nas palavras nem nos gestos. O passo seguinte é definido por Jesus: abençoar, dizer bem de quem nos injuria e nos amaldiçoa, amar os inimigos, fazer bem a quem nos faz mal. Amor com amor se paga (São João da Cruz), mas neste caso, do amor de Deus para connosco, pagamos com o mesmo amor, infinito, aos outros.

 

5 – O nosso pecado é pouco em relação à bondade e à misericórdia do Senhor. Na verdade, o Senhor «perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades; salva da morte a tua vida e coroa-te de graça e misericórdia. O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade; não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas culpas. Como o Oriente dista do Ocidente, assim Ele afasta de nós os nossos pecados; como um pai se compadece dos seus filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem».

É a este amor que nós, como crentes, havemos de responder, respondendo para a frente, isto é, amando os outros e gastando a vida para que eles tenham vida abundante, como fez Jesus. Amando os outros, amaremos a Deus, pois qual é o Pai/Mãe que não prefere o amor para com os Seus filhos. "Quem meus filhos beija, minha boca adoça".

Jesus é o paradigma de todo o cristão. Ele, o novo Adão, como a Ele se refere o Apóstolo São Paulo. «O primeiro homem, Adão, foi tirado da terra, é terreno; o segundo homem [Jesus Cristo] veio do Céu. O homem que veio da terra é o modelo dos homens terrenos; o homem que veio do Céu é o modelo dos homens celestes. E assim como trouxemos em nós a imagem do homem terreno, traremos também em nós a imagem do homem celeste».

Ele, sendo Deus, identificou-Se connosco, para que nós, sendo humanos, nos identifiquemos com Ele para com Ele acedermos à glória da eternidade.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): 1 Sam 26, 2. 7-9.12-13.22-23; Sl 102 (103); 1 Cor 15, 45-49; Lc 6, 27-38.


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