Domingo VI do Tempo Comum - ano B - 11 de fevereiro de 2018


1 – Viver e agir ao modo de Jesus. Seguir Jesus é a primeira missão do cristão. Ou melhor, a missão de Jesus em cada um de nós. Seguir e amar Jesus. Seguir, amar e viver Jesus. Seguir, amar, viver e testemunhar Jesus, transparecendo-O através das palavras e dos gestos, da voz e da vida! Ele age em nós e através de nós, pela vitalidade do Espírito Santo, desde que deixemos!

Este é o contexto temático do ano pastoral da Diocese de Lamego, a partir da Parábola do Bom Samaritano e de toda a vida de Jesus. Os discípulos, e porque são discípulos, hão de procurar imitar o Mestre da Bondade. Conhecer, seguir e amar Jesus implica que procuremos proceder do mesmo modo com que Ele vive a Sua relação com cada pessoa. Na Parábola do Bom Samaritano, Jesus alarga as fronteiras para nos mostrar claramente que há um caminho que nos conduz a Deus e que passa, antes das leis e das normas, das religiões e dos ritos, antes da filiação pátria ou racial, pela caridade, pela disponibilidade de olhar o outro, ajudar o outro, cuidar, curar o outro, levantando-o do chão e de todas as situações de escravidão em que se encontra mergulhado. Somos responsáveis uns pelos outros. Já não somos Caim; pelo batismo, tornámo-nos outros Cristo's!

Ao longo do evangelho, ou melhor, ao longo da vida de Jesus, é prática corrente a Sua delicadeza, atenção e disponibilidade para parar, para estar, para cuidar, para escutar, para abraçar! Quando se aproximam, Ele não Se faz rogado, não olha para agenda ou para o relógio. Naquele momento o tempo para! É como se não houvesse futuro ou outras pessoas a precisar de ajuda. O tempo para. É preciso parar também. Quando viajamos sabemos bem que para apreciarmos uma paisagem é necessário parar, quanto mais para conhecer uma pessoa ou uma cidade!

 

2 – Nos Domingos anteriores vimos Jesus em modo de trânsito, indo por aldeias e cidades a anunciar a Boa Nova. Em Carfanaum, expulsa um espírito impuro, cura a sogra de Pedro, atende as multidões, cura os enfermos e expulsa das pessoas os demónios que as atormentam. E parte (novamente) ao encontro de outras pessoas, com o mesmo propósito de pregar o Evangelho e restabelecer a dignidade daqueles que se veem atormentados por doenças e por espíritos malévolos.

Eis que se aproxima de Jesus um leproso. Mesmo a esta distância temporal nos provoca medo e náuseas! É visível o aspeto e as marcas da lepra: é preferível manter uma certa distância. Mesmo hoje quando estas como outras doenças já não têm a mesma carga de falência! O leproso é um excluído por excelência. Não basta a doença quanto mais a exclusão. Estava prescrito na Lei, é norma "divina", que as pessoas que tivessem sinais de lepra se afastassem da civilização, vestissem de forma andrajosa, para serem imediatamente reconhecidas, com o cabelo em desalinho, com o rosto coberto até ao bigode e avisando aqueles que se aproximassem: impuro, impuro!

Este homem, apesar de tudo, aproxima-se de Jesus. E ainda bem que é de Jesus que se aproxima, pois também Jesus Se faz próximo dele, imediatamente! Entre este homem e Jesus não há barreiras humanas, sociais, culturais ou religiosas. É uma pessoa que precisa de ajuda. Mais um filho amado de Deus, mais um irmão para cuidar. «Se quiseres, podes curar-me». Afinal a fama de Jesus já se espalhara! «Quero: fica limpo». É a resposta de Jesus, fazendo o que Lhe é possível.

 

3 – O que fizer a tua mão direita não o saiba a tua esquerda. A recomendação de Jesus que também Ele leva a peito. Claro que isso não impede o anúncio e até a "divulgação" do bem que se faz! Aliás, o mundo seria bem melhor se se anunciasse sobretudo o bem e não tanto o mal, ainda que se justifique para evitar situações semelhantes, para repor a justiça e a verdade, ou para sensibilizar para os problemas escondidos e/ou esquecidos.

Porém, o que vemos e o que ouvimos pode levar-nos à indiferença, pois tanta desgraça já não nos choca; à desistência, pois o mal é superior às nossas possibilidades de ajudar, nunca vamos conseguir consertar o mundo; à imitação, pois se os outros fazem e se safam porque não há de ser assim connosco, salve-se quem puder! Divulgar o bem pode suscitar o desafio de imitarmos o bem que vimos fazer ou de que ouvimos dizer, na certeza que o bem vai prevalecendo e que é possível contribuirmos para uma sociedade mais justa e fraterna.

Jesus recomenda àquele homem que não faça grande alarde da cura, ficando apenas com a missão de se mostrar ao sacerdote, fazendo a oferta ao Templo daquilo que Moisés tinha prescrito. Este mandato evoca precisamente a gratidão para com Deus e o testemunho (ainda que limitado). O encontro com Jesus cura da lepra e provoca a alegria do testemunho acerca dos benefícios que Deus opera por Seu intermédio.

Marcos informa-nos que Jesus deixa de poder andar abertamente pelas cidades, pois vêm pessoas de toda a parte ao Seu encontro. Percebe-se então a reserva de Jesus acerca da divulgação das curas, levando alguns a dispensar o trabalho, o esforço, o compromisso por cooperarem com a transformação do mundo à espera que tudo se resolva a partir da eternidade! Jesus não vem para nos substituir, mas para nos ensinar a sermos mais humanos, com tudo o que isso significa!

 

4 – Jesus faz o que Lhe compete, o que está ao Seu alcance! Podia lamentar-se da falta de tempo ou que só O procuram para obter benefícios! Compadecido, estende a mão e toca o leproso e diz-lhe: fica limpo. E ele ficou limpo! Reconhecer a própria doença é meio caminho andado para a cura. A medicina moderna tem muitas mais respostas para diferentes doenças outrora incuráveis e crónicas. Continuam a existir doenças que não têm uma solução imediata e definitiva. A nós compete-nos cuidar, ajudar, curar, senão da doença pelo menos do desespero e da solidão a que a doença pode conduzir.

Hoje celebra-se o Dia Mundial de Doente, na memória de Nossa Senhora de Lurdes. Na Sua Mensagem para esta Jornada, o Papa Francisco parte da Cruz de Jesus: «“Eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!” E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-A como sua» (Jo 19, 26-27). Estas palavras do Senhor iluminam profundamente o mistério da Cruz. Esta não representa uma tragédia sem esperança, mas o lugar onde Jesus mostra a sua glória e deixa amorosamente as suas últimas vontades, que se tornam regras constitutivas da comunidade cristã e da vida de cada discípulo». E logo acrescenta: «O sofrimento indescritível da cruz trespassa a alma de Maria (cf. Lc 2, 35), mas não a paralisa. Pelo contrário, lá começa para Ela um novo caminho de doação, como Mãe do Senhor. Na cruz, Jesus preocupa-Se com a Igreja e toda a humanidade, e Maria é chamada a partilhar esta mesma preocupação». É a vocação materna da Igreja que a todos compromete. «Como Maria, os discípulos são chamados a cuidar uns dos outros; mas não só: eles sabem que o Coração de Jesus está aberto a todos, sem exclusão. A todos deve ser anunciado o Evangelho do Reino, e a caridade dos cristãos deve estender-se a todos quantos passam necessidade, simplesmente porque são pessoas, filhos de Deus».

 

5 – Estamos a caminho! A oração permite-nos tomar consciência das nossas debilidades e das nossas lepras e, por outro lado, leva-nos a predispomo-nos a acolher a misericórdia de Deus e a um propósito de mudar a vida, com a ajuda da graça de Deus que vem em nosso auxílio.

Iniciamos a Eucaristia a rezar: «Senhor, que prometestes estar presente nos corações retos e sinceros, ajudai-nos com a vossa graça a viver de tal modo que mereçamos ser vossa morada» (coleta). Prosseguimos a celebração eucarística, abrindo-nos ao mistério, para que o Espírito nos leve a viver segundo a vontade de Deus. «Concedei, Senhor, que estes dons sagrados nos purifiquem e renovem, para que, obedecendo sempre à vossa vontade, alcancemos a recompensa eterna» (oblatas).

A oração não é um exercício intelectual de quem fecha os olhos e se dirige para o vazio, mas uma relação dialógica que nos leva a sintonizar a nossa vontade com a de Deus. Quando dois corações se unem, sincronizam. Se encostamos, na oração, o pulsar do nosso coração ao colo materno de Deus, só podemos ficar reféns da Sua ternura e da Sua bondade! Deixamos que o nosso silêncio seja preenchido pelo carinho de Deus que é Pai e mais Mãe. É o jeito de rezar de Jesus. A intimidade com o Pai aproximam-n’O de todos, especialmente dos mais frágeis. Em tudo Ele procura ser fiel à vontade do Pai. Façamos como Ele, rezando com o coração e com a vida, perscrutando a vontade do Pai.

É essa também a recomendação do Apóstolo à comunidade e a cada um de nós: «Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus». Em tudo procuremos não o próprio interesse mas o bem de todos, percebendo que todo o bem realizado nos beneficia também a nós. Alguém tem de tomar a iniciativa! Todavia, Deus, em Jesus, já tomou a iniciativa, amando-nos primeiro, antes de qualquer merecimento, dando a vida por nós!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Lev 13, 1-2. 44-46; Sl 31 (32); 1 Cor 10, 31 – 11, 1; Mc 1, 40-45.


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