Domingo VI de Páscoa - ano C - 26 de maio de 2019


1 – «Concedei-nos, Deus omnipotente, a graça de viver dignamente estes dias de alegria em honra de Cristo ressuscitado, de modo que a nossa vida corresponda sempre aos mistérios que celebramos». A primeira oração da Santa Missa faz-nos desejar que a nossa vida expresse a alegria da nossa fé em Cristo Ressuscitado e, ao mesmo tempo, nos comprometa na fidelidade Àquele que celebramos.

No Evangelho Jesus diz-nos claramente como podemos ser seus discípulos, como confirmar que O amamos verdadeiramente: «Quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada. Quem Me não ama não guarda a minha palavra. Ora a palavra que ouvis não é minha, mas do Pai que Me enviou».

A Palavra que Se faz carne, Se faz vida em Jesus Cristo, é partilhável por nós. Isto é o Meu Corpo, a Minha Vida entregue por vós, é o Meu Sangue, Eu por inteiro, entregue a vosso favor. Temos clara consciência que a palavra que não tem consequências, não gera compromissos, não conduz à vida, não envolve a nossa história concreta, é uma palavra que se converte em ruído! Temos consciência que as promessas e as juras valem quando se tornam visíveis. A palavra de honra que nos humanizava (e deveria humanizar) apresenta-se hoje sob suspeita. Sim acredito, mas qual Tomé, quando vir com estes olhos que a terra há de comer!

A palavra não é apenas palavra. É a pessoa que se expressa por essa palavra. Positiva e negativamente. Não podemos ser fundamentalistas ao ponto de julgarmos uma pessoa pelas palavras que profere. A pessoa é muito mais que uma afirmação ou uma mentira ou um pecado. É sempre rosto e presença de Deus. Mas a palavra, como os gestos, o semblante, a expressão do rosto e do corpo, leva o que somos, diz o que somos e o que queremos, ou esconde-nos, falsifica-nos, intruja a nossa identidade. Em Jesus, a Palavra é Vida, é Pessoa, é Ele mesmo, encarnado, historicamente visível pelo que diz e pelo que faz. As palavras e as obras expressem-n'O, mostram-n'O, tornam-n'O próximo. Ensina com autoridade. Faz com que a vida corresponda ao que diz!

E também nós sabemos: amamos verdadeiramente alguém quando o escutámos, o perscrutamos, e procurámos que as suas palavras nos alimentem e nos façam agir em conformidade.

 

2 – A garantia de Jesus é para hoje mas tem validade também no futuro. A promessa e a certeza no presente baseiam-se na ligação ao Pai e ao Espírito Santo. «Disse-vos estas coisas, estando ainda convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse. Disse-vo-lo agora, antes de acontecer, para que, quando acontecer, acrediteis».

A palavra é poder. O conhecimento é poder que muitos usam para singrarem por cima e além dos outros. A transparência cria laços que nos aproximam, que nos tornam vulneráveis (no bom sentido, predispostos a acolher o que vem do outro e festejar a vida do nosso semelhante), que nos humanizam. A opacidade afasta-nos dos outros e cria barreiras, ruturas, contradições, desumaniza-nos, tornando-nos prepotentes, assumindo uma assustadora sobranceria que nos endeusa. Alguns guardam zelosamente conhecimentos, porque dessa forma podem manipular, chantagear e espezinhar os outros. Veja-se, noutra perspetiva, as patentes acerca de descobertas ou produções! Certamente o registo das patentes salvaguarda a propriedade e garante o ganha-pão, mas em muitas situações torna-se fonte de rendimento injusto e abusador. A descoberta de um medicamento, retida a patente, a fórmula para que os ganhos sejam milionários, mesmo que haja pessoas que não tenham meios e pudessem ser curadas! Mas também no dia a dia temos situações em que retemos e manipulamos o conhecimento e a informação para salvaguardarmos uma posição ou uma dependência. Se ensinamos, depois sabem mais que nós e já não precisam da nossa ajuda/presença!

A postura de Jesus é um desafio e um estímulo à transparência, à delicadeza e à partilha da vida, também do que temos, conhecimentos e cultura. Só assim nos enriquecemos! O que partilhamos multiplica-se, o que guardamos perde-se, acabará por "enferrujar". O bom uso das coisas, dos dons, dos talentos e da vida torna-nos saudáveis.

 

3 – «Vou partir, mas voltarei para junto de vós. Se Me amásseis, ficaríeis contentes por Eu ir para o Pai, porque o Pai é maior do que Eu».

A confiança gera alegria e pacificação; a desconfiança gera medo e irritação. Para a confiança, a transparência é fundamental. Ninguém confia numa pessoa opaca, cujo olhar e expressão denotam reserva, fechamento e antipatia. Jesus apresenta-Se como É, frágil e vulnerável, próximo, humano, procurando explicar tudo aos seus amigos, desafiando-os a darem sempre mais de si mesmos, envolvendo-os no caminho, dando-lhes as ferramentas necessárias para quando fisicamente estiver ausente. Alerta-os para os perigos, para o que hão de encontrar, mas afiançando-lhes que não os abandonará. Não doura a pílula! Podem, e podemos contar sempre com Ele, mas nem por isso as dificuldades e contratempos deixarão de surgir na vida dos seus discípulos.

«Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração». A paz que nos comunica vem de antes, vem do Céu, vem do Pai, para o Qual regressa sem nos deixar. Deus, na Sua infinita Sabedoria tornou-Se tão presente que Se misturou connosco, sendo um de nós, em Jesus Cristo. Como um de nós, também Ele se submete à fragilidade e à finitude do tempo. Porém, antes que tal aconteça, prepara esse tempo que há de chegar, com a promessa e a garantia que virá, que estará connosco até ao fim do mundo, que virá pela ação do Espírito Santo que o Pai nos dará. É essa paz que reconforta e que nos apazigua, nos alegra. É uma paz não imposta, não disfarçada, não maquilhada, é uma paz que assenta no amor, na Palavra anunciada, vivida e partilhada. É uma paz que resiste, perdura para lá do tempo e se mantém jovem, porque vem de dentro, vem do alto, vem de Deus, de um Deus que Se gasta por inteiro para que tenhamos vida abundante.

 

4 – Não muito distante no tempo, os discípulos terão de encarnar o Evangelho em diferentes povos e culturas, com mentalidades diversas, sabendo que cada pessoa é em si mesmo um mistério nunca totalmente desvendável, a não ser pelo próprio Deus.

A comunidade de Antioquia vai prosperando no anúncio do Evangelho, no aprofundamento da fé, na conversão a Jesus Cristo. Alguns cristãos originários do judaísmo agrafam as tradições mosaicas à identidade cristã. Perante a discórdia e discussão gerada, Paulo e Barnabé e mais alguns discípulos vão a Jerusalém para verificarem até que ponto o Evangelho proclamado e vivido está em sintonia com Jesus Cristo e com a Igreja, Seu Corpo. Na volta, com Paulo e Barnabé, são também enviados a Antioquia Judas Barsabás e Silas. E com eles a decisão da Igreja-Mãe de Jerusalém: «O Espírito Santo e nós decidimos não vos impor mais nenhuma obrigação, além destas que são indispensáveis: abster-vos da carne imolada aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das relações imorais. Procedereis bem, evitando tudo isso. Adeus».

Alguns aspetos muito importantes também para a Igreja de hoje: o diálogo e a discussão fraterna, sujeita ao discernimento de quem tem essa missão, como o colégio dos Bispo em comunhão com o Papa; a oração como pedra basilar de qualquer decisão a tomar, para que a decisão não seja um capricho ou um repentino, mas uma ação rezada, refletida, procurando perscrutar a voz do Espírito. Bom senso, ponderação que brotam precisamente de um clima orante e de abertura a Deus.

 

5 – As visões de São João, no livro do Apocalipse, são um convite à confiança. Face aos tempos conturbados que a Igreja vive, de perseguição, de conflitualidade e de exílio de alguns dos seus membros, o Apóstolo faz-nos ver mais além, a bonança e a tempestade são passageiras e relativas, só a presença de Deus é uma constante que não passa. A tormenta é atravessada pela Luz da Fé: «Na cidade não vi nenhum templo, porque o seu templo é o Senhor Deus omnipotente e o Cordeiro. A cidade não precisa da luz do sol nem da lua, porque a glória de Deus a ilumina e a sua lâmpada é o Cordeiro».

Há uma Luz que jamais se apaga e que aponta para amanhã, para o futuro, para Deus. Cabe-nos tornar visível hoje, aqui e agora, essa Luz, essa presença de Cristo, para que todos, eu e tu e o outro, caminhemos seguros e tranquilos, apesar dos trabalhos, das canseiras e dos contratempos, pois Deus prevalecerá, o amor perdurará, a vida nova conduzir-nos-á pela história e far-nos-á entrar na eternidade.

 

Pe. Manuel Gonçalves

Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 15, 1-2. 22-29; Sl 66 (67); Ap 21, 10-14. 22-23; Jo 14, 23-29.


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