Domingo VI da Páscoa - ano B - 6 de maio de 2018


1 – «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos». Não há maior amor que o amor de Mãe. Duas afirmações lapidares que que facilmente se conjugam. O verdadeiro amigo é capaz de renunciar a muito para salvaguardar a amizade ou para ver o amigo feliz. Dar a vida por alguém faz-nos situar num nível superior. Assim é também o amor de Mãe, que, ao longo da vida e em todos os momentos, está predisposta a lutar pelos filhos, a gastar-se por inteiro, a fazer tudo para que os filhos não sofram e tenham direito a usufruir de todas as bênçãos, de todos os direitos e garantias! Quantos de nós já presenciaram Mães a fazer-se ouvir, alto e bom som, em defesa dos filhos, sem olhar para quem está a observar ou a murmurar ou a quem se dirigem?

A cumplicidade começa no ventre materno. Nove meses (ou perto disso), em que duas vidas interagem; dois corações que batem perto um do outro; dois mundos, um por dentro do outro; o medo e a esperança; a pressa e a paciência; os sonhos e as angústias! A Mãe é-o muito antes de o ser, de o ser visivelmente para o mundo! E, depois, é a vida toda: o nascimento, os primeiros gestos, sorrisos, a primeira palavra, o gatinhar e o começar a andar, o crescimento, a adolescência, a juventude, a autonomia, o sair de casa... E, por outro lado, as dificuldades, as noites por dormir, a angústia de fazer alguma coisa errada, não saber cuidar, ou não estar à altura das exigências do filho e do tempo; as alternativas para a educação, o contacto com outros mundos; as primeiras lágrimas, a primeira queda ou a primeira ferida; as birras, a incompreensão, a autonomia crescente, as diferenças que se sublinham; o isolamento do filho ou os caminhos tortuosos por onde está a enveredar ou por onde pode ir...

É um amor para a vida toda. É uma vida toda em que facilmente a Mãe (e o Pai) se esquece de viver a própria vida para viver em função do/s filho/s, das suas necessidades e dos seus anseios, dos seus projetos. Eles crescem! Saem de casa! O ninho fica vazio! Mas a ligação permanece! E hoje, com os telemóveis e com as tecnologias de informação e com as redes sociais, a ligação é ainda mais permanente. E filhos criados, tantas vezes, trabalhos dobrados!

 

2 – O ambiente familiar é essencial na conceção que temos da vida e da saúde nas relações com os outros. Visualiza-se assim o amor vivido na Sagrada Família de Nazaré, mesmo com as dificuldades inerentes naquela época, nomeadamente quanto à sobrevivência, com uma elevada exigência de trabalho e de sacrifício, e de entreajuda dentro da família e com os vizinhos!

«Como o Pai Me amou, também Eu vos amei»! Jesus tem uma relação privilegiada com o Pai, uma intimidade que transparece para os discípulos e para as multidões. Retira-Se e refugia-Se para orar. Eu e o Pai somos Um! Quem Me vê, vê o Pai! Ninguém vai ao Pai senão por Mim! O Meu Pai trabalha em todo o tempo e Eu também trabalho! Sem secundarizar esta relação espiritual-sobrenatural, entrevê-se a relação com São José e com Nossa Senhora. Tal como as outras famílias de Nazaré também a de Jesus dedicava muito tempo ao trabalho, havia sempre coisas que fazer!

«Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor». Por certo já o ouvimos ao nosso Pai ou à nossa Mãe: és lindo se fizeres o que te estou a pedir! Traduzindo, verás mais facilmente o meu amor por ti, a minha alegria, se guardares o que te digo! Guardar é cumprir, viver, concretizar no dia-a-dia! Pois dessa forma, irás por um caminho que te fará bem e te fará feliz. E se tu estás bem, o teu Pai e a tua Mãe vão estar felizes.

Ninguém pode dar o que não tem ou que não vive. Como amei, como fui/sou amado, quero que vos ameis uns aos outros, pois isso é fonte de alegria. A tristeza profunda vem da falta de amor, da solidão, do isolamento. O amor gera vida, gera alegria, gera mais amor!

 

3 – O Meu alimento é fazer a vontade de Meu Pai. Faz parte da Sua identidade e missão concretizar a vontade do Pai. Quem ama de verdade dá-se, esgota-se, não guarda nada para si! A Mãe em relação aos filhos. Deus Pai, ainda mais Mãe, entrega tudo ao Filho. O Filho entrega-Se por inteiro. Não há amor maior que dar a vida pelos amigos. Dei-vos a "conhecer tudo o que ouvi a Meu Pai".

Como o Pai me amou também Eu vos amei. Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós, Eu «vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

A insistência no mandamento do amor sublinha que é algo de essencial, imprescindível para quem se assume seguidor, discípulo, simpatizante de Jesus! Entenda-se: aqui a simpatia tem o selo da originalidade etimológica, isto é, identificação com Aquele com quem se simpatiza, ao jeito do Apóstolo São Paulo que se faz tudo para todos para ganhar alguns para Cristo, para que possa transparecê-l’O nas suas palavras e na sua vida, "para mim viver é Cristo", "já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim".

Na sua primeira missiva, o apóstolo São João faz-nos perceber que só amando conhecemos a Deus, só amando permanecemos em Deus e Ele em nós, pois Ele é Amor e manifesta-Se no amor e através do amor. Com efeito, sublinha o apóstolo, «não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados». A iniciativa cabe a Deus, fonte de toda a vida, de todo o amor, que nos ama ao ponto de nos dar o Seu Filho único. A resposta que nos cabe é para a frente, "devolvemos" o amor a Deus amando os outros, não apenas com palavras, mas em obras e verdade!

 

4 – Somos frágeis vasos de barro, mas levamos em nós a imagem e a presença de Deus e da Sua misericórdia infinita! Só o Omnipotente Se pode transformar em simples, pequeno, frágil, humano! Em Jesus vê-se a grandeza do amor de Deus, não pelo poder, mas pela força e fragilidade do amor, pela docilidade, pela proximidade.

A escolha dos Apóstolos não recaiu em pessoas extraordinárias, com muitas capacidades de liderança, com muitas riquezas ou com estatuto social, mas em pessoas simples. Há quem refira a propósito (Augusto Cury) que só Judas Iscariotes passaria no filtro dos "Recursos Humanos" numa empresa moderna. Era, na verdade, Judas que administrava os bens recolhidos e disponibilizava os meios para que Jesus e os apóstolos pudessem dormir descansados!

Esta predileção pelos simples não é ingénua, é uma opção consciente, sabendo da predisposição para acolher e para escutar e para se deixar envolver por Alguém maior. Quem se atém à própria sabedoria e poder, achando que não precisa de nada e de ninguém, nunca se aperceberá da presença de Deus. Porém, esta opção preferencial não é excludente, mas instrumental. É para chegar a todos. Com efeito, «Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável».

Todos podemos tornar-nos dóceis ao Espírito Santo que nos é dado em abundância, deixando que germine em nós o amor de Deus, a presença de Jesus Cristo, o compromisso com os irmãos. Pelo Batismo fomos reconfigurados em dinâmica de graça e de amor. Não desperdicemos os dons recebidos, mas façamo-los multiplicar a favor da Igreja e do mundo.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia: Atos 10, 25-26. 34-35. 44-48; Sl 97 (98); 1 Jo 4, 7-10; Jo 15, 9-17.


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