Domingo V do Tempo Comum - ano C - 10 de fevereiro de 2019


1 – Depois do Jordão e do Batismo, depois do deserto e de Nazaré, Jesus continua a pregar a Boa Nova da salvação. Um profeta na Sua pátria, fazendo com que o mundo seja a Sua morada. Faz de nós, de mim e de ti, a Sua habitação. Encarnou e habitou entre nós. Depois, será Ele a construir-nos uma casa, já não feita por mãos humanas, uma habitação para sempre. Vou para o Pai, vou preparar-vos um lugar, em casa de Meu Pai há muitas moradas. Quero que onde Eu estou vós estejais também.

A eternidade não está reservada para os bons nem tampouco se destina ao futuro. Este, diga-se, só a Deus pertence. A vida eterna, diz-nos o próprio Jesus, já está em ebulição, o Reino de Deus chegou até nós. Não se localiza aqui ou acolá, vai germinando dentro de nós, entre nós, sempre e quando nos predispomos a ser comunidade. Onde 2 ou 3 estiverem reunidos em Meu nome, Eu estarei no meio deles. Jesus é o Céu que desce à terra, vem para inaugurar o tempo de paz, de harmonia e de amor, um lugar em que todos possamos ser irmãos. Somos Sua família, pois primeiro quis Ele ser um de nós: minha Mãe, Meu irmão e Minha irmã é todo aquele que escuta a Palavra de Deus e a põe em prática.

A multidão aglomera-se à volta de Jesus, para ouvir a Palavra de Deus. O cenário é a margem do lago de Genesaré. Para que mais possam vê-l'O e escutá-l'O – Ele vem para todos e não apenas para os que estão à frente – sobe para um barco, que é de Simão Pedro, afasta-Se um pouco da margem e, sentando-Se, começa a ensinar a multidão.

 

2 – Vamos a outros lugares anunciar o Evangelho, foi para isso que Eu vim. Jesus não Se fixa num espaço seguro, familiar, tranquilo, veio para que a Boa Nova chegue a todo o mundo. Ide e ensinai o Evangelho a toda a criatura, fazei discípulos de todas as nações. Humanamente falando, seria impossível Jesus chegar aos quatro cantos da terra, teria de deixar de ser verdadeiramente Homem e, nessa circunstância, impor-Se-ia como Deus, ou como super-homem, ou como extraterrestre. Assumindo-nos por inteiro, submetendo-Se às coordenadas espácio-temporais, Jesus sujeita-Se também ao nosso "sim" ou à nossa recusa.

O mandato de Jesus torna-se definitivo após a Sua ressurreição/ascensão aos Céus, mas já está em ação. Depois de falar às multidões, Jesus diz a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Nem sempre será fácil pescar, por razões variadas, por aselhice de quem lança as redes, pelo movimento das marés, pela rebeldia dos peixes, pelas circunstâncias do tempo, do dia ou do local. Pedro coloca as suas dúvidas, mas aquiesce pelo facto de ser o Senhor a ordenar. Um pescador experiente sabe as horas e os locais mais favoráveis. A faina durou a noite, agora é altura de meter a viola ao saco e regressar, não vale a pena lamentar-se, é assim a vida.

Contudo, Jesus diz-lhes para se fazerem ao largo e lançarem as redes. E eis que a pesca se multiplica ao ponto de ser necessário chamar outros companheiros. Todos são necessários. Ninguém está a mais. Todos chamados. Todos enviados. A missão chama por nós. Por mim e por ti. Por Pedro, Tiago e João, por Judas e Tomé e por tantos outros.

Os discípulos são surpreendidos por Jesus. Ficam boquiabertos e Pedro interpreta o que todos sentem: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Mas isso não impede Jesus de nos chamar, o pecado não nos define, a condição de pecador, sim, pode definir-nos, nas nossas limitações, mas ao mesmo tempo na consciência que estamos a caminho. A Pedro, aos Apóstolos e a cada um de nós: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens».

 

3 – "Vale mais quem Deus ajuda do que quem muito madruga". Ditado popular muito conhecido e que desafia a equilibrar o trabalho com a oração, com a vida em família, com os compromissos sociais, culturais e religiosos. O trabalho é muito importante, faz parte essencial da realização humana, insere-se no mandato divino de cuidar a terra, ajuda ao desenvolvimento dos povos, facilita a vida das pessoas e das comunidades. Mas, ainda que fundamental, não é um fim em si mesmo. O trabalho, honesto e justamente remunerado, é um direito e um dever para todos, um compromisso com a transformação (positiva) do mundo que Deus nos confiou. Mas vale na medida em que nos aproxima, nos irmana, nos humaniza.

O trabalho não é tudo – não estamos a falar daqueles para quem o trabalho é um fardo dispensável – ainda que nos realize e seja o nosso ganha-pão. Não é um fim absoluto, mas também pelo trabalho nos realizamos. Há, contudo, alturas em que ficamos extenuados, pelo excesso de trabalho, pela complexidade das tarefas, pela exigência dos patrões, por que parece que não produzimos, pela repetição de gestos, de tarefas, pela rotina. E então, de novo, Jesus vem refrescar-nos o convite: lança as redes para a pesca! Com alegria. Vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei, tomai sobre vós o Meu jugo, aprendei de Mim que Sou manso e humilde de coração. Também no cansaço, no sofrimento, na doença, Jesus está connosco para nos ajudar, não para nos substituir, mas para nos dar ânimo para prosseguimos.

 

4 – Isaías, tal como aconteceu com Pedro, tal como acontecerá connosco se nos deixarmos surpreender pelo mistério de Deus, sente a sua pequenez diante de Deus: «Ai de mim, que estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros, moro no meio de povo de lábios impuros e os meus olhos viram o Rei, Senhor do Universo».

Deus olha para nós e aceita-nos como somos, ainda que nos desafie a darmo-nos cada vez mais. O pecado é só uma parte do que somos quando nos deixamos levar pela fraqueza e egoísmo. Mas somos sempre imagem e semelhança de Deus, temos inscrito em nós a nossa origem em Deus, pelo que a qualquer momento poderemos deixar que essa identidade sobrevenha além das nossas fragilidades e birrices. Veio um anjo, um dos serafins, com um carvão ardente e toca os lábios do profeta: «Isto tocou os teus lábios: desapareceu o teu pecado, foi perdoada a tua culpa». E o logo a voz do Senhor se faz ouvir em forma de pergunta e de interpelação: «Quem enviarei? Quem irá por nós?».

Isaías coloca-se, então, confiante, nas mãos de Deus: «Eis-me aqui: podeis enviar-me». Como Pedro dirá a Jesus, já que és Tu quem o dizes, eu lançarei as redes!

 

5 – Com a oração inicial (coleta), somos, desde logo, convidados a confiar no auxílio do Senhor. «Guardai, Senhor, com paternal bondade a vossa família; e, porque só em Vós põe a sua confiança, defendei-a sempre com a vossa proteção».

De forma semelhante, o salmo responsorial nos faz louvar o Senhor, porque Ele atende as nossas preces. «De todo o coração, Senhor, eu Vos dou graças, porque ouvistes as palavras da minha boca. Quando Vos invoquei, me respondestes, aumentastes a fortaleza da minha alma. A vossa mão direita me salvará, o Senhor completará o que em meu auxílio começou. Senhor, a vossa bondade é eterna, não abandoneis a obra das vossas mãos».

O louvor e o agradecimento fazem-nos reconhecer as maravilhas que Deus operou no mundo e continua a operar através de nós.

 

6 – Na missiva aos Coríntios, Paulo recorda o seu compromisso com o Evangelho de Jesus, que anuncia para que outros, para que todos, possam ser salvos. Pregar o Evangelho, para os cristãos, não é uma opção, é uma obrigação, que decorre da condição de discipulado. Não há discípulos que não sejam simultaneamente apóstolos, missionários.

O Evangelho remete-nos para um rosto, um acontecimento, uma Pessoa: Jesus Cristo, morto e ressuscitado, cujas aparições, depois de ressuscitar, atestam que Ele está vivo e permanece no meio de nós, ainda que de uma forma nova, através do Espírito Santo, em Igreja.

O Apóstolo, tal como Isaías e como Pedro, reconhece a sua pequenez e indignidade (por ter perseguido a Igreja de Deus). Este exame de consciência faz com que o Apóstolo coloque ênfase não nas suas qualidades, mas em Deus: "pela graça de Deus sou aquilo que sou e a graça que Ele me deu não foi inútil. Pelo contrário, tenho trabalhado mais que todos eles, não eu, mas a graça de Deus, que está comigo. Por conseguinte, tanto eu como eles, é assim que pregamos". O apostolado de Paulo está ao nível do dos apóstolos pois é o mesmo Evangelho que todos anunciam e é mesma graça de Deus que, pelo anúncio do Evangelho, conduz muitos à fé.

Hoje, em 2019, é a nós que Deus chama e envia, para que através da Sua graça em nós, transpareçamos e testemunhemos a Boa Nova da salvação, para que outros se deixem contagiar por esta alegria que nos faz irmãos em Jesus Cristo.

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Is 6, 1-2a. 3-8; Sl 137 (138); 1 Cor 15, 1-11; Lc 5, 1-11.


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