Domingo V do Tempo Comum - ano B - 4 de fevereiro de 2018


1 – O cristianismo é, indiscutivelmente, o encontro com uma Pessoa, com Jesus Cristo. É uma Pessoa e um acontecimento: a Sua morte e ressurreição. A morte redentora como ponto de chegada, na assunção de uma vida feita de serviço, de ternura e de compaixão. Jesus gasta a Sua vida até ao último fôlego. A Ressurreição sanciona a autenticidade da vida de Jesus. O Seu amor, a Sua paixão pela humanidade não se esgota com a morte (física), mas expande-se até à eternidade. Aquele que amou até ao fim, entregando-Se e entregando-nos, por amor, ao Pai, é amado até ao fim, pelo Pai que no Espírito Santo eterniza para sempre a ligação humana do filho à humanidade.

Depois da Cruz, a debandada, a começar pelos mais próximos. Depois das Aparições do Ressuscitado, a certeza que a morte não tivera, em Cristo, a última Palavra e, consequentemente, a alegria, o entusiasmo, a confiança que afinal o Reino de Deus não fora um sonho, mas que pode efetivar-se no tempo e na história, porque já foi instaurado por Jesus Cristo, cabendo agora aos Seus seguidores pô-lo em marcha, sem descanso, em todos os momentos e circunstâncias.

Isso mesmo nos confidencia o Apóstolo São Paulo: «Anunciar o Evangelho não é para mim um título de glória, é uma obrigação que me foi imposta».

Paulo não consta da lista dos Apóstolos. As primeiras vezes que aparece é como perseguidor dos seguidores de Jesus. Era, como viria a confessar, um judeu zeloso, praticante, cumpridor, procurando preservar a religião judaica, libertando-a de quaisquer afrontas ou obstáculos. O seu afinco e dedicação a perseguir aqueles que via como ameaça à sua religião, farão dele um dedicado e indomável anunciador do Perseguido, Jesus Cristo e do Seu Evangelho.

«Ai de mim se não anunciar o Evangelho!» A verdadeira revolução acontece no encontro com Jesus. A conversão já estava em gestação durante a perseguição. Paulo vai percebendo que Jesus não é um impostor, vai percebendo que Aquele "tipo" afinal é autêntico, corresponde a tudo quanto desejava da vida e muito mais. Se tivesse de imitar Alguém era precisamente Jesus. Os seus olhos estavam ofuscados pelas escamas do preconceito. Não percebia Jesus, porque estava focado em destruir as marcas que Ele tinha deixado. Mas acabou por compreender e de se deixar "apanhar" por Jesus.

Paulo entende a missão de evangelizar como um serviço, um ministério, uma obrigação que lhe é imposta (no bom sentido). Qual a sua recompensa: «Anunciar gratuitamente o Evangelho… de todos me fiz escravo, para ganhar o maior número possível. Com os fracos tornei-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para me tornar participante dos seus bens».

 

2 – O nosso compromisso, como o de Paulo, em anunciar o Evangelho em todas as realidades e em todo o tempo decorre, antes de mais, da própria missão de Jesus: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim».

Víamos como Jesus expulsou um espírito impuro de um homem que encontrou na sinagoga, em Cafarnaum, deixando que a impureza se converta em amor e gratidão. Sábado é o dia consagrado ao Senhor, tempo para o encontro comunitário, feito de oração, de leitura da Sagrada Escritura e reflexão da Palavra de Deus para que esta ilumine as escolhas a fazer no dia-a-dia.

Ficou então patente como a autoridade Jesus começa a ganhar forma, na coerência das palavras e dos gestos. Agora é tempo de repousar e de se alimentar. Jesus, juntamente com Tiago e João, vai a casa de Simão e André. Um judeu integrado! Tudo normal! É na normalidade que Jesus continua a entrar na nossa vida, na minha e na tua vida! É na normalidade do tempo e da história que Jesus nos salva, nos interpela, nos pega pela mão, nos desafia e nos envia. Vive o sábado como qualquer judeu. Quase não se dá pela Sua presença. Mas, pouco a pouco, percebe-se a Sua delicadeza, a Sua docilidade. N'Ele começa a ver-se o poder e sobretudo o amor de Deus.

A sogra de Simão está de cama, com febre. Jesus faz o que está ao Seu alcance. Os gestos são ilustrativos: pega na mão da sogra de Pedro e levanta-a. É uma descrição muito sóbria, mas que diz muito. O gesto de Jesus é curativo, pois a febre desaparece e a sogra de Simão começa a servi-los. A cura não é somente em benefício próprio, mas em prol de todos.

 

3 – Jesus não tem mãos a medir. Ao cair da tarde, já depois do sol-posto, trazem-lhes os doentes e os possessos e a cidade inteira vem postar-se diante da casa.

O dia foi vivido em família. Depois da ida à sinagoga, da oração comunitária, da escuta e meditação da palavra de Deus, a vivência do sábado em família, à volta da mesa, evocando a bênção de Deus, descansando da semana de trabalho, falando das preocupações e dos projetos pessoais e familiares. Vislumbra-se, nesta informação de Marcos, que o sábado é sagrado, pois só no final do dia a multidão volta para se encontrar com Jesus. Mais à frente havemos de ver como Jesus lê o sábado e os outros dias como tempo permanente e oportuno para fazer o bem. Seja como for, no essencial, o respeito pelo dia do Senhor, para que Ele seja o Senhor dos dias, e em cada dia reconheçamos a Sua soberania e nos tratemos como iguais, como irmãos!

O Mestre da Bondade não deixa de atender às súplicas, curando as pessoas atormentadas por doenças e por demónios, que, sublinhe-se novamente, sabem quem Ele é e querem dar "testemunho" acerca d'Ele. Fica o desafio também para nós, com o Espírito Santo, infundido em nós pelo Batismo, sejamos testemunho, anúncio, vivência de Jesus Cristo, em todo o lado, em toda a parte!

 

4 – A constante da vida de Jesus é fazer a vontade do Pai. No anúncio do Evangelho, na cura de doenças, no expulsar dos demónios que nos atormentam, em tudo, Jesus quer que conheçamos o amor de Deus e a Sua misericórdia infinita.

Depois da jornada em Cafarnum, depois de um sábado preenchido e do descanso noturno, bem cedo, Jesus levanta-se e sai para um lugar isolado para orar. A oração é o combustível que O faz viver. A ligação ao Pai é permanente. Faz as obras que o Pai lhe manda fazer, diz o que ouviu ao Pai dizer. Ainda assim, a necessidade de fazer silêncio, de se retirar para um lugar tranquilo. Nos momentos mais importantes, é visível a oração ardente de Jesus, de madrugada, ao anoitecer, pela noite dentro. Há tempo para tudo, não pode faltar tempo para a oração. Imaginemos que vamos de viagem, vamos com tanta pressa que não temos tempo para meter gasóleo ou gasolina no carro! Queiramos ou não, o carro acabará por parar! Assim a vida! Assim a fé. Assim a nossa vida como cristãos, como discípulos de Cristo. Se não nos alimentamos do combustível adequado, acabaremos por definhar.

Não podemos adivinhar o conteúdo da oração de Jesus! Talvez nem seja preciso! O importante é aquele espaço de tempo em que Se põe à escuta do coração e da vontade do Pai.

A chegada dos discípulos desperta-O: vamos! E foram por toda a Galileia.

 

5 – O desalento de Job, manifesto na primeira Leitura, faz eco das nossas dúvidas e interrogações. Com o passar do tempo, com o acumular das dificuldades e dos contratempos, Job volta-se para Deus interrogando a Sua justiça, manifestando a brevidade da vida e o desencanto amargo que vai sentindo.

Todo o livro de Job é uma lição de vida, feita de questionamentos e de dúvidas, mas simultaneamente de uma grande confiança em Deus, apesar de tudo. O autor não tira conclusões definitivas, a não ser quanto ao mistério incomensurável de Deus e à certeza que o mal e o bem sofridos não são consequência direta do mal e do bem praticados. Há pessoas boas que sofrem terrivelmente e há pessoas ruins que levam uma vida refastelada! Então tem de haver algo mais, acima e além da história e do tempo que reponha a justiça!

"Deus mo deu, Deus mo tirou". Em Job, a resignação é uma forma de interrogação e de súplica. Deus responder-lhe-á, mostrando que o escuta desde a eternidade. Como não lembrar a oração de Jesus no Horto das Oliveiras e no alto da Cruz?! No extremo do sofrimento, Deus continua a ouvir-nos e, se conseguirmos ouvir, continua a falar-nos ao coração. Vale a pena recordar as Palavras do Papa Bento XVI na Encíclica Spe Salvi: «Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me. Se me encontro confinado numa extrema solidão... o orante jamais está totalmente só» (32).

É esta a certeza da oração com que iniciamos a Eucaristia: «Guardai, Senhor, com paternal bondade a vossa família; e, porque só em Vós põe a sua confiança, defendei-a sempre com a vossa proteção».

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Job 7, 1-4. 6-7; Sl 146 (147); 1 Cor 9, 16-19. 22-23; Mc 1, 29-39.


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