Domingo V da Quaresma - ano C - 7 de abril de 2019


1 – A oração é a minha e a tua casa, a nossa casa. Podemos sentar-nos à volta da mesma mesa, escutar a mesma Palavra, acolher o mesmo Espírito. A oração permite-nos o encontro com o universo inteiro, eleva-nos para Deus, dilata o nosso coração, universaliza o nosso amor. Humaniza-nos, faz-nos aceitar as nossas fragilidades, disponibiliza as nossas qualidades para a construção de um mundo saudável e fraterno. A oração suaviza a nossa dor ou, pelo menos, faz-nos sentir que não estamos sós. A oração é a casa em que partilhamos a vida, amadurecemos a fé, alimentamos a esperança. A oração torna-nos discípulos de Jesus e seus imitadores. A oração ajuda-nos a descobrir que Deus é Pai e que n'Ele somos verdadeiramente irmãos.

Sejamos ouvintes da Palavra, rezemo-la, invoquemos a inspiração do Espírito Santo, para que a escuta se faça vida em cada um de nós. A oração inicial da santa Missa predispõe-nos a esta escuta, mas, desde logo, nos compromete a seguir as suas interpelações. «Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens»

 

2 – Jesus foi, uma vez mais, para o monte das Oliveiras. É um dos lugares para os quais Se retira para descansar, sendo que o Seu descanso passa pela oração, pelo diálogo intenso com Deus Pai. Manhã cedo regressa ao templo, sendo rodeado pelo povo. Revigorado pela oração, pelo descanso orante, Jesus está mais disponível para Se integrar nas lutas e esperanças do Povo a que pertence por opção, por vocação e por missão. Senta-Se e começa a ensinar. Escribas e fariseus aproveitam mais este "ajuntamento" para Lhe armarem uma cilada, apresentando-Lhe uma mulher apanhada em flagrante adultério. «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?».

A  Lei previa o apedrejamento, reconhecendo que a infidelidade, a traição ao marido ou deste à esposa é demasiado séria e chocante para alijar responsabilidades, desculpas ou justificações. Um dos Mandamentos diz claramente que não se deve cobiçar nem a mulher, nem a casa, nem os animais e nem os bens do próximo. É uma questão muito sensível e que, em muitas situações, provoca desgraças, como vamos vendo pelos meios de comunicação social. Violência, perseguição e morte. A Lei previa uma pesada pena para dissuadir as tentações. Mais que a lei ou as penalizações pelo não cumprimento, o fundamental são as convicções e o compromisso consciente e sério com o outro, seja na relação pessoal e familiar, seja ao nível profissional. A ocasião pode fazer o ladrão. Os motivos podem ser variados: desgaste da relação, convivência destrutiva do outro, indiferença e invisibilidade, egoísmo, promessas de uma vida diferente e descontraída, comodismo em investir tempo e disponibilidade no relacionamento e na família, problemas económicos, desacordo nas opções familiares, como por exemplo, na forma de educar os filhos, nas prioridades, ou outras situações fortuitas e ocasionais. O que é certo é que as infidelidades acarretam infelicidade, acarretam um grande sofrimento, levando também à auto culpabilização ou a situações depressivas.

Ainda há países (de influência muçulmana) que preveem a pena de morte (por apedramento) para mulheres adúlteras. O judaísmo previa que a lei fosse igual para mulher e homem, isto é, se apanhados em flagrante adultério os dois seriam levados à justiça. Vê-se, todavia, que só a mulher foi levada a Jesus. Nos países em que vigora esta lei só se aplica à mulher.

 

3 – Jesus não responde de imediato. Com ânimos exaltados, em causas sensíveis, perante uma multidão influenciável por aqueles que gritam mais alto ou pareçam mais convincentes, Jesus opta pelo silêncio, mas não fica indiferente, começa a escrever no chão. Não sabemos ao certo o que é que terá escrito, talvez os pecados dos denunciantes.

Então Jesus ergue-Se e diz-lhes/nos: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». Inclina-Se novamente e continua a escrever no chão. A começar pelos mais velhos, todos se retiram, ficando apenas Ele com a mulher, que estava no meio. Terão tomado consciência que afinal tinham pecados tão graves como os desta mulher ou por serem coniventes em situações semelhantes ou por eles próprios estarem envolvidos. Como não lembrar outra mulher, a prostituta que lava os pés a Jesus com as suas lágrimas e os enxuga com os seus cabelos. Também aí se elevam as murmurações, mas também aí se conclui que alguns dos presentes têm uma cara de dia e outra de noite, muito retos e puros na claridade mas recorrendo aos serviços desta e de outras mulheres durante a noite. Também eles terão que meter a viola ao saco.

Mas há outros pecados gravíssimos como a corrupção, a desonestidade, a maledicência, o destruir a vida dos outros pelas insinuações e boatos, o roubar-lhes a honra ou o ganha-pão, a retenção dos bens alheios, a falência de uma empresa, por exemplo, por egoísmo e falta de zelo e de preocupação pelos trabalhadores, a avareza e a prepotência, a violência doméstica. A fonte é a mesma: egoísmo, pensar em si mesmo antes dos outros.

 

4 – No final, como diria Santo Agostinho, fica apenas a misericórdia e a miséria, Jesus e a mulher. Claro que Jesus não sanciona o mal feito por ela, como alguns parecem fazer crer. Porém, Ele olha para ela como mulher, como pessoa, antes de olhar para o seu pecado e para as suas falhas. E sabe que falta ali o homem com quem foi apanhada! O que conta agora é o caminho a fazer. «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?... Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».

Poderia ter sido o fim. Jesus propõe a ressurreição, a vida nova, a reconversão da vida, a escolha de uma alternativa, nada está perdido. Enquanto vivermos estamos a tempo de corrigir as nossas escolhas e de remediar, quando e quanto possível, o mal feito. Ou de evitar novas precipitações! Mas fica também o testemunho de Jesus: não desistir das pessoas; a condenação do pecado há de ser oportunidade para refazer a vida; valorizar a pessoa e não as suas falhas; apostar no perdão, no acolhimento e na misericórdia, em vez de julgar, condenar e excluir, mesmo em questões sensíveis e gravíssimas. O reconhecimento do próprio pecado e a consciência da nossa condição de pecadores, permite maior compreensão em relação às fragilidades dos outros, mas também permite rever o caminho que temos seguido, e sincronizar a nossa postura com a de Jesus.

 

5 – O que fomos reflete-se no que somos e no que seremos. Mas não necessariamente como um peso ou um estorvo, mas como raiz, como memória, como oportunidade de valorizar o bem e evitar o que nos fez morrer.

O profeta Isaías relembra como o Senhor interveio para salvar o povo e como este se transviou dos Seus caminhos. Fazendo memória do passado, é o próprio Senhor que antecipa o futuro, para nos fazer viver, para que, ansiando pelo que vem, procuremos já viver nessa dinâmica, preparando-nos, treinando-nos. «Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. Olhai: vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios na terra árida… para matar a sede ao meu povo escolhido, o povo que formei para Mim e que proclamará os meus louvores».

Podemos não alterar o passado, pois não é possível voltar atrás, mas podemos aprender com os erros e deixar-nos moldar pelo Espírito de Deus para prosseguirmos como novas criaturas. O deserto, a terra árida, serão transformados em fontes e rios de água cristalina. A morte será vencida pela vida nova; o pecado será alcançado pela misericórdia e pela caridade.

 

6 – Fomos salvos pelo Senhor. Resgatados do pecado e da morte. No deserto brotaram os rios de água, os ramos secos floriram e deram abundantes frutos. O povo que vivia nas trevas viu uma grande Luz, regressou à vida. Os ossos ressequidos ganharam músculo e carne. O Senhor fez regressar os cativos de Sião. Parecia um sonho. «Os que semeiam em lágrimas recolhem com alegria. À ida, vão a chorar, levando as sementes; à volta, vêm a cantar, trazendo os molhos de espigas. Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor, estamos exultantes de alegria».

É tempo de enraizar a vida na salvação de Deus, deixando-nos plasmar pela Sua graça infinita. Diante da grandeza de Deus, que Se manifesta no amor e na entrega, há que deitar as mãos ao arado e lavrar a terra e sobretudo para dilatar o coração com a ternura e a misericórdia de Deus. Paulo considera que tudo é prejuízo comparado com o maior bem: Jesus Cristo. Por Ele renunciou a todas as coisas, para se configurar com a Sua morte, para ver se chega à ressurreição dos mortos. «Continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus. Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus».

O Apóstolo vive com o olhar fito em Deus, na eternidade, mas comprometido em levar a Boa Nova a todos, para que todos possam participar da Sua ressurreição.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Is 43, 16-21; Sl 125 (126); Filip 3, 8-14; Jo 8, 1-11.


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