Domingo V da Quaresma - ano B - 18 de março de 2018


1 – «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna».

Mais uma belíssima imagem utilizada por Jesus para nos fazer perceber o mistério do Seu amor por nós, envolvendo-nos na Sua vida, desafiando-nos a fazer o mesmo: dar a vida, gastar a vida, morrer para o egoísmo e para a inveja, produzir frutos de misericórdia e de compaixão; morrer para a idolatria e para o egocentrismo; ressuscitar para a alegria e para a esperança; morrer para a violência e para a indiferença; crescer em bondade e ternura; morrer para as aparências e prepotência, rejuvenescer na humildade e no perdão; morrer para a ganância desmedida e para a corrupção, desenvolver gestos de carinho e cuidado.

«Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará». Com efeito este é o meu caminho. É o teu caminho. É o caminho de cada cristão, de todos os cristãos. Seguir Jesus. Amar Jesus. Viver Jesus. Servir Jesus. Onde Ele estiver, ali estarei, ali estarás, ali estaremos para O vermos e, vendo-O, imitemo-l’O.

«Queremos ver Jesus». É o pedido feito por alguns gregos (judeus a viver na Diáspora) que vieram a Jerusalém por ocasião da Páscoa. Há de ser este o nosso desejo e o nosso pedido constante. Querer ver Jesus, para O seguirmos, para estarmos onde Ele está. Mas como Filipe e como André também temos a "obrigação" de conduzir os outros a Jesus. Que os outros sintam vontade de ver Jesus quando se aproximam de nós.

 

2 – «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto».

Avizinha-se uma hora (aparentemente) sombria, dolorosa, fatídica! «Agora a minha alma está perturbada. E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora?». Desde a primeira HORA que Jesus se encaminha para a HORA certa, a hora da glorificação que é coincidente com a MORTE. Vamos por partes. Não morrendo o grão de trigo fica só, não produzirá fruto, mas se morrer dará fruto em abundância. Assim o Filho do Homem morrendo dará muito fruto, muita vida, vida nova, abençoada, definitiva. A morte não é o fim. O fim é a vida, a entrega, o dar-Se por inteiro. Uma casa não habitada degrada-se tão ou mais rapidamente que uma casa em uso, assim um carro, assim a nossa vida. Arrumada na caixa da farinha a nossa vida ganhará pó e muitas teias de aranha.

Em muitos momentos da nossa vida gostaríamos que do Céu se fizesse ouvir uma voz límpida, firme, clarividente! Ainda que a voz venha do Céu, ou melhor, de Deus, por vezes as nossas limitações abafam essa voz ou simplesmente passa-nos despercebida, perdendo-se entre o ruído e as preocupações que nos atarefam. No batismo, na Transfiguração, agora, Deus faz-Se ouvir, os Céus rasgam-se para que as palavras sejam audíveis: «Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-l’O». Na comunicação o que se diz não é, quase nunca, igual ao que se ouve, pois a nossa mente, as nossas ideias e convicções, a nossa história, filtram e transformam as palavras absorvendo a expressão do rosto, o tom da voz, as variações da linguagem. Daí que duas pessoas tendo ouvido o mesmo discurso o traduzam por acentuações diferentes e, por vezes, diametralmente opostas.

A multidão que está perto de Jesus não é concorde: um Anjo que Lhe falou? Um trovão?

Jesus clarifica a VOZ que vem do Céu e o conteúdo da mensagem: «Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa».

 

3 – O trigo que é lançado à terra, morrendo, dará muito fruto. «Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim».

A Cruz está a ficar visível pela proximidade! A HORA de Jesus está aí. Vai ser entregue às autoridades, vai ser julgado e vai ser morto. Será elevado da terra. Como a serpente de bronze que Moisés fixou e elevou para que todos os que para ela olhassem sobrevivessem, assim o Filho do Homem será elevado da terra para redimir, para salvar, para dar pleno cumprimento à vontade do Pai e cumprir em perfeição a humanidade, introduzindo-nos em definitivo no mistério da vida divina. Vem viver connosco para nos permitir viver com Ele. Por conseguinte, a Sua morte não nos fará chegar a um abismo, ao vazio, mas far-nos-á encontrar com Deus: Pai nas Tuas mãos entrego a minha vida! É para lá que Ele nos conduz, é de junto do Pai que Ele nos atrai, nos protege e nos abençoa, nos ilumina e nos desafia a gastarmos a nossa vida, para que onde Ele estiver estejamos nós também.

As palavras do Céu, glorificam o Filho, mas são ditas para que O reconheçamos na Sua inteira doação e, sabendo que vai morrer, percebamos que também a morte é passageira, é um momento mais numa vida que se gasta até ao fim, mas não se esgota no tempo: abre-se ao Infinito do Pai. Cabe-nos fazer do mesmo modo e, por isso, lhe pedimos: «Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens». A vida é assim, quanto mais se dá, mais se ganha em sentido e em qualidade; quanto mais se gasta, mais se enriquece de alegria e de felicidade!

 

4 – Em Jesus Cristo, na Sua morte e ressurreição, Deus sela uma NOVA ALIANÇA, prometida e anunciada por forma a gerar confiança e esperança no futuro, para que a humanidade não se deixe abater/perder nas tramas da violência e da morte, do mal e do sofrimento dos tempos presentes. Quando tudo parece nubloso, um lampejo de luz poderá ser suficiente para iluminar o caminho. Com efeito, como refere o Papa Francisco, “a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho... o serviço da fé é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente...” (Luz da Fé, 57).

O Profeta Jeremias faz saber que Deus não Se esquece da Aliança firmada com o Seu povo. Apesar da infidelidade deste, Deus renova as Suas promessas, manter-Se-á fiel ao Seu amor. Não deixará cair a Aliança e ainda fará uma Aliança Nova, definitiva, duradoura, com uma lei não escrita em tábuas de pedra, mas impressas na alma: «Hei de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo... Todos eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, porque vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas».

Um dos maiores problemas do nosso tempo, de todos os tempos, e que afeta todas as pessoas, é a falta de esperança, a tal que deve ser a última a morrer, pois quando morre antes do tempo, pode não nos matar, mas destrói-nos por dentro, acabando connosco, com a chama que nos faz viver e que dá sentido ao nosso peregrinar. É como as dores do parto mais facilmente superáveis pela alegria certa que lá vem com o nascimento do filho!

 

5 – O salmo empresta-nos, uma vez mais, as palavras de Deus, para respondermos à Sua Palavra, rezando: «Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade, pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados. Lavai-me de toda a iniquidade e purificai-me de todas as faltas. / Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais repelir-me da vossa presença e não retireis de mim o vosso espírito de santidade./ Dai-me de novo a alegria da vossa salvação e sustentai-me com espírito generoso».

Belíssima ressonância da primeira Leitura. Rezamos a promessa de Deus: Ele não Se afastará de nós, pelo contrário, firmará uma Aliança Nova, imprimindo a Sua vontade na nossa alma, dar-nos-á um coração puro, um coração de carne, que ama e se compadece!

 

6 – O que não custa também não tem valor. Dizemos nós. Para que alguma coisa fique bem-feita precisa de esforço e atenção e por, vezes, sacrifícios e renúncias. Não damos valor ao que não nos custou a ganhar ou não nos saiu do corpo.

Não é um princípio absoluto mas ajuda-nos a valorar a entrega de Jesus. Ele empenha-Se totalmente. A Carta aos Hebreus relembra-nos: «Nos dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e súplicas, com grandes clamores e lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte e foi atendido por causa da sua piedade. Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna».

O combustível de Jesus é o Amor que Lhe vem do Pai, o Amor à humanidade e a certeza de que O podem matar, mas não Lhe tiram a vida, porque essa Ele a gasta a favor de todos.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Jer 31, 31-34; Sl 50 (51); Hebr 5, 7-9; Jo 12, 20-33.


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