Domingo IV do Tempo Comum - ano B - 28 de janeiro de 2018


1 – Jesus não nos quer pela rama, quere-nos por inteiro, com o que somos e com o que fazemos. Por conseguinte, também Ele não Se dá aos bocadinhos, a prestações, não Se se dá pela rama, entrega-Se como nos quer, por inteiro, gastando-Se até à última gota de sangue. Não há meio-termo! Como nos desafia: a vossa linguagem seja sim-sim, não-não! Ou como São Paulo, em relação a Deus e de Deus para os outros, a linguagem seja sempre sim, um sim a favor de todos, pelo amor que nos foi dado pela morte e ressurreição de Jesus Cristo.

A nossa vida, como pessoas e como cristãos, é um caminho nunca acabado, enquanto vivemos no tempo e na história. Há sempre aspetos da nossa vida pessoal, familiar, profissional, em que podemos e devemos crescer, desenvolver as capacidades, fazer com que os dons e os talentos se multipliquem. Como víamos no Domingo precedente, vivemos, se quisermos ser honestos e procurando a autenticidade, em dinâmica de conversão, não a um conjunto de verdades, mas a Jesus Cristo.

A Sua encarnação, a Sua vinda como Um de nós, tem como propósito salvar-nos integralmente, alma, corpo e espírito. O Seu ministério é um serviço de salvação completa, curando-nos das feridas corporais e espirituais, restaurando a nossa dignidade e identidade original, assumindo-nos como irmãos, filhos do mesmo Pai, numa única família de Deus.

Um povo que vivia nas trevas viu uma grande Luz. Jesus vem iluminar a vida. Passa pelo mundo fazendo o bem. Leva a Boa Nova aos pobres. Cura os doentes, sara os leprosos, convive com os excluídos: pecadores e publicanos, crianças e mulheres de má vida, doentes e estrangeiros. Faz-Se acompanhar por um bando de maltrapilhos, sem excluir ninguém. Entre os Seus apóstolos contam-se pobres, assalariados, mas também proprietários, como Tiago e João tinham assalariados a trabalhar com os barcos do pai, alguns com mais cultura como Filipe que falava grego, ou bons gestores, como Judas Iscariotes. Os que primeiro se apaixonam por Jesus, pelas Suas palavras e proceder, são as pessoas despretensiosas, simples, algumas delas magoadas pela vida, mas ainda assim prontas a confiar em Alguém que traz a Luz da proximidade, da amizade, da compreensão, do perdão e do amor.

 

2 – O Profeta da Alegria ensina com autoridade. Esta é uma mensagem que passa ao longo das diferentes versões do Evangelho. É uma autoridade que Lhe vem do alto, nas Suas próprias palavras, pois faz o que viu fazer ao Pai e concretiza as obras do Pai, não tendo a preocupação de Se exibir ou de Se armar em Alguém importante. Para quem O segue, a autoridade tem a ver com a coerência nas palavras e nos gestos. As palavras que profere são acompanhadas com gestos de libertação, acolhendo, abraçando, tocando as pessoas com as marcas da doença, do pecado e da morte! Sem preconceitos! Sem receios de ser apontado! Sem receio de ser contagiado pelo mal ou pela maldade, mas confiante em contagiar com o Seu amor e com a Sua bondade todos os que vai encontrando pelo caminho.

A vida não para. Jesus não para. É visível no Evangelho como Jesus continua em movimento. Para quando é preciso. Se for necessário fica dois ou três dias, mas o Seu frémito é chegar a todas as pessoas, a aldeias e cidades. Quer que todos conheçam o Seu Pai, e sobretudo o amor e a misericórdia de Deus, para Se deixarem transformar, pelo cuidado e, por sua vez, se tornem cuidadores!

Chegou a Carfanaum. Não terá muito tempo para o descanso, mas também não vive na azáfama de "mudar" o mundo de uma só vez e de forma milagreira. O evangelista só nos dá informação que no sábado seguinte entrou na sinagoga, concluindo-se que nada de extraordinário aconteceu nesses dias que antecederam o sábado. Isto nos sossega de algum modo: Jesus está e quer estar connosco, na festa e na rotina, no nosso dia-a-dia, mesmo que passe impercetível. Mas está no meio de nós. Caminha connosco. Está tão embrenhado no mundo que até podemos não O reconhecer! E aí já se torna preocupante!

Na Sinagoga está um homem com um espírito impuro! Nada do outro mundo. Maior que todos os espíritos impuros ou que todos os demónios, é Jesus. Todo o poder e toda a glória Lhe foram dados no Céu e na Terra. Não temais, Eu venci o mundo! O filho do Homem derrotou o Príncipe das trevas! É uma garantia dada por Jesus e nós ainda andamos tão acabrunhados cientes que os demónios têm mais poder que nós! Era o que mais faltava. Onde habita Cristo não há lugar para demónios, há lugar, isso sim, para a vida, para a luz, para o amor, para a paz, para o bem, ainda que haja sofrimentos e contrariedades, ainda que possa haver hesitações e dúvidas. Deus é maior. Jesus é maior! Maior que qualquer espírito impuro! Maior pelo Amor!

 

3 – O testemunho do espírito impuro acerca de Jesus é eloquente: «Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Ou seja, nem a "impureza" deve impedir o reconhecimento da grandeza de Deus. Nós que fomos resgatados pela água e pelo Espírito Santo, imersos no mistério da Sua morte e ressurreição, mais razões temos para testemunhar o Seu amor e o Seu perdão e as maravilhas que Ele realiza no mundo, contando comigo e contigo, contando com todos.

As palavras que os lábios soltam, imitando Jesus na autoridade que vem da coerência de vida e da fidelidade a Deus Pai, levam-nos ao cuidado dos outros, como rezamos no início da Eucaristia, em jeito de súplica: «Concedei, Senhor nosso Deus, que Vos adoremos de todo o coração e amemos todos os homens com sincera caridade».

 

4 – O silêncio de Deus pode ser confrangedor em momentos de dúvida, de adversidade, de injustiça! Por vezes gostaríamos que Ele desse um sinal mais clarividente, um estrondo, um raio, qualquer coisa serviria por mais pequena que fosse. Gostaríamos que Ele nos dissesse claramente qual o caminho a seguir! Mesmo que isso implicasse abdicar da nossa liberdade ou de uma parte dela. Quais crianças e adolescentes que exigem aos pais mais liberdade, mas quando se veem nos apertos logo pedem aos pais que façam alguma coisa, os livrem dos alhadas ou, como desculpa, invocam que afinal são crianças ou adolescentes e portanto ainda estão aprender.

Deus é Pai (e mais Mãe) e quer todo o bem para nós. Criou-nos para sermos felizes, criou-nos livres, criou-nos por amor, mas respeita e promove a nossa liberdade. Isso mesmo é manifesto por Deus através de Moisés, que falará através de um mensageiro, não impondo a Sua voz, não Se impondo. A promessa é taxativa: «Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar. Se alguém não escutar as minhas palavras que esse profeta disser em meu nome, Eu próprio lhe pedirei contas. Mas se um profeta tiver a ousadia de dizer em meu nome o que não lhe mandei, ou de falar em nome de outros deuses, tal profeta morrerá».

A responsabilidade é de quem fala em nome de Deus, tendo a missão de escutar, de acolher, de interpretar e de comunicar as palavras recebidas e da parte de quem escuta, ou melhor, que ouve as palavras mas sem as escutar, sem as fazer suas, ou, como dizemos, fazendo ouvidos de marcador!

Jesus, para nós cristãos, é o Profeta por excelência, as Suas palavras e os Suas obras concretizam a vontade de Deus Pai. Agora a bola está do nosso lado. A nossa inconstância pode atraiçoar-nos, pelo que devemos estar a alerta, como rezamos no Salmo: «Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: ‘Não endureçais os vossos corações, como em Meriba, como no dia de Massa no deserto, onde vossos pais Me tentaram e provocaram, apesar de terem visto as minhas obras’».

 

5 – Ninguém é mais que ninguém. Esta é uma expressão curiosa que escutamos amiúde e que serve ora para nos engrandecermos ora para rebaixarmos os outros, ora para nos justificarmos ora para exigir "justiça" em relação aos outros. Mas, na lógica dos discípulos de Cristo, tem a sua razão de ser: n'Ele somos iguais, somos Seus irmãos, nem mais nem menos. Estamos no mesmo saco, no mesmo barco. Ainda que com responsabilidades distintas, mas com a mesma obrigação de amar e de servir, de cuidar e de congregar. Por outras palavras, como nos recorda o Apóstolo, todos fomos salvos pelo Espírito de Cristo, pela Sua morte e ressurreição, então vivamos nesta condição, procurando em tudo, não a nossa mas a vontade de Deus.

Independentemente da nossa condição, casados ou solteiros ou viúvos, em todas as circunstâncias preocupemo-nos em viver ao jeito de Jesus.

 

Pe. Manuel Gonçalves

___________________________________

Textos para a Eucaristia (B): Deut 18, 15-20; Sl 94 (95); 1 Cor 7, 32-35; Mc 1, 21-28.


Todos os direitos reservados © PARÓQUIA DE TABUAÇO 2017 Realizado por Terra das Ideias