Domingo IV do Advento- ano B - 24 de dezembro de 2017


1 – «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo... Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim».

O relato da Anunciação faz-nos imaginar, de forma quase romântica, uma jovem, recolhida em casa, serena, a cuidar das lides domésticas, talvez a rezar, talvez a ler as Sagradas Escrituras. É assim que a iconografia no-la apresenta. O Evangelho refere que o Anjo Gabriel foi enviado a uma Virgem desposada com um homem chamado José e que o nome da Virgem era Maria. O anjo vai ao encontro de Maria onde Ela se encontra. Não é um lugar particular, mas como o Anjo entrou pressupõe-se que em casa. Por aqui se vê que Deus ousa entrar em nossa casa e na nossa vida, faz-Se convidado, depois caber-nos-á acolher a Sua vontade ou seguirmos o nosso caminho!

Por outro lado, para escutar a Sua voz é preciso algum silêncio, exterior, por certo, mas sobretudo interior, de quem se coloca em atitude de espera e de escuta. De contrário poderemos ouvir mas sem escutar, sem perceber quais as vozes pelas quais nos deixamos conduzir.

2 – «Como será isto, se eu não conheço homem?». Porquê eu? Que é que Deus me pede? Como responder à Sua chamada? Como se concretizará a Sua vontade?

A mudança nunca é fácil. Com o tempo, estruturamos de tal forma o nosso dia-a-dia que deixa de haver muito espaço para surpresas e novidades, para o inesperado, ainda que saibamos que existe uma margem para o mistério, pois nunca controlamos totalmente a nossa vida. Do ponto de vista da fé isso é positivo, confiarmos mais em Deus do que em nós, nunca dando a nossa vida como garantida. Estamos sempre a caminhar, a aprender, a santificar-nos. Mas convenhamos, quando a vida nos surpreende e nos obriga a mudar a agulha numa direção bem diferente do que era expectável e para a qual nos preparámos, surge, pelo menos, algum receio, pois o que nos bate à porta não condiz com o que projetámos.

Como é que se deve ter sentido Nossa Senhora? Talvez não tenha tido muito tempo para refletir. A um desafio tão inesperado, só uma resposta pronta, rápida. Porém, há tempo para interrogar o Anjo. Como será isto? Mulher jovem, israelita, a sua vida já estava alinhavada: viveria com José, com quem já se comprometera e teriam os filhos que Deus lhes desse, sabendo que os filhos são uma bênção. Estaria destinada a viver feliz, levando uma vida regrada, simples, discreta. Como tantas jovens da Judeia. Mas Deus quis precisar da sua cooperação de uma forma específica e privilegiada.

 

3 – «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível».

O que Deus nos pede não nos prejudicará, mesmo que, momentaneamente possa acarretar uma maior dedicação e esforço. Mas que seria da vida sem esforço? Seria como a comida sem tempero! Com efeito, temperamos a vida gastando-a e colocando o melhor de nós mesmos nos projetos a que nos propomos. Mais ainda quando procuramos que os nossos projetos sejam os projetos que Deus tem para nós, pois Ele compromete-nos com todos, sobretudo com os irmãos mais frágeis. Todavia, só Deus é uma garantia absoluta para o presente e para o futuro. A Deus nada é impossível. A única limitação somos nós. Deus quer e nós poderemos querer o que Ele quer ou simplesmente ignorar a Sua voz, o Seu querer e, até, o Seu amor.

Maria é surpreendida, mas confia que Deus não a pode defraudar. Sabe que pela frente não faltarão momentos conturbados, desde logo o facto de ter que justificar-se de uma gravidez milagrosa, estranha, inesperada. Mas muitos momentos agridoces há de experimentar, numa dinâmica dialógica entre a confiança em Deus e as adversidades presentes.

 

4 – «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».

Deus confia em nós. Deus aposta em nós. Deus espera por nós. Naqueles instantes, através do Anjo, Deus esperou por Maria e confiou que Ela pudesse dizer-Lhe sim. O repto estava lançado, o tempo estava a escassear, mas faltava a palavra de Maria. Deus age, é todo-poderoso, mas conta comigo e contigo. Não faz por nós. Responsabiliza-nos, respeitando a nossa liberdade. Criou-nos sem nós, como nos recorda Santo Agostinho, mas não nos salva sem nós, sem o nosso assentimento. A Sua vontade e o Seu amor esbarram com as nossas decisões e com as nossas fragilidades.

Maria respondeu por Ela, mas também em nome de todo o povo. Queiramos que tenha respondido por nós também. Peçamos ao Senhor a mesma opção firme por Deus. «Infundi, Senhor, a vossa graça em nossas almas, para que nós, que pela anunciação do Anjo conhecemos a encarnação de Cristo, vosso Filho, pela sua paixão e morte na cruz alcancemos a glória da ressurreição».

Nós, eu e tu, somos responsáveis por tornar o mundo mais saudável, mais belo, mais fraterno. Se nos entrepusermos entre Deus e os outros, colocando-nos como centro, referência, obscureceremos a luz que vem de Deus e que pode filtrar o que há de melhor em nós, o Deus que nos habita, passando-O para os outros. Maria, na sua humildade, permite que a grandeza de Deus e o Seu amor Se faça Pessoa, encarnando, e ilumine o mundo inteiro.

 

5 – Deus, na Sua sabedoria infinita, no Seu amor infindo, nunca Se afastou da humanidade, nunca desistiu de nós. Um Pai que ama como Mãe não desiste dos Seus filhos. Nunca. Por mais densas que estejam as trevas, a Sua misericórdia consegue vislumbrar o nosso coração. Podemos forçar o corte definitivo do cordão umbilical que nos liga ao nosso Criador, mas as cicatrizes ficarão para sempre no nosso coração e Deus espera que a qualquer momento possamos voltar a amar.

A história do Povo Eleito é atribulada. Muito atribulada! Ainda assim é história de salvação, Deus não cessa de apontar caminhos, enviar mensageiros, deixando entrever sinais da Sua presença. David, o grande Rei David, procura perceber e acolher a vontade de Deus, ainda que em alguns momentos se esqueça da sua missão, deixando-se vencer pelo poder e pelo lugar que ocupa. Deus faz-Lhe ver os seus erros e o seu pecado, mas não o abandona. David, por sua vez, não se ensoberbece diante de Deus, mas com humildade e confiança reconhece os seus fracassos, confia na bondade de Deus e intervém a favor do seu povo. A haver castigos prefere que lhe sejam infligidos e não ao povo.

Na primeira leitura vemos que David não esquece a proximidade de Deus e zela para que os sinais da Sua presença e da Aliança sejam resguardados. Afinal, a Arca de Deus liga-nos e lembra-nos de Deus. Há que lhe reservar um lugar digno. A esse propósito, Deus responde, através do profeta Natã, com a promessa de uma realeza eterna, relembrando que a iniciativa é divina. «Dar-te-ei um nome tão ilustre como o nome dos grandes da terra».

Também aqui a eleição de David é instrumental, a favor de todos. «Prepararei um lugar para o meu povo de Israel; e nele o instalarei para que habite nesse lugar, sem que jamais tenha receio... Farei que vivas seguro de todos os teus inimigos».

A promessa aponta o futuro, um descendente e um reino inabalável. «O Senhor anuncia que te vai fazer uma casa. Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com teus pais estabelecerei em teu lugar um descendente que há de nascer de ti e consolidarei a tua realeza. Serei para ele um pai e ele será para Mim um filho. A tua casa e o teu reino permanecerão diante de Mim eternamente e o teu trono será firme para sempre». Como se acentua no salmo, será uma aliança irrevogável. Um Pai, um Filho. Uma realeza duradoura.

 

6 – Para nós cristãos, a promessa de um descendente, um Filho, uma realeza eterna, concretiza-se com Jesus Cristo. Com efeito, o Apóstolo Paulo relembra como nos foi revelado o mistério da salvação. «Seja dada glória a Deus, que tem o poder de vos confirmar, segundo o Evangelho que eu proclamo, anunciando Jesus Cristo. Esta é a revelação do mistério que estava encoberto desde os tempos eternos mas agora foi manifestado e dado a conhecer a todos os povos pelas escrituras dos Profetas segundo a ordem do Deus eterno, para que eles sejam conduzidos à obediência da fé. A Deus, o único sábio, por Jesus Cristo, seja dada glória pelos séculos dos séculos».

A adoração há de dar lugar ao serviço; a celebração do mistério envolve-nos na transformação de um mundo novo que Jesus veio instaurar e inaugurar. Agora é comigo e contigo. É connosco. Ele assiste-nos como assistiu David. Ele confia e aposta em nós, como apostou e confiou na Virgem Maria.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): 2 Sam 7, 1-5. 8b-12. 14a. 16; Sl 88 (89); Rom 16, 25-27; Lc 1, 26-38.


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