Domingo IV da Quaresma - ano B - 11 de março de 2018


1 – «Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos. Exultai de alegria, todos vós que participastes no seu luto e podereis beber e saciar-vos na abundância das suas consolações» (Antífona de entrada).

O 4.º Domingo da Quaresma sublinha a alegria, o júbilo pelo caminho percorrido, pela proximidade à meta: a celebração festiva da Páscoa de Jesus! É o Domingo Laetare! A Igreja rejubila com os seus fiéis pela entrega confiante que Jesus faz da humanidade ao Pai. É como que uma pausa neste tempo de penitência e conversão para nos recordarmos do essencial da nossa vida cristã!

A Quaresma põe-nos a caminhar. É um caminho que parte da Páscoa "terrena" de Jesus. Existimos como comunidade porque Ele ressuscitou e está vivo no meio de nós. Ele precede-nos na morte e procede-nos na ressurreição! O caminho, por mais árduo que seja, está iluminado por Jesus, pela vida nova que nos vem com a Sua ressurreição, recebida por nós no Batismo.

Porquanto caminhamos sob as coordenadas do tempo e do espaço, sujeitos às limitações e fragilidades humanas, cientes dos nossos pecados, mas certos da misericórdia infinita de Deus, que nos impele a prosseguir ao jeito de Jesus, o Bom Samaritano: aproximando-nos dos mais frágeis, ajudando-os, cuidando das suas feridas, levantando-os e conduzindo-os à estalagem, para que sintam o conforto da presença familiar de Cristo e da Igreja, possam restabelecer forças e prosseguir caminho!

 

2 – A nossa alegria radica na Cruz de Jesus Cristo, nossa Páscoa! A Cruz não nos desafia ao sofrimento, não nos conforma com o mal, não nos resigna com as injustiças, não nos paralisa diante dos obstáculos. A Cruz é instrumento de redenção, sacramento do Amor, proposta de vida nova.

No diálogo com Nicodemos, Jesus compara a Sua missão à da serpente elevada por Moisés no deserto. Quantos fossem mordidos por serpentes, olhando para a serpente de bronze viveriam! O Filho do Homem também será elevado da terra e todos os que acreditarem terão n'Ele a vida eterna!

Tu e eu talvez tenhamos sido mordidos por serpentes! Fomos imersos na morte e ressurreição de Jesus, pelo Batismo, tornámo-nos novas criaturas. Mas, como nos lembra São Paulo, por vezes ainda no deixamos seduzir pelo nosso egoísmo! Então é hora de olhar novamente para aquela Cruz, onde Jesus deu a vida por mim e por ti!

«Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele». Nesta catequese batismal, Jesus explica a Nicodemos o que é nascer de novo, garantindo que quem não nascer da água e do Espírito não entrará no Reino de Deus. Só pode falar verdadeiramente das coisas do Alto, quem vem do alto, quem desceu do Céu, o Filho do Homem. É o mistério da Encarnação que terá o seu desenlace no mistério pascal. A morte de Jesus será expiadora, redentora, será a exaltação da entrega. O Pai entrega o Filho à humanidade, o Filho entrega-Se pela humanidade, assumindo as nossas culpas. Nessa oferenda está cada um de nós.

 

3 – Há um feixe de luz que vem da eternidade e que desbrava o caminho. A bola está do nosso lado. Basta olhar para o Filho do Homem, basta acreditar no nome do Filho Unigénito de Deus. É a nossa oportunidade, a nossa salvação. A condenação é não acreditar, é amar mais as trevas que a luz!

Jesus salva-nos pela Sua entrega, abre-nos as portas da eternidade, indica-nos o caminho a seguir. O Batismo faz-nos santos (era assim que nas Igrejas primitivas eram chamados os discípulos de Jesus, os batizados, antes de serem chamados cristãos), novas criaturas. A Graça afilia-nos a Deus Pai, irmana-nos com Jesus, enche-nos do Espírito Santo, capacita-nos para a bondade, dá-nos os instrumentos para sermos bem-aventurados, insere-nos no Corpo de Cristo que é a Igreja.

Um curso académico dá as bases a uma pessoa para ela exercer uma profissão. Não significa, porém, que essa pessoa seja bem-sucedida. Um bom aluno não é automaticamente um bom profissional ou um bom cidadão. Não é um canudo que resolve a nossa vida. Pode, isso sim, ser um ponto de partida. Depois vêm outros fatores importantes: a persistência, o trabalho, as novas competências desenvolvidas, as oportunidades no mercado de trabalho e na área de estudos, a coragem para largar da zona de conforto e procurar outras saídas, a resiliência e as pessoas que encontramos.

Só Aquele que veio do Céu nos pode mostrar o Céu. Foi o que fez Jesus! Devolveu-nos a luz, iluminou o caminho, fazendo-Se Ele mesmo o nosso Caminho! Sabemos o caminho, mas ninguém nos obriga a seguir por onde não queremos.

Quando olhamos alguém olhos nos olhos e deixamos que o seu olhar nos exponha é porque confiamos e estamos prontos para lhe responder ou para o escutar. Quando desviamos o olhar é porque não queremos que nos veja a alma, temos medo ou desconfiamos da pessoa que está à nossa frente. Não queremos dar-lhe uma resposta. Não queremos ouvir o que tem para nos dizer. Se as nossas obras são boas, feitas em Deus, então a luz é nossa amiga e companheira. Se as nossas obras são más, feitas às escondidas de Deus, então a luz torna-se incómoda e preferimos as trevas. A fé em Jesus Cristo é luz que nos encaminha para o bem e agiliza a prática das boas obras.

 

4 – A glória de Deus é o Homem vivo (Santo Ireneu). Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva. É este o mistério da nossa fé, que envolve a Encarnação de Jesus e o Seu mistério pascal. Deus criou-nos por amor, criou-nos para a felicidade. Criou-nos livres, tão livres que podemos afastar-nos d'Ele, podemos negá-l'O, esquecê-l'O, persegui-l'O e podemos matá-l'O, como fizemos com Jesus, ou matá-l'O dentro de nós para não O escutarmos, para O não vermos.

Ao longo da história, muitos foram os desvios, as infidelidades, pessoais mas também estruturais. Deus, porém, manteve-Se fiel à Sua Aliança, ao Seu amor por nós. O livro das Crónicas é explícito: «Naqueles dias, todos os príncipes dos sacerdotes e o povo multiplicaram as suas infidelidades, imitando os costumes abomináveis das nações pagãs, e profanaram o templo que o Senhor tinha consagrado para Si em Jerusalém. O Senhor, Deus de seus pais, desde o princípio e sem cessar, enviou-lhes mensageiros, pois queria poupar o povo e a sua própria morada». Mas o povo continuou longe do Senhor. Deixou de haver remédio. O povo foi deportado e o templo destruído.

Deus faz saber por Jeremias: «Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos». O tempo necessário para o arrependimento, para a conversão, para o retorno. A palavra de Deus pronunciada por Jeremias cumpre-se no primeiro ano do reinado de Ciro, Rei da Pérsia, que faz saber: «O Senhor, Deus do Céu, deu-me todos os reinos da terra e Ele próprio me confiou o encargo de Lhe construir um templo em Jerusalém, na terra de Judá. Quem de entre vós fizer parte do seu povo ponha-se a caminho e que Deus esteja com ele». A possibilidade de regresso é motivo de júbilo e gratidão!

 

5 – Há tantas situações que hipotecam a nossa alegria: a doença, a falta de trabalho, as condições precárias em que vivemos, a solidão, a doença crónica de um familiar, as injustiças que nos são infligidas na família ou no trabalho, a morte de um amigo ou de um membro da nossa família.

O povo de Deus experimentou a desolação, deixou de ter pátria e de ter templo.

O salmo expressa os lamentos do povo: «Sobre os rios de Babilónia nos sentámos a chorar, com saudades de Sião. Nos salgueiros das suas margens, dependurámos nossas harpas... Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor em terra estrangeira?». Mas faz-nos também perscrutar a voz de Deus: «Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, esquecida fique a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a maior das minhas alegrias».

Existem situações que hipotequem ou relativizem a nossa alegria, mas saber que Alguém segue connosco, apostando em nós, confiando em nós, esperando por nós, torna mais suave o nosso caminho, mais seguro os nossos passos, mais firme o nosso peregrinar.

 

6 – Não nos iludamos: a obra da redenção não é mérito ou conquista nossa, é dom de Deus. Basta acreditar! Basta olhar para Jesus! «Deus, que é rico em misericórdia, pela grande caridade com que nos amou, a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados, restituiu-nos à vida com Cristo – é pela graça que fostes salvos – e com Ele nos ressuscitou e com Ele nos fez sentar nos Céus... É pela graça que fostes salvos, por meio da fé. A salvação não vem de vós: é dom de Deus. Não se deve às obras: ninguém se pode gloriar. Na verdade, nós somos obra de Deus, criados em Jesus Cristo, em vista das boas obras que Deus de antemão preparou, como caminho que devemos seguir».

Não nos iludamos, a fé conduz-nos a Deus, compromete-nos com o próximo, leva-nos à prática do bem, traduzido nas obras de misericórdia, é a obra de Deus que opera em nós e nos faz agir!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): 2 Cr 36, 14-16. 19-23; Sl 136 (137); Ef 2, 4-10; Jo 3, 14-21.


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