Domingo IV da Páscoa - ano B - 22 de abril de 2018


1 – Jesus regressa ao MEIO para seguir à frente, precedendo-nos e impelindo-nos, com a paciência e a argúcia do pastor, com o olhar atento, com a agilidade para recuar, avançar, saltar uma vedação, um muro, pegar na ovelha que se tresmalha. E como diz alguém por aqui, Ele é o Bom Pastor e nós somos (as ovelhas mas também) os cães-pastores que cuidamos de incentivar as ovelhas a regressarem ao rebanho e de seguirem o Mestre.

Bento XVI, o Papa Emérito, na escolha do Seu brasão episcopal e papal tem um urso. Segundo o próprio, o primeiro Bispo de Frisinga, São Corbiniano, viajava em cavalo para Roma. Ao atravessar uma floresta foi atacado por um urso, que lhe devorou o cavalo. O santo homem fez com que o URSO o acompanhasse e levasse a carga até Roma. Bento XVI ter-se-á sentido como um urso que carrega a responsabilidade como Pastor, e como Urso torna-se obediente, disponível para transportar a Palavra de Deus e testemunhar Jesus Cristo. Uma vida ao serviço da Igreja e do Evangelho.

 

2 – «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas».

A imagem do Bom Pastor é das mais sugestivas e também das mais frequentes para clarificar o lugar de Deus em relação à humanidade e a assunção da missão de Jesus Cristo na história, no tempo e até à eternidade. Deus chama-nos como Povo e é como Povo, como família, que nos desafia a dar o melhor de nós, a colocarmo-nos ao serviço uns dos outros, na certeza que o bem realizado a favor dos outros também a nós beneficia, desde logo na qualidade de vida, pois há mais alegria em dar do que em receber.

Jesus nasce numa família concreta, num tempo determinado, inserido numa cultura específica. Com o advento da Sua vida pública chega também a certeza que Ele vem para congregar, alargando a Sua família a todos os que assim o entenderem: minha Mãe, meus irmãos e minhas irmãs são aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática. Mais felizes são aqueles que fazem a vontade de Meu Pai que está nos Céus. Já conheceis o Pai: o Pai está em Mim e Eu estou no Pai. Quem Me vê, vê o Pai. Se guardardes os Meus mandamentos permaneceis no Meu amor, Meu Pai vos amará, e nós viremos habitar em todos vós que guardardes os Meus mandamentos.

No Antigo Testamento, a referência ao pastoreio traz a promessa que o próprio Deus virá como Pastor apascentar o Seu povo. David torna-se o grande Rei de Israel. É um jovem pastor que tem a missão de, como Rei e em nome de Deus, governar aquele Povo. Os salmos fazem eco das promessas de Deus: se o Senhor Deus é o meu pastor nada me faltará.

 

3 – Os pastores foram os primeiros a adorar Jesus aquando do Seu nascimento, em Belém da Judeia. Na vida simples de Nazaré, Jesus contactou com a vida também simples e árdua do campo. Conhecia bem a dedicação e a preocupação dos pastores. É possível que também ele tenha assumido essa missão de juntar num só rebanho as ovelhas e cabras de cada família. Quando escasseava o pasto e as condições o permitiam, dois ou três jovens partiam para o monte em busca de pastos verdejantes para alimentar os cordeiros e os cabritos, parte importante da sobrevivência, não apenas para fornecer a carne mas também o leite, para beber e para fazer queijo, e a lã para os agasalhos de inverno. Haveria dias de luta em que tinham que andar à procura de alguma ovelha. Deixar alguma para trás trazia mais dificuldades à sobrevivência das famílias. Além da responsabilização.

A realidade experimentada na juventude é visível nas palavras de Jesus: «O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas». O contraponto é o mercenário, «como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com as ovelhas». E Jesus continua, em palavras que mostram a vida simples e comprometida dos pastores: «Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas».

É um pré-anuncio da Sua morte, para que n'Ele tenhamos vida e vida em abundância.

 

4 – A vinda de Jesus historiza-o na Judeia e na Galileia, mas não é um exclusivo daquelas gentes e daquele povo, daquela religião. Como facilmente se compreende, o global tem visibilidade na particularidade, no concreto. Amar o mundo inteiro é igual a amar mundo nenhum, se não se amam pessoas (de carne e osso) que estão à nossa beira. Em todo o caso, Jesus vem para a humanidade inteira, começando naquele tempo, naquela região, com aqueles Doze.

A multidão nunca impede Jesus de encontrar e encontrar-Se com rostos, com pessoas, com as suas histórias e os seus dramas, com as suas lágrimas e sorrisos, com os seus sonhos e esperanças. O anonimato e a solidão desumanizam-nos e destroem-nos. Imaginamos quando nos tornamos invisíveis para os outros, parecendo transparentes, o que é que sentimos? E quando fazemos os outros sentirem-se invisíveis aos olhos do nosso coração? Ora, é curioso perceber que no meio da multidão Jesus sente, sabe, reconhece uma pessoa que precisa da Sua ajuda, do Seu olhar, do Seu toque, da Sua palavra.

O pastoreio de Jesus alarga-se, expande-se ao máximo, geográfica e temporalmente: «Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

E o mandamento que Jesus recebeu do Pai e que assumiu é o mandamento que nos passa. Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura, fazei discípulos de todas as nações. O Bom Pastor continua a agir através de mim e de ti, através de quantos procuram viver segundo os critérios da bondade, do perdão e do amor, ao Seu jeito, dando a vida.

 

5 – O mistério pascal que celebramos em cada Eucaristia, permite-nos saborear e viver a entrega de Jesus a favor da humanidade, morrendo, e a Sua presença a chegar até nós, ressuscitando: a vastidão do Céu está ao alcance de todos. Agora é connosco fazer chegar o Céu, Jesus, o Evangelho a todos!

São Pedro, uma vez convertido, assume a missão apostólica e, cheio do Espírito Santo, fala e age em nome de Jesus Cristo, pois o Nome torna presente a Pessoa: «É em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos, é por Ele que este homem se encontra perfeitamente curado na vossa presença. Jesus é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que veio a tornar-se pedra angular. E em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos».

Depois da cura de um enfermo, os apóstolos são interrogados. Outrora talvez se tivessem escondido, com medo, agora enfrentam os seus medos e dão testemunho do Mestre dos Mestres, com alegria, com paixão, cientes que cumprem o mandato do Senhor, anunciando o Evangelho da redenção, a começar pelos seus compatriotas. O Pastor é também a Pedra angular. É Ele que reúne e congrega. É Ele que nos retira do pecado e da morte e nos conduz ao banquete da alegria e da vida nova. É Ele que nos faz Igreja, constituindo-nos como Povo, novo Povo eleito, assumindo-nos como Seu Corpo, Ele a cabeça, nós os membros. É pedra que dá consistência e sentido à nossa vida!

 

6 – Já somos mas o que havemos de ser só na eternidade de Deus. Jesus assume-nos como irmãos. No mistério da Sua morte e da Sua ressurreição, e na Sua vida por inteiro, Jesus revela-nos que Deus é Pai. Pai d'Ele e Pai-nosso.

São João, na sua missiva à Igreja fala-nos do admirável amor com que o Pai nos «consagrou em nos chamarmos filhos de Deus. E somo-lo de facto... Agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos como Ele é» e ver-nos-emos como Ele nos vê.

 

7 – Hoje celebramos o 55.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Nem todos temos as mesmas responsabilidades, mas o nosso contributo é essencial para uma Igreja em saída, em busca, missionária, transparecendo a alegria do Evangelho.

O papa Francisco, na Sua mensagem para este dia, sugere como tema: “Escutar, discernir, viver o chamamento do Senhor”. Na verdade, “estes três aspetos – escuta, discernimento e vida – servem de moldura também ao início da missão de Jesus: passados os quarenta dias de oração e luta no deserto, visita a sua sinagoga de Nazaré e, aqui, põe-Se à escuta da Palavra, discerne o conteúdo da missão que o Pai Lhe confia e anuncia que veio realizá-la «hoje» (cf. Lc 4, 16-21)”.

Seguindo o Mestre ponhamo-nos à escuta, para melhor discernirmos a vontade de Deus a nosso respeito, neste tempo, e com coragem procuremos efetivá-la no mundo de hoje!

 

Pe. Manuel Gonçalves

_____________________________

Textos para a Eucaristia: Atos 4, 8-12; Sl 117 (118);1 Jo 3, 1-2; Jo 10, 11-18.


Todos os direitos reservados © PARÓQUIA DE TABUAÇO 2017 Realizado por Terra das Ideias