Domingo III do Tempo Comum - ano C - 27 de janeiro de 2019


1 – A palavra convoca-nos, humaniza-nos, irmana-nos, faz-nos comunidade. Pela palavra, Deus criou o mundo. Deus disse e assim se fez! Pela Palavra, feita Carne, Jesus, Deus salva-nos, reconciliando-nos uns com os outros, integrando-nos, novamente, na Sua comunhão. O Verbo encarnou e habitou entre nós! Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida, ninguém vai ao Pai se não por Mim.

Depois do Batismo, no Rio Jordão, é tempo de Jesus começar a anunciar a Boa Nova da salvação. Para o evangelista São João, as Bodas de Caná marcam o início do ministério público de Jesus: o reino de Deus começa a manifestar-se em palavras e prodígios. No evangelho de São Lucas, depois do Batismo, Jesus é impelido ao deserto, vencendo connosco as tentações do poder, dos atalhos fáceis, das aparências, do egoísmo, e chega então o tempo de pregar a Palavra que traz da eternidade.

A um sábado, como bom judeu, Jesus vai à Sinagoga, na terra em que cresceu, em que conhece as suas gentes, amigos, familiares, conhecidos, vizinhos. E todos O conhecem! Ainda que a pessoa esteja envolta em mistério, nunca totalmente decifrável, quanto mais Aquele que é o Filho de Deus! A Palavra de Deus reúne os judeus, fá-los recordar as maravilhas do Senhor, as dificuldades do caminho, e a esperança com que aguardam novos tempos. Jesus toma a Palavra, um trecho de Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor».

A Sinagoga é lugar de oração, de escuta e de meditação da Palavra de Deus. Jesus faz um comentário simples, mas lapidar: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».

Mais à frente ver-se-á que as palavras de Jesus suscitam discussão, dividem, põem a descoberto o mal, a prepotência e a injustiça, proclamando a paz, a verdade, o amor, a partilha solidária, o compromisso com os pobres, os milagres a favor da vida. Mas desde a primeira hora, Jesus diz ao que vem. N'Ele Se cumprem as promessas de Deus. É a força do Espírito que O guia.

 

2 – Hoje, em Igreja, continuamos a rede que se estende dos tempos antigos. Também nós nos deixámos convocar pela Palavra. A preocupação de Lucas, ao investigar as palavras e a vida de Jesus, é para que outros possam ler, escutar e mastigar confiantes a Palavra de Deus. "Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado".

Em Nazaré, Jesus lê, comenta a Escritura Sagrada, procura mostrar como a Palavra de Deus encaixa na Sua vida. É o que nos cabe fazer como cristãos e como comunidade, escutar a Palavra de Deus e procurar que ilumine as nossas opções, entranhando-a na nossa vida. E como Lucas, fazer com que a Palavra de Deus possa chegar a outros, possa chegar a todos.

 

3 – É belíssimo e expressivo o texto que nos é servido como primeira leitura. Pouco tempo depois do povo voltar do exílio, Neemias procura reconstruir a cidade, mas também o povo. A Palavra de Deus é a oportunidade para recordar a Aliança celebrada entre Deus e Israel. O futuro começa a construir-se das raízes.

O povo é reunido para escutar o Livro da Lei. Todos sãos convocados, homens e mulheres, com idade para compreender. A leitura é feita desde a autora até o meio-dia. Esdras está num estrado, feito propositadamente, para que se faça ouvir. Abre o livro à vista de todos e, ao abri-lo, todos se levantam. Esdras bendiz a Deus e o povo responde erguendo as mãos: Ámen. Prostram-se por terra e adoram o Senhor. Esdras é ajudado pelos levitas na leitura e na explicação da Lei, para que esta esteja acessível a todos e por todos seja compreendida.

O Povo comove-se com a proclamação da Palavra. Neemias, Esdras e os Levitas dizem a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». O sábado para eles... Domingo para nós, o Dia do Senhor, dia da alegria, oportunidade para louvarmos o Senhor pela vida, pelas maravilhas da criação, tempo para agradecermos as bênçãos e as graças recebidas e por aqueles que caminham connosco, partilhando as alegrias e as tristezas, as esperanças e as angústias uns dos outros.

Neemias acrescenta: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».

A alegria do Senhor é a vossa fortaleza! Um dia de consagração para o Senhor, mas também para o Povo. A escuta da palavra e a reunião familiar, a festa, mas sem esquecer aqueles que não têm nada preparado! A proximidade com a Palavra de Deus faz-nos próximos e comprometidos uns com os outros.

 

4 – A Palavra dada é para ser cumprida. Os tempos que correm, algumas vezes, fazem-nos duvidar das palavras, sobretudo quando não são correspondidas com a vida, com aquilo que se promete. Seja como for, se quisermos, as palavras aproximam-nos e ajudam a compreender-nos mutuamente. Para nós crentes, a referência há de ser sempre a Palavra de Deus que cria e salva, que liberta e nos congrega como povo.

"A lei do Senhor é perfeita, ela reconforta a alma; as ordens do Senhor são firmes, dão sabedoria aos simples. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; os mandamentos do Senhor são claros e iluminam os olhos. O temor do Senhor é puro e permanece eternamente; os juízos do Senhor são verdadeiros, todos eles são retos".

 

5 – Pela Palavra somos convocados para nos tornarmos Igreja, para sermos Corpo de Cristo. O anúncio levou-nos à fé, a fé agrega-nos àqueles que creem no mesmo Cristo e, pela ação do Espírito Santo, em Igreja, tornamo-nos novas criaturas, morrendo, pelo Batismo, para o pecado e para a morte, e ressuscitando para a vida, para a verdade e para o bem.

E se todos somos Cristo, se todos pertencemos uns aos outros, então todos somos responsáveis por todos, cada um com as suas qualidades e com os seus dons, pois se um membro sofre, a dor e o sofrimento estende-se a todos os membros.

São Paulo recorda-nos, com a imagem do Corpo e dos seus membros, como Cristo é a cabeça deste Corpo (místico) e nós somos os membros, nem todos com as mesmas funções, mas todos essenciais. «Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos batizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito... Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte».

Se nos centrarmos em nós, perdemo-nos. Se vamos na rua a olhar para o nosso umbigo acabaremos por embater contra alguém ou alguma coisa. Temos de aprender, constantemente, a olhar para os outros com o olhar de Deus que Jesus nos revela, olhar de ternura e de amor, de compaixão e de bondade, apreciando todo o bem que nos outros se manifesta. Juntos, reconhecendo-nos como filhos bem-amados do Pai, irmãos em Jesus Cristo, estaremos mais perto de ser santos.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Ne 8, 2-4a. 5-6. 8-10; Sl 18 B (19); 1 Cor 12, 12-30; Lc 1, 1-4: 4, 14-21.


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