Domingo III do Tempo Comum - ano B - 21 de janeiro de 2018


1 – Já todos ouvimos e/ou dissemos a alguém: tu és um troca-tintas, mudas de opinião como quem muda de camisa! Se somos nós a dizê-lo é porque nos sentimos incomodados com o outro, com as suas opiniões ou opções, porque não nos convém, porque nos provoca e desinstala (positiva ou negativamente). Se os outros o dizem de nós é porque não nos compreendem, é porque são conservadores e querem ficar sempre na cepa-torta ou são casmurros, pois não compreendem e não querem compreender, só porque discordámos deles ou as nossas escolhas os afetam (positiva ou negativamente).

Há um ditado oriental que diz que só não mudam os sábios e os burros. Como nenhum de nós está nesse extremo, e a tendência será a sabedoria do coração, então estamos sempre a tempo de mudar, de alterar o rumo da nossa vida, de corrigir o caminho percorrido, de amadurecer as nossas convicções e as nossas escolhas. Com efeito, a verdadeira sabedoria leva-nos a considerar as nossas limitações e a assumir humildemente que estamos a caminho. Sempre poderemos aprender mais e mais.

No plano da fé, a consciência que estamos a caminho, como peregrinos, é garantia para permitirmos a presença de Deus na nossa vida. Sede perfeitos como o Vosso Pai celeste é perfeito é um desafio permanente, nunca alcançável, que nos compromete a uma identificação permanente a Jesus Cristo e ao Seu mandamento de amor. Cabe-nos a inquietação de quem procura. Importa que nunca nos resignemos concluindo que tudo na nossa vida está realizado, cumprido, como se a vida não tivesse mais nada para nos dar e nós não tivéssemos mais nada a dar à vida e aos outros! A humildade consiste precisamente nesta abertura à graça de Deus, a esta consciência que até à eternidade somos seres humanos, portanto, limitados, finitos, frágeis. Mas uma fragilidade que se abre para os outros e para Deus, engrandecendo-nos, irmanando-nos e humanizando-nos.

 

2 – As convicções fazem parte da dignidade da pessoa. Uma pessoa sem convicções é como um barco à deriva, desliza ao sabor das marés. Ainda assim, as convicções podem ser amadurecidas, com diferentes variantes a serem alteradas, corrigidas, aperfeiçoadas. Sublinhe-se, todavia, que uma pessoa que tenha convicções e ideias bem definidas tem mais facilidade no diálogo com os outros, podendo acolher ideias e opções diferentes e até modificar as suas opções pela constatação do que sabe, pela abertura ao que vem dos outros e pela justiça / justeza das suas ou das ideias dos outros. Não se pode pedir a alguém para mudar se ela não sabe onde está, não sabe o que quer, não sabe para onde vai! Então iria mudar o quê?

«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». São as primeiras palavras de Jesus no evangelho de São Marcos, que nos informa que, depois da prisão de João Batista, Jesus parte para a Galileia e começa a proclamar o Reino de Deus. Conclui-se, por aqui, que Jesus estaria pela Judeia, seguindo de perto o ministério do Precursor. Alguns estudiosos referem que Jesus integrava o grupo de seguidores e simpatizantes de João Batista, preparando-Se para assumir o Seu próprio caminho e ministério. Com a prisão de João, Jesus “sabe” que o Seu tempo chegou!

Pondo-nos à escuta da pregação e do ministério de João Batista percebemos como prepara e antecipa a missão de Jesus, com um apelo premente à conversão, à mudança de vida, ao arrependimento e à penitência. Assim é também o batismo que realiza, em contraponto com o batismo futuro que prevê com a chegada do Messias, um batismo novo, na água mas também no fogo e no Espírito Santo.

As palavras de Jesus não nos convocam para uma mudança de regime, de política, de ideologia, mas a mudarmos a própria vida, passando das trevas à luz, do pecado à santidade e ao compromisso com os irmãos, da indiferença à compaixão, da violência à ternura, do egoísmo ao amor e serviço ao próximo, do individualismo à comunhão, à partilha solidária, da vingança e da coscuvilhice à compreensão, ao perdão e à inclusão.

 

3 – Na primeira leitura é-nos apresentado um personagem que marcou decisivamente a cultura religiosa do povo judeu e a sua imagem acerca de Deus. Ou, pelo menos, desafia aquele povo e provoca-nos a perceber que Deus é bom e que não serve para os nossos dislates e indisposições, para os nossos arrufos e violências. Não há aqui espaço para nacionalismos, para sobranceria, para exclusão. A salvação de Deus destina-se a todos, quer gostemos quer não gostemos. O outro, como eu e como tu, é lugar-tenente de Deus, não importa a cor da sua pele, a língua que fala, o território que habita, importa que a Palavra de Deus chegue à sua vida para que se converta de tudo o que destrói e mata.

Jonas é convocado por Deus para ir à cidade de Nínive pregar o arrependimento, a mudança de vida, usando uma linguagem claramente provocadora que não deixará ninguém indiferente: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída».

Pelo meio fica a pedagogia de Deus em relação a Jonas e em relação ao povo hebreu e à sua cultura religiosa excludente, nacionalista, preconceituosa. Se havia dúvidas que em Deus prevalecia a misericórdia, a compaixão e o perdão, elas são desfeitas com o alerta ao povo de Nínive e com o desfecho positivo.

Jonas percorre um longo caminho. Coloquemo-nos a caminho com ele! Não é fácil perdoar. Não é fácil aceitar alguém que é diferente, com costumes esquisitos em relação a nós, não é fácil querer o bem para quem nos quer mal e, podendo, nos devora! Diante do chamamento de Deus, Jonas vacila, resiste, tenta enganar-se e enganar a Deus. Não quer ajudar a salvar um povo que quer ver destruído. O cachalote que o engole e vomita, símbolo da terra que retém Jesus na morte até à ressurreição, coloca-o numa terra nova, numa terra estrangeira, pronto a prosseguir (não a sua mas) a vontade de Deus.

Depois da pregação de Jonas, os habitantes de Nínive acreditaram em Deus e converteram-se do seu mau caminho. Deus desistiu do castigo que lhes anunciara.

Na continuação da leitura veríamos como Jonas ficou irritadíssimo por Deus não ter aniquilado toda a cidade. Mais uma vez Deus usará de paciência para com Jonas e lhe mostrará que a alegria de Deus é a saúde, a alegria e a vida das pessoas!

 

4 – Deus conta comigo e contigo. Conta com todos para levar mais longe a Sua mensagem de amor e de compaixão. Chama Jonas para salvar uma cidade inteira. Em Jesus, Deus chama Simão e André, Tiago e João. Jesus não os chama para ter um grupo de discípulos que O aplaudam, O protejam, o engrandeçam. Se fosse isso seria necessário arranjar um profissional de Recursos Humanos. Como dirá Augusto Cury, só Judas seria admitido pelo saber, pela cultura e pela competência.

O evangelista, desde o início, mostra-nos Jesus em trânsito, a caminhar, hoje, junto ao mar da Galileia. Vem e passa por nós, desafiando-nos: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».

Pedro, André, Tiago e João deixaram as redes e seguiram Jesus!

Hoje Deus chama-nos, a mim e a ti! Conta connosco! Como Lhe respondemos? E como efetivamos no dia-a-dia a resposta que Lhe damos?

 

5 – São Paulo desafia-nos a viver bem o tempo presente, o tempo que Deus nos dá. É uma dádiva que nos compromete uns com os outros. Se o tempo nos é dado, então há que o aproveitar. É breve! Não o podemos desperdiçar com futilidades que nos destroem. «O cenário deste mundo é passageiro». Vivamos para o Senhor! E viver para o Senhor, quer vivamos quer morramos, é viver como o Senhor, a gastar a vida para que os outros tenham vida em abundância. E, consequentemente, a nossa vida será abundante, pois será preenchida pelo bem que fazemos, pela alegria do conforto e da ajuda que dispensamos àqueles e àquelas que Deus nos confiou!

 

6 – O caminho nem sempre é fácil. Percorremo-lo confiantes, sob a bênção e proteção de Deus e com o auxílio dos que caminham connosco, nesta peregrinação que só na eternidade estará terminada!

Em auxílio da nossa fragilidade e das nossas hesitações, a bondade e a graça do Senhor nosso Deus. Deixemos que a Luz do Seu amor ilumine o nosso caminho e as nossas opções. «Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, ensinai-me as vossas veredas. Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me, porque Vós sois Deus, meu Salvador. Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças, que são eternas. Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência, por causa da vossa bondade, Senhor» (Salmo).

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Jonas 3, 1-5. 10; Sl 24 (25); 1 Cor 7, 29-31; Mc 1, 14-20.


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