Domingo III de Páscoa - ano C - 5 de maio de 2019


1 – É pelo amor que vamos. É a força maior. É o essencial para nos tornarmos humanos. Sem amor não existe humanidade enquanto tal. O amor gera a vida, gera relações, convivência, confiança, proximidade, gera comunidade e família, ativa o compromisso com os outros e o altruísmo, compromete com o bem e com a transformação do mundo. Não há relações humanas sem amor. É uma ilusão pensar o contrário. A verdadeira relação humana expõe-nos diante do outro, da pessoa amada, tal como somos, exterior, mas sobretudo interiormente. Não é possível despirmo-nos para estranhos (exterior e interiormente), a não ser em questões mais delicadas (consultas médicas…) ou se já perdemos o sentido de pertença, de identidade, da preservação do que somos como pessoas. Ou numa palavra mais popular, se já perdemos a vergonha!

O amor não é, e começamos a ficar todos de acordo, um mero sentimento que nos liga e nos desliga, é aquilo que António Damásio chama um sentimento de fundo, está antes dos sentimentos e serve-lhes de fundamento ao ponto de não ser possível viver sem amor, sem afeto, sem o calor e o carinho humano. E hoje que celebramos o Dia da Mãe, sabemos bem que sem a Mãe, o seu aconchego e a sua carícia dificilmente descobriremos o que é ser filho, o que é ser pessoa, o que é ser amado sem condições nem reservas. (Por certo se poderá dizer algo de semelhante dos pais quando estes se assumem como tal e, em algumas situações, quando têm de fazer de pai e de mãe).

Há crianças que adoecem e a cura está no afeto, na carícia, na voz e no colo da Mãe, mais que todos os medicamentos. Sem excluir doenças mais crónicas ou cuja especificidade passa por tratamentos "agressivos" e por intervenções cirúrgicas. Mas a proximidade afetiva ajuda sempre a superar ou a encarar o sofrimento.

O mundo em que vivemos é carente de amor e por isso tão destrutivo! E mesmo o ódio, como sói dizer-se, é uma forma de amar, distorcida, vindicativa ou revoltada face ao amor. O contrário do amor é mesmo o egoísmo, assumindo-nos como o centro do mundo e subjugando todos os outros. O que nos destrói não é o excesso de amor, é o défice de atenção, cuidado e serviço aos outros. O que nos destrói é a indiferença perante o outro, o seu sofrimento e a sua história.

 

2 – A caminhada de Jesus com os Seus discípulos foi longa, ainda que se concentrasse em três anos de vida pública. Com altos e baixos, como a nossa vida! Com Ele aprenderam a amar e a cuidar, a aproximar-se dos mais frágeis e a perdoar, aprenderam que o caminho nem sempre é fácil e que o sofrimento nem sempre é fraqueza.

Depois da Ressurreição, Jesus volta à convivência dos Seus discípulos, para lhes lembrar tudo quanto lhes disse, para avivar as prioridades e as opções fundamentais para viver e transparecer a vontade de Deus. O caminho, a vida, não está isenta de dificuldades e obstáculos. A pesca milagrosa é expressão da bondade de Deus e da abundância de vida que deseja para nós, para mim e para ti, para todos. Sem Deus a vida perde o sentido de plenitude e de esperança, encerra-nos num aqui e agora que é demasiado curto para os nossos anseios, sonhos e projetos. E, se Deus não existe, como garante de futuro e de justiça, tudo vale, tudo é igualmente defensável, faça eu o bem ou o mal, abençoe ou destrua o outro.

Em meio das nossas preocupações e desalentos, a presença de Deus é um desafio e uma companhia que nos anima, que nos provoca, que nos acaricia, que nos alimenta. «Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis». Quando nos lançamos, quando confiamos em Deus, quando depomos toda a nossa vida em Deus, então a pesca torna-se abundante, ainda que nos "obrigue" ao trabalho dedicado e ao esforço comprometido. A delicadeza de Jesus permanece viva. «Trazei alguns dos peixes que apanhastes agora». Jesus conta connosco. Não faz por nós. Não faz tudo sozinho. Ele é alimento. Dá-lhes o pão. Trouxe pão. Mas pede algum peixe. «Vinde comer»! É um convite ao banquete, à fraternidade, à partilha, para que, alimentando-nos do mesmo pão, sejamos um só Corpo!

 

3 – Chega o momento de Jesus, de algum modo, passar o testemunho. Numa corrida de estafeta, o trabalho de equipa é fundamental, a confiança e a coordenação, o esforço pelos outros, e o incentivo aos outros. Cada um corre parte do trajeto, entrega ao seguinte o testemunho e, nessa passagem, o que entrega e o que recebe o testemunho, percorrem uma parte do caminho juntos. No final, conta o que cada um fez, mas conta igualmente o que fizeram como grupo, em conjunto. Jesus fez o Seu caminho. Melhor, revelou-Se como Caminho, Verdade e Vida para nós. Passa o testemunho a Pedro e aos Apóstolos, a mim e a ti. Ele faz parte do nosso caminho, incentivando-nos a caminhar, mas neste caso, não fica para trás, continua até ao fim. Podemos perder-nos, perdendo-O, deixando de O sentir, de O escutar, de O ver. Mas Ele não desiste de nós. Continua. Podemos esconder-nos. Podemos abafar a voz que ressoa em nós. Podemos distrair-nos. Mas basta uma pequena abertura, e Ele regressa. A condição é igual para todos. Amar.

Cabe-nos receber o testemunho e passá-lo a outros, não deixando de percorrer o caminho. Somos chamados e enviados. Discípulos missionários.

«Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?». Por três vezes Jesus pergunta a Pedro pelo amor. Antes, fraquejou, negou Jesus por três vezes. À tripla negação há de corresponder a tripla confissão de fé em dinâmica de amor, de confiança e de entrega. Jesus não lhe pergunta por qualidades, por competência, por formação (tudo isso será importante, mas não decisivo), pergunta-lhe por amor. E Pedro, uma e outra vez, responde: «Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo».

Só então é que Jesus lhe passa o testemunho. Só então o discípulo se converte em Apóstolo, em missionário, em enviado: «Apascenta as minhas ovelhas». E logo Jesus acrescenta que o caminho não estará isento de dificuldades, mas o essencial é não desistir de amar, de se dar, de se comprometer.

 

4 – Na primeira leitura, vê-se como Pedro assumiu o testemunho recebido de Jesus e como o comunica a outros: «Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens. O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vós destes a morte, suspendendo-O no madeiro. Deus exaltou-O pelo seu poder, como Chefe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e o perdão dos pecados. E nós somos testemunhas destes factos, nós e o Espírito Santo que Deus tem concedido àqueles que Lhe obedecem».

Já não importa o sofrimento que lhe é infligido por amar, seguir e servir Jesus, por anunciar o Evangelho e chamar outros à família de Deus. Jesus veio para todos, para a todos salvar. Os seus discípulos são portadores do amor de Jesus e da Sua vontade salvífica. Por isso, não cessarão de evangelizar, em palavras e obras, assomando em si as palavras e as obras de Jesus.

 

5 – O "embate" com o mundo, com a realidade pode ser demolidor. Há o entusiasmo da fé, da certeza que que Jesus segue connosco, mas as dificuldades e obstáculos podem ser em tão grande monta que pareçam mais fortes que a nossa fé, mais fortes que as forças do bem, mais fortes que o amor. O amor é frágil. Duma fragilidade que nos humaniza. Não se impõe. Não tem armas nem exércitos. Apenas compromisso. Cuidado, atenção e serviço. Não recorre nem à força, nem à violência, nem a negociatas, expõe-se apenas.

No livro de Apocalipse, no confronto com a realidade que a Igreja e os cristãos enfrentam, de perseguição e morte, as revelações/visões de São João são alento à esperança, desafiam à persistência, comprometem-nos com o bem, na certeza que Jesus já venceu o mundo, melhor, já venceu, pela Sua vida, morte e ressurreição, todas as forças do Mal. Cabe-nos tornar presente a Sua vida e o Seu amor.

 

Pe. Manuel Gonçalves

_________________________

Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 5, 27b-32. 40b-41; Sl 29 (30); Ap 5, 11-14; Jo 21, 1-19.


Todos os direitos reservados © PARÓQUIA DE TABUAÇO 2017
Realizado por Terra das Ideias

Política de Privacidade