Domingo III da Quaresma - ano B - 4 de março de 2018


1 – Existe a sensação que neste tempo nada é sagrado, nem a própria vida! Na Mensagem para esta Quaresma, o Papa constata como até a vida humana é sacrificada aos interesses pessoais, à comodidade, bem assim como a natureza sacrificada no altar da economia, do lucro, da produtividade levada ao extremo; o ar, a terra e o mar, que deveriam ser espaço do encontro e da vida abundante, são lugares para a poluição, os despojos, a violência, a morte.

O Templo deveria ser lugar de encontro, de fé e de festa, de celebração da vida, de louvor e de ação de graças a Deus, espaço sagrado de encontro do homem com Deus, mas tornou-se oportunidade de negócio, sobretudo por ocasião das festas, com inflação dos preços dos animais para os sacrifícios, mas também a usura praticada no câmbio das moedas (os peregrinos que vinham da diáspora trocavam o dinheiro que traziam pelo dinheiro usado na Palestina, a fim de pagarem o imposto anual ao Templo).

O comércio floresce à volta dos grandes centros religiosos. É inevitável. Para acolher os peregrinos são necessárias estruturas, espaços para pernoitar, para comer, lojas de recordações. Isso beneficia a economia, gera empregos, envolve pessoas e famílias. Em épocas altas, contudo, os preços aumentam considerável e mesmo abusivamente. Na Visita do Papa Francisco a Fátima, os preços subiram de forma abissal, sabendo-se da elevada procura. Havendo aumentos, deveriam ser razoáveis, pois o aumento exponencial de pessoas presentes por si só aumenta exponencialmente os lucros.

Outra das dificuldades é colocar limites “arquitetónicos”. Alguns comerciantes eram bem capazes de retirar o altar e colocar lá a banca. Felizmente que a criação de regras permite uma relação mais saudável entre os lugares sagrados e os espaços comerciais.

Outro aspeto que poderemos considerar: antigamente as igrejas funcionavam como asilo para os fugitivos e como albergue para os mendigos. Hoje são assaltadas, vandalizadas e usadas para protestos, para difundir ideologias ou princípios contrários à Igreja e ao cristianismo.

 

2 – Jesus vai ao Templo de Jerusalém e fica boquiaberto com a balbúrdia que encontra. Havia, com efeito, um lugar reservado para os cambistas e para os vendedores de ovelhas e de pombas. Jesus sabia disso. Então porquê esta reação? É possível que os comerciantes se aproveitassem das ocasiões festivas, explorando ao máximo os peregrinos. Os mais indefesos são precisamente os mais frágeis, pobres e com nenhuns estudos, mas com grande devoção e piedade, cumprindo escrupulosa e generosamente com as ofertas para o Templo.

«Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». A reação de Jesus surpreende aqueles que não estão habituados às Suas denúncias em relação aos fariseus e aos doutores da Lei e às autoridades do Templo. Na verdade, já várias vezes tinha mostrado a Sua estranheza em relação à postura das autoridades religiosas e políticas. A Sua conduta é já denúncia pois põe a descoberto, pela transparência e pelo contraponto, os abusos de poder, o autoritarismo, a corrupção, a inversão do que deveria ser um dirigente. Sobreavisa os Seus discípulos para a tentação do poder sobre os demais. O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. Como Eu fiz, fazei-o vós uns aos outros. Quem quiser ser o primeiro seja o último, o servo de todos. É esta a lógica de Jesus. O serviço e o amor como único poder para quem quiser ser Seu discípulo.

 

3 – Este episódio é conhecido como expulsão dos vendilhões do Templo, mas também como Purificação do Templo, indiciando o início de um novo culto. Este fazer-se-á em espírito e verdade. Jesus será o novo Templo e n’Ele o culto novo.

Nos evangelhos sinóticos, Marcos, Mateus e Lucas, o episódio situa-se depois da entrada triunfal em Jerusalém e parece ser a gota de água que faltava para decisão final: Jesus tem que ser eliminado! As armadilhas não produziram efeito! A Sua morte é a solução encontrada!

No evangelho joanino, o episódio aparece no início da vida pública, dando a entender a consciência de Jesus, desde a primeira hora, do que está para acontecer: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Intuindo a própria morte, Jesus desvela o mistério da ressurreição.

Perplexidade: o Templo demorou 46 anos a construir, como é que Alguém poderá reconstruí-lo em três dias?! Seria uma loucura. Depois da ressurreição, os discípulos vão compreender que Ele falava do Seu corpo! O Templo é Jesus, lugar para o verdadeiro e definitivo culto, lugar privilegiado para o encontro com Deus. Pela história, o culto celebrar-se-á no Seu Corpo Místico, a Igreja.

Deus está em toda a parte e não pode ser encerrado dentro de um edifício ou de um santuário, mas sem o sagrado também não há presença, não há sacramento. É como o amor! Ama-se no concreto, pessoas concretas. Amar toda a gente é filosofia barata, é amar ninguém. Por outro lado, o amor não se vê, mas expressa-se em gestos, em palavras, em atitudes. Assim também o nosso encontro com Deus. Quando nada é sagrado, também deixa de haver lugar para Deus. Agora nem na manjedoura!

 

4 – Jesus é o Templo do Deus vivo, é o Sacramento da nossa salvação. O mistério da Sua morte e ressurreição acopla-nos à vida divina, aos desígnios salvíficos de Deus, ao Seu Amor infindo. Em quinta-feira santa sentar-nos-emos em volta da refeição, olhando para Jesus, deixando que o Seu olhar, profundo e luminoso, nos veja, olhos nos olhos, e percebamos então quanto amor, quanta vontade de nos levar conSigo, de nos elevar para o Pai ou de ficar connosco! A vontade de Deus ultrapassa todos os obstáculos, por maiores que sejam, sem ferir a nossa liberdade. Correspondendo a esse desejo apaixonado de permanecer e nos comungar, Jesus institui o mistério da Eucaristia, para que, sempre que nos reunamos para fazer o que Ele faz, possamos participar da mesma oblação. Mas também assim dos demais sacramentos da vida nova, acolhendo-O vivo no meio de nós.

Morrendo com Ele para o pecado e para a morte, com Ele ressuscitamos, pelo Batismo, para uma vida nova. São Paulo recorda-nos que Cristo crucificado é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, mas para nós é poder e sabedoria de Deus. Na fragilidade da morte, a grandeza da comunhão com o sofrimento, o pecado e as cruzes humanas. Na aparente fraqueza, a grandeza do amor.

Um cristão não existe sozinho. É um absurdo pensar assim. Sou cristão mas sem Igreja, sem irmãos, sem comunidade! É um contrassenso. Somos membros de Cristo-Igreja, somos templo uns para os outros, lugar de encontro do humano e do divino. Não é algo separável. Não sou cristão em casa. Sou cristão (em casa) para as pessoas de casa. Começa aí. Mas não sou cristão isolado na minha concha, na minha casa, no meu mundo. Por conseguinte, quando o cristão não pode ir confraternizar (com+frater, frater = irmão), então a Igreja desdobra-se para estar presente junto desse irmão, nomeadamente através da visita aos doentes e da distribuição da comunhão eucarística. Desde os inícios, a Igreja tem pessoas mandatadas para levar a comunhão aos doentes e/ou aqueles que estão impossibilitados de participar no decorrer da celebração. Na Eucaristia Jesus faz-Se presente. Na Eucaristia eu afirmo o meu amor a Cristo, con-fraternizando à volta da mesa da Palavra e da mesa eucarística, e no final (que não o é propriamente) saio para ser Eucaristia para os outros.

 

5 – A fé é dom de Deus que cada um acolhe segundo as suas capacidades e sensibilidade. Porém, a fé, no caso concreto, a fé cristã, une-nos, não a um conjunto de ideias, regras, obrigações, mas a uma Pessoa, a Jesus Cristo, que traz de Deus a salvação, vem para nos elevar com Ele, santificando-nos, introduzindo-nos na vida divina, iniciada no tempo e na história, com os outros. Ora, se Ele que era Deus Se fez homem, misturando-Se connosco, também nós, afiliados por Ele e por Ele assumidos como irmãos, acolhemos a fé traduzindo-a, aprofundando-a, concretizando-a na relação com os outros.

A palavra de Deus dá-nos muitos subsídios que nos mostram o caminho para Deus, fazendo-nos consortes uns dos outros. Ouvimo-lo claramente a Jesus: o que Eu vos fiz fazei-o uns aos outros, vai e faz tu também do mesmo modo (lema pastoral da diocese de Lamego. Tudo se pode resumir no mandamento novo do amor: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.

Deus nunca cessou de nos dar preceitos que nos guiassem para a vida. A vivência dos 10 Mandamentos colocam-nos dentro o povo de Deus: «Não terás outros deuses perante Mim. Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus... Lembrar-te-ás do dia de sábado (para nós o Domingo), para o santificares. Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença».

E assim pode começar a nossa relação com Deus, a nossa solidariedade com os outros, colocando Deus em primeiro lugar, respeitando a vida, a vida dos outros, criados, como nós, à Sua imagem e semelhança. Na dúvida, Jesus é guia e luz, referência e caminho! Basta fazer como Ele!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Ex 20, 1-17; Sl 18 (19); 1 Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25.


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