Domingo III da Páscoa - ano B - 15 de abril de 2018


1 – Jesus caminha connosco. Segue-nos por onde vamos e para onde formos. Nem sempre O reconhecemos, por seguirmos distraídos ou ocupados com muitas coisas; porque o sofrimento não nos deixa abrir os olhos e muito menos o coração; porque estamos saciados de nós mesmos.

A Sua Palavra prepara-nos, ajuda-nos a lavar os olhos quando nos pesam pelo cansaço, pela fraqueza, pela desilusão; quando nos adormecem perante o mal que nos circunda e que julgamos invencível; quando se fecham ao sofrimento e às súplicas dos irmãos.

Ele caminha connosco! Hoje somos nós os discípulos de Emaús.

Os discípulos de Jesus nunca O conheceram bem. Pensavam que Ele Se tornaria um guerreiro, um Rei todo-poderoso. Mas foi morto! E com a Sua morte morreram as suas, as nossas esperanças! Mas afinal, Ele apanhou-nos no caminho, deixou-Se convidar por nós, entrou em nossa casa, sentou-Se à nossa mesa, partilhou o pão connosco. Oferecemos-Lhe o que nos deu, para Ele nos dar o que Lhe oferecemos, o pão de cada dia convertível no Seu Corpo todos os dias até ao fim dos tempos. Foi então que percebemos, foi então que os nossos olhos se abriram! Ele estaria presente no pão partilhado, estará presente no amor dado e na vida gasta a favor dos outros!

Ele não nos faltará, estará connosco até ao fim do mundo, na vastidão de Deus. Os discípulos de Emaús, com a noite a cair, deixam de recear pela vida e saem ao encontro dos outros discípulos, regressam à comunidade! A fração do pão gera comunidade e alarga-a. Não comemos o mesmo pão se não for para sermos o mesmo Corpo! A alegria na partilha do pão, a alegria no anúncio.

 

2 – Jesus descerra portas e janelas e vem colocar-Se no meio dos discípulos, no meio de nós. O medo, o preconceito e a desconfiança isolam-nos, afastam-nos dos outros, mesmo da família. Os discípulos estão fechados com medo dos judeus, sendo também eles judeus! O medo faz-nos voltar ao modo fetal, enrolados sobre nós mesmos, encolhidos, com o corpo a defender-se, com os braços e as pernas firmes a proteger as partes mais sensíveis e vulneráveis, a nossa frente! Jesus liberta-nos da ansiedade, oxigena a nossa mente, ilumina-nos com a Sua presença, devolve-nos a confiança, envia-nos aos irmãos, faz-nos sentir em casa, Ele está no meio de nós, podemos novamente sentar-nos à volta da mesa e comer do mesmo pão, podemos abrir as portas para que outros possam entrar, sentar-se à mesa, partilhar o pão e a vida, sentindo-se em casa, sentindo-se irmãos. Com as portas e janelas abertas, somos enviados a partir à procura de outros que andem perdidos ou distraídos. Sabemos agora que podemos voltar a casa e à mesa, sem o risco de encontrarmos as portas fechadas. O mundo já não é inóspito, os outros não são inimigos, são irmãos.

«A paz esteja convosco». O Ressuscitado traz-nos a paz. Não a minha ou a tua paz, não apenas a paz entre nós, mas a paz derradeira, definitiva, a paz de Jesus Cristo. A reação, contudo, continua a ser de espanto, de medo, de suspeição. Tinham acabado de ouvir os discípulos de Emaús, mas o encontro com Jesus ultrapassa qualquer realidade. Tal como no Evangelho de São João, que escutámos no domingo passado, também o de Lucas sublinha a presença inequívoca de Jesus através das marcas da Paixão: «Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho».

Apanhados "em falso" ficamos ainda renitentes. Jesus prossegue: «Tendes aí alguma coisa para comer?». Com efeito, a refeição aproxima-nos, faz-nos perder o medo, solidariza-nos, fortalece os laços que nos unem. Não nos sentamos à mesa com estranhos e se isso acontece, e nos nossos dias é frequente nos grandes centros comerciais, ou continuamos invisíveis uns aos outros, ou sorrimos e vamos trocando algumas palavras, se isso se proporciona, mais não seja para perguntarmos se aquele assento vazio está ocupado! Começando a comer, os discípulos compreendem que Jesus está com eles, continua no seu meio, continua a congregá-los como irmãos.

 

3 – «Vós sois testemunhas de todas estas coisas».

Jesus relembra o essencial do Seu mistério pascal, mostrando como n'Ele se cumprem as promessas feitas por Deus ao Seu povo. O sofrimento e a morte fazem parte da Sua vida, da Sua entrega a favor da humanidade. Mas não é tudo, como lhes tinha dito, também a ressurreição, que chegará ao terceiro dia, e o consequente anúncio, em Seu Nome, do Evangelho do arrependimento e do perdão dos pecados, a chegar a todos os povos.

Os discípulos presenciaram o viver, o agir de Jesus ao longo de aproximadamente três anos, in loco, acompanhando-O por aldeias, campos e cidades, junto das multidões, mas diante de pessoas concretas, com nome e família. As últimas horas foram as mais penosas. Jesus previra-o e prevenira-os. Ainda assim são surpreendidos pelos acontecimentos. Ninguém está preparado para uma fatalidade! Quantas vezes fomos engolidos pelos acontecimentos apesar de estarmos de sobreaviso?!

O encontro com Jesus Ressuscitado restabelece os laços de amizade que pareciam perdidos com a Sua morte violenta. Agora Ele vive, está no meio, congregando a Igreja, o Seu Corpo, o grupo que antes O seguira, constituído de pessoas perfeitamente "banais", diferentes entre elas, com fraquezas mas abertas aos desafios de Jesus. A debandada foi grande, traição, negação, fuga, dispersão. Mas é com eles que Jesus conta. Eles foram testemunhas de todas aquelas coisas, estão em condições de serem enviados, testemunhando-O em toda a parte.

 

4 – Os Atos dos Apóstolos narram os primeiros tempos da Igreja, a forma como os Apóstolos encontraram Jesus e perceberam que Ele permaneceria no meio deles.

As portas e janelas foram descerradas, há que deitar mãos às obras e prosseguir com o mandato de Jesus e anunciar a Boa Nova a todos, aos de perto e aos de longe.

As palavras de Jesus são decalcadas por Pedro: «O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus, que vós entregastes... pedistes a libertação dum assassino; matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos, e nós somos testemunhas disso. Agora, irmãos, eu sei que agistes por ignorância, como também os vossos chefes. Foi assim que Deus cumpriu o que de antemão tinha anunciado pela boca de todos os Profetas: que o seu Messias havia de padecer. Portanto, arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados».

O intempestivo Pedro anuncia resolutamente a Boa Nova, assume-se, com os outros apóstolos como testemunha de tudo quanto sucedeu a Jesus, glorificado pela morte cruenta, como oferenda, e pela ressurreição, na certeza que o Caminho por Ele iniciado e percorrido nos conduz ao Pai.

Também o Apóstolo São João aviva o mistério da nossa salvação em Jesus Cristo: «Meus filhos, se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o Justo, como advogado junto do Pai. Ele é a vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro. E nós sabemos que O conhecemos, se guardamos os seus mandamentos». Ele salva-nos com a Sua vida e com a Sua morte, com a Sua ressurreição e ascensão aos Céus. A nós cabe-nos (re)conhecê-l'O e amá-l'O, guardando os Seus mandamentos.

 

5 – Como podemos tornar-nos Suas testemunhas? Não estivemos lá com eles, não O acompanhámos, não O vimos a ser arrastado para a morte, não O encontrámos no regresso a casa e à mesa?! Não partilhámos os momentos de festa e de luto, de arrebatamento e de desencanto, de intimidade com Ele ou entre as multidões!

Mas Jesus também morreu por nós! Por mim e por ti! Também voltou à vida por nossa causa! Quer que também nós regressemos a casa, nos sentemos à mesa, no banquete da vida, e saiamos a testemunhá-l'O ao mundo inteiro. Ele faz-nos testemunhas destas coisas, pois Ele faz-Se presente, coloca-Se no nosso meio. Recuemos um pouco, na Última Ceia Jesus instituiu o memorial da Sua morte e da Sua presença. Dá-nos a Sua vida por inteiro, antecipando a Sua presença futura. Encarnou, assumindo a nossa carne humana; deixa-nos os Sacramentos, especialmente o da Eucaristia, dá-nos o Espírito Santo que no-l'O dá transformando o pão e o vinho em Seu Corpo e Sangue. Ele está, Ele permanece, Ele vem para o meio de nós, faz-Se "comestível", comungável, sempre que fizermos o que Ele faz, na celebração e no serviço.

Paulo é um dos santos de Deus que não contactou fisicamente com Jesus, mas, no entanto, deixou-Se encontrar por Ele, deixou-se assimilar pela Sua vida nova, tornando-se o Apóstolo por excelência, indo por todo o lado, vivendo e anunciando Jesus em toda a parte, em todas as ocasiões. E assim multidões de homens e mulheres que, ao longo da história da Igreja, reconheceram Jesus nas suas vidas, na comunidade, deixaram-se assimilar por Ele e tornaram-se testemunhas do Seu amor.

Agora é a nossa vez! Cabe-nos a nós, a mim e a ti, ir por todo o mundo e mostrar como Ele nos ama, como continua no meio de nós, a partilhar a Sua vida connosco, sentado à nossa mesa, a fazer com que nos sintamos em casa!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia: Atos 3, 13-15. 17-19; Sl 4; 1 Jo 2, 1-5a; Lc 24, 35-48.


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