Domingo II do Tempo Comum - ano B - 14 de janeiro de 2018


1 – «Rabi, onde moras?» Pergunta dos discípulos de João Batista que seguem no encalço de Jesus. Resposta pronta do Mestre dos Mestres: «Vinde ver».

Jesus chama-nos mas não nos quer de qualquer maneira, quere-nos de corpo e alma. Aceita o nosso pecado e as nossas limitações, aceita-nos como somos, com as nossas dúvidas e hesitações, com os nossos falhanços e com os nossos esforços, compreende os nossos avanços e recuos, o nosso entusiasmo e o nosso medo, as nossas certezas e o nosso peregrinar por vezes titubeante, mas não nos quer pela rama, quere-nos envolvidos, mergulhados na Sua palavra, procurando, apesar de tudo, fazer o bem. Por conseguinte diz-nos ao que vem. Não faz campanha (eleitoral), não usa muito palavreado nem argumentos para nos levar a aderir à Sua mensagem e a sincronizar com a Sua postura de vida.

Vinde ver! É a Sua resposta! Podia passar umas horas a explicar aos seus futuros discípulos a razão e a importância de O seguirem. Como somos seres miméticos, mais facilmente imitamos comportamentos do que seguimos conselhos, então nada melhor do que ver como Ele vive, como gasta o Seu tempo, como reage às diferentes situações da vida. Daqui pode concluir-se que o apóstolo só o é verdadeiramente se for discípulo, se se mantiver perto do Mestre, pela oração, pela escuta da Palavra, pela imitação da Sua postura: Vai e faz tu também do mesmo modo.

2 – Para seguir Jesus não bastam algumas informações sobre Ele, mas mergulhar a nossa vida na Sua vida. Luminosa, a propósito, a Boneca de Sal, uma fábula de Anthony de Mello.

Era uma boneca feita de sal. O seu maior sonho era ver o mar. Ficava dias e noites embrenhada nos pensamentos, tentando imaginar a imensidão e a beleza do grande oceano, sentindo uma grande nostalgia, a "saudade" de algo que conheceria apesar de tão longínquo: as suas raízes, a sua origem.

Um certo dia, decidiu meter mãos à obra – não podia esperar mais –, e decidiu partir. Foi uma busca árdua, saciando pontualmente a sua sede nas fontes e nos riachos, nos lagos e nos rios. Por fim chegou a um areal, uma praia à beira mar. Como era imenso e apelativo aquele mar! E como era misterioso! Parecia que a água salgada e o mar já a habitavam por dentro. Ali ficou, perdida em contemplação, e foi dialogando com o mar: Diz-me, quem és tu?

– Sou o mar.

– Mas o que é o mar?

– Sou eu!

– Explica-me melhor, por favor! Deixa-me perceber, deixa-me conhecer-te...

– É simples: toca-me.

A boneca, extasiada, mas um pouco a medo, avançou e deixou que os seus pequenos pés fossem acariciados pela areia, pela água, pela espuma esbranquiçada. Um pouco mais afoita, mergulhou os seus pés, em pleno, na água que a convidava. E – surpresa! – pareceu-lhe que começava mesmo a compreender qualquer coisa... Quando, porém, pôs os olhos no chão, apercebeu-se, assustada, que os seus pés haviam desaparecido. Protestou aflita: Oh! Que fizeste tu? Onde estão os meus pés?

O mar replicou: Porque choras? Apenas foi necessário ofereceres alguma coisa, um pouco de ti própria, para poderes compreender...

A boneca refletiu e serenou. Entendia um pouco mais. Então, decidida avançou. A água começou lentamente a cobrir partes do seu corpo que dolorosamente se desvaneciam. A cada passo que dava, a menina perdia algum pedaço. Contudo, quanto mais avançava, mais e mais profundamente compreendia, apesar de ainda não ser capaz de dizer o que era o mar.

Uma outra vez inquiriu: O que é o mar?

Uma última onda arrebatou o que restava dela. E, precisamente, naquele derradeiro momento em que desaparecia na imensidão do mar, a boneca exclamou: Sou eu!

 

3 – Depois do batismo, Jesus deixa a Sua vida reservada e discreta e passa a anunciar às claras o Reino de Deus, a Boa Nova da presença de Deus no meio de nós. O Evangelho que hoje nos é proposto aponta, através de João Batista, para Jesus: «Eis o Cordeiro de Deus».

Ouvindo João, os seus discípulos, seguem agora Jesus. Timidamente, perguntam-Lhe: onde moras? Jesus não se demora numa explicação, mas faz-lhes uma proposta: vinde ver. Eles foram e ficaram com Ele nesse dia. Conhecer Jesus implica habitar com Ele e deixar-se habitar por Ele, deixar que os Seus pensamentos, as Suas palavras e os Seus gestos se agarrem aos seus corpos, às suas mentes, aos seus corações, à sua vida. E à nossa vida.

O encontro com Jesus desencadeia a missão. André era um dos dois discípulos que seguiu Jesus e logo se põe em marcha, anuncia ao seu irmão Simão o encontro com o Messias e leva-o a Jesus. Também aqui não basta a informação por interposta pessoa, é essencial o encontro com Jesus e o deixar-se fitar pelo Seu olhar, como fez com Pedro, dizendo-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas». Chamamento, vocação, seguimento. O chamamento não é para umas férias em casa de Jesus, mas é para entranhar a vida na Sua vida para depois O testemunhar e transparecer.

 

4 – Diz-me onde moras Rabi? Esta questão é recolocada pela Irmã Maria Amélia da Costa numa belíssima canção sobre a qual vale a pena debruçar-nos. Diz-me onde moras Rabi, ando à procura de Ti, ando à procura da luz! Onde mora, qual a Sua casa? Onde O poderemos encontrar? Vejamos, na da musicalidade deste cântico, a morada de Jesus:

«Minha casa pode ser a tua casa. Minha casa tem o nome do irmão. Minha casa é tão perto podes ver. Minha casa pode ser teu coração. / Minha casa é o templo é o mundo. Minha casa é também a tua rua. Minha casa não tem número nem lugar. Minha casa fica ao lado da tua. / Minha casa é o templo onde rezas. Minha casa é o mundo, a criação. Minha casa é a terra, é o céu. Minha casa vai ser feita de perdão. / Minha casa não tem número nem lugar. Tu me encontras onde há libertação. Minha casa tem o nome do Amor. Minha casa tem o rosto do irmão. / Minha casa se descobre ao caminhar. Minha casa é um caminho a seguir. Minha casa pode ser qualquer lugar. Minha casa é uma casa a construir».

Onde houver uma pessoa, podemos encontrar Jesus e saber que Ele mora sobretudo nos mais pequenos, nos mais frágeis, nos mais pobres. Estamos a caminho, a construir uma casa onde todos se sintam filhos de Deus, onde todos se possam sentir irmãos em Jesus Cristo.

 

5 – Antes de sermos apóstolos, somos discípulos e sempre seremos discípulos missionários. O Evangelho clarifica a primazia do encontro com Jesus e da vida cúmplice com Ele. Aqueles primeiros discípulos estão à escuta, de João Batista, que lhes indica o Messias. Depois é preciso a persistência de caminhar com Jesus, de viver com Ele, de permanecer junto d'Ele.

Samuel ouve a voz de Deus! Uma e outra vez! Mas precisa que Heli o ajude a descobrir, a discernir a voz que há de seguir! Serve para nós também! Não estamos sós. Deus chama-nos, mas também através de outros, na Igreja, em comunidade. Há que fazer o discernimento, para não seguirmos a nossa voz, mas a de Deus. Na dúvida, recorramos aos que caminham connosco e rezemos conjuntamente.

Nãos basta, pois, saber que Deus nos chama. Importa escutá-l'O e segui-l'O, como Samuel: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta». Samuel antecipa a vocação de Jesus e a Sua docilidade à voz do Pai. O autor diz que Samuel "foi crescendo; o Senhor estava com ele e nenhuma das suas palavras deixou de cumprir-se".

 

6 – Jesus vem salvar-nos por inteiro. Assume a nossa humanidade. Vive como Pessoa; com a Sua corporeidade liga-se a nós e entra em comunhão connosco. Só se salva o que se assume. Jesus vem viver como um de nós, para aprendermos a viver como Ele, ao Seu jeito: amar servindo, servir amando.

Como a "Boneca de Sal" não podemos ficar apenas pela rama, pela informação, pela maquilhagem, pelo exterior, é incontornável que mergulhemos na Sua vida, nos identifiquemos com o Seu amor, nos sintonizemos com a Sua misericórdia. Alma, corpo e espírito. Seja Ele a viver em nós, a amar através de nós, a servir com as nossas mãos, a cuidar dos outros com o nosso corpo por inteiro.

O que nos separa fisicamente dos outros e do mundo, também nos permite a comunhão e a proximidade, não é uma carcaça que aprisiona a alma, mas é templo, é casa de Deus, templo do Espírito Santo. Daí as recomendações de São Paulo: «O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós e vos foi dado por Deus? Não pertenceis a vós mesmos, porque fostes resgatados por grande preço: glorificai a Deus no vosso corpo».

A religião não é meramente espiritual, abstrata, desligada da vida, da matéria! Jesus encarnou, assumiu um corpo, deu o Seu corpo, deu a Sua vida por nós. Formou um Corpo que é a Igreja, sendo Ele a Cabeça e nós os membros. Inserimo-nos no Corpo de Cristo enquanto Pessoas. Se fôssemos anjos estaríamos na eternidade, como pessoas fazemos do tempo e do mundo a casa onde nos deixamos plasmar pela graça de Deus, no cuidado às pessoas que Ele nos confia.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): 1 Sam 3, 3b-10. 19; Sl 39 (40); 1 Cor 6, 13c-15a. 17-20; Jo 1, 35-42.


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