Domingo II do Advento - ano C - 9 de dezembro de 2018


1 – A história e a vida avançam com grandes acontecimentos, revoluções, calamidades, mas, também com as pequenas coisas. A mentalidade leva gerações a modificar-se. Nos nossos dias tudo corre veloz e também a mentalidade das pessoas e dos povos parece alterar-se rapidamente, não havendo nem tempo nem lugar para mastigar o tempo presente, os acontecimentos do dia, a vida das pequenas coisas, saborear uma refeição, a paisagem que nos rodeia, uma conversa tranquila com um amigo. Pressa, pressa. O tempo não pára. Não podemos ficar parados. Temos muito que fazer, muitas preocupações a atender. A vida continua.

Por outro lado, bem vistas as coisas, todos valorizamos um sorriso, uma palavra doce, uma carícia, um abraço, um pôr-do-sol, um café quentinho, o desgostar da amizade. Por outras palavras, a vida não é branco ou preto, também é cinzento, azul, amarelo, vermelho. A vida tem muitos tons e dentro dos tons e do colorido, diferentes matizes que fazem com que a vida concreta e real de cada um conte. Para o próprio, para os outros, os que estão próximos ou pelo menos, por perto, para o mundo, pois este será melhor ou pior em conformidade com o nosso contributo ou com a nossa demissão ou alheamento.

Grandes ou pequenos, os acontecimentos têm rostos, têm pessoas que dão a cara e o corpo e enformam revoluções, avanços, ruturas, que fazem o mundo girar, nem sempre como desejaríamos, nem sempre como desejável para todos. O mistério maior da nossa fé é a Páscoa, mas até lá chegarmos há que contemplar o mistério da Encarnação, Deus que Se faz um de nós e no Menino Deus nos revela o Seu amor. Antes do Natal, o Advento e antes de Jesus, o Precursor, mas também os profetas, São José, a Virgem Maria. Ainda que o centro seja Jesus, no Seu mistério pascal, há outras personagens que fazem avançar a história e nos preparam para o que há de vir. João Batista antecipa o tempo do Messias, desafiando-nos a preparar o caminho do Senhor, melhor, a preparar-nos para acolher Jesus.

 

2 – O Evangelho informa-nos sobre o tempo, o lugar e as circunstâncias que nos permitem situar espacial e temporalmente Jesus. Logo podemos concluir que Jesus, o Filho de Deus vivo, encarna na história e no tempo. Não é um fantasma, um espírito, um extraterrestre, mas, como todos nós, está sujeito às coordenadas do espaço e do tempo.

E se Jesus está no mundo, na história, no tempo, também aqueles que Lhe são referidos embarcam na mesma história temporal e finita. No 15.º ano do reinado o imperador Tibério, sendo Governador na Judeia Pôncio Pilatos, "Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Itureia e Traconítide e Lisânias tetrarca de Abilene, no pontificado de Anás e Caifás". Ficamos assim por dentro do contexto e do tempo em que a Palavra de Deus é dirigida a João, filho de Zacarias, nas imediações de Israel, no deserto, sabendo-se desde logo que o deserto é desafio a lançar a semente, para que dê lugar à vida e vida em abundância.

Acolhida a mensagem de Deus, João Batista percorre toda região do Jordão, pregando um batismo de penitência para a remissão dos pecados, segundo o oráculo do Profeta Isaías: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas; e toda a criatura verá a salvação de Deus’».

A mensagem é clara: é necessário preparar os caminhos do Senhor. Ele está a chegar. Como nos encontrará? Vigilantes? Com a casa num primor? Com as ruas da nossa vida, do nosso coração, suaves, atapetadas de flores, de pétalas? Talvez valha a pena rezar uma e outra vez: «Concedei, Deus omnipotente e misericordioso, que os cuidados deste mundo não sejam obstáculo para caminharmos generosamente ao encontro de Cristo, mas que a sabedoria do alto nos leve a participar no esplendor da sua glória».

A espera é (sempre) ativa, leva-nos a arregaçar as mangas e a deitar mãos às obras. Como nos sublinhou por estes dias o Papa, as obras de misericórdia são sempre concretas e a fé passa pela concretude no cuidado aos irmãos.

 

3 – Na primeira Leitura, da profecia de Baruc, o mesmo convite que escutámos a João Batista, fazendo-nos tomar consciência da salvação que nos chega da parte de Deus. A certeza da Sua vinda é motivo de alegria, de júbilo. É uma espera confiante, pois o próprio Deus garante que virá. É tempo de largar a vida de pecado, de trevas e de morte, para acolher a santidade de Deus, a Sua misericórdia e o Seu perdão, e a Vida Nova que nos traz.

Eis o grito do Profeta a Jerusalém: «Deixa a tua veste de luto e aflição e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus. Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e coloca sobre a cabeça o diadema da glória do Eterno... Levanta-te, Jerusalém, sobe ao alto e olha para o Oriente: vê os teus filhos reunidos desde o Poente ao Nascente, por ordem do Deus Santo, felizes por Deus Se ter lembrado deles. Tinham-te deixado, caminhando a pé, levados pelos inimigos; mas agora é Deus que os reconduz a ti, trazidos em triunfo, como filhos de reis. Deus decidiu abater todos os altos montes e as colinas seculares e encher os vales, para se aplanar a terra, a fim de que Israel possa caminhar em segurança, na glória de Deus. Também os bosques e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel, por ordem de Deus, porque Deus conduzirá Israel na alegria, à luz da sua glória, com a misericórdia e a justiça que d’Ele procedem».

O próprio Deus virá. Se em Isaías e João Batista somos desafiados a aplanar os caminhos do Senhor, em Baruc é o próprio Deus que virá abater os montes e encher os vales, para que possamos caminhar em segurança. Fomos levados pelos inimigos, mas regressamos conduzidos por Deus e tudo se conjugará harmoniosamente para bebermos da glória de Deus.

 

4 – O sonho de Deus é fazer-nos regressar a casa. A Casa é onde nos encontramos como irmãos, em família, como amigos, próximos atentos, serviçais, procurando que cada um se sinta confortável, se sinta em casa. Deus faz-nos regressar. Melhor, Ele vem ser a nossa Casa, vem habitar connosco, habitar connosco. O Verbo Se fez carne e habitou entre nós.

O Salmo expressa bem o desejo do povo e o sonho de Deus que há de realizar-se, chegada a plenitude dos tempos. «Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião, parecia-nos viver um sonho. Da nossa boca brotavam expressões de alegria e de nossos lábios cânticos de júbilo».

A experiência do exílio é também experiência de luto, de tristeza, de distanciamento em relação a Deus. Não que Deus quebrasse a Sua aliança com o Povo, mas o Povo renunciou, a começar nas lideranças, escolhendo afastar-se de Deus e dos Seus mandamentos. A alegria voltou e até os pagãos, os estrangeiros reconhecem as maravilhas que Deus faz a favor do Seu povo. «Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor, estamos exultantes de alegria». O pedido a Deus é uma certeza que se apoia nas Suas promessas: «Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos, como as torrentes do deserto. Os que semeiam em lágrimas recolhem com alegria. À ida, vão a chorar, levando as sementes; à volta, vêm a cantar, trazendo os molhos de espigas».

 

5 – Na Segunda Leitura, da Carta de São Paulo aos Filipenses, o Apóstolo evoca a oração que faz a Deus, a alegria com que Lhe agradece por todo o bem que operou no anúncio do Evangelho, no qual os filipenses também tomaram parte.

«Tenho plena confiança de que Aquele que começou em vós tão boa obra há-de levá-la a bom termo até ao dia de Cristo Jesus». O Apóstolo nunca se esquece que a obra não é sua, mas de Deus, de Jesus Cristo, que realiza tudo em todos. E, por conseguinte, confia os filipenses a Deus, na oração, testemunhando também o seu afeto por esta comunidade: «Deus é testemunha de que vos amo a todos no coração de Cristo Jesus. Por isso Lhe peço que a vossa caridade cresça cada vez mais em ciência e discernimento, para que possais distinguir o que é melhor e vos torneis puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo, na plenitude dos frutos de justiça que se obtêm por Jesus Cristo, para louvor e glória de Deus».

As recomendações do Apóstolo, baseadas na confiança em Deus e no empenho das comunidades, leva a desafiar a fazer cada vez melhor, não por capricho, mas para louvor e glória de Deus. É que quanto mais em Deus, mais a ligação aos outros será honesta e generosa.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Bar 5, 1-9; Sl 125 (126); Filip 1, 4-6. 8-11; Lc 3, 1-6


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