Domingo II de Páscoa - ano C - 28 de abril de 2019


1 – "Deus de eterna misericórdia, que reanimais a fé do vosso povo na celebração anual das festas pascais, aumentai em nós os dons da vossa graça, para compreendermos melhor as riquezas inesgotáveis do Batismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos renovados e do Sangue com que fomos redimidos".

A ressurreição de Jesus traz-nos a vastidão do Céu (expressão de Bento XVI). Com a Páscoa são quebradas as distâncias entre o Céu e a terra, somos submergidos no mistério de Deus. Jesus é o único Mediador entre Deus e os homens. Encarna. Faz-Se um de nós. Mistura-Se na humanidade. Caminha. Vive. É morto. Deus Pai responde à fidelidade do Filho ressuscitando-O. Jesus regressa a Casa. Vou preparar-vos um lugar, para que onde Eu estou vós estejais também. Em casa de Meu Pai há muitas moradas. Mas este regresso à casa paterna é também regresso ao mundo dos vivos, ao nosso mundo. Ele vem. Coloca-Se no meio de nós. No primeiro dia da nova criação, o Domingo (= Dia do Senhor = Dies Domini), Jesus encontra-nos, aparece-nos, mas precisamos de ver os sinais, de sentir a Sua presença, de descobrir os lugares onde Ele nos encontra e como O mostrarmos aos outros.

Não há portas que impeçam a entrada de Jesus. O medo pode ser empecilho, mas Jesus vem procurar-nos. Depois da Sua morte, a desilusão foi arrasadora. Cabisbaixos, os apóstolos regressaram a casa, para chorarem a morte do Mestre e com medo que lhes aconteça o mesmo. Prepararam-se para voltar aos seus afazeres anteriores. Jesus mantinha a unidade, a Igreja em gérmen. Jesus tinha-os preparado, mas a morte é sempre inesperada, surpreendente. Ninguém está (totalmente) preparado para enfrentar a morte de um familiar, de um amigo íntimo. Jesus é o elo forte, firme, que mantinha o grupo unido, ainda que Judas tenha desertado. No alto da Cruz, Jesus convida-nos a receber Maria por Mãe, fazendo-nos perceber, dessa forma, que a Mãe preserva a memória do Filho, em todas ocasiões, também na morte e pode tornar-se a lembrança viva do Filho, não O substituindo, mas recordando-nos que precisamos de O aguardar!

 

2 – Na tarde daquele primeiro dia, Jesus surpreende o medo dos discípulos e apresenta-Se-lhes com a mesma saudação que antes: a paz esteja convosco! Mostra-lhes as mãos e o lado. É difícil abarcar esta surpresa e, por conseguinte, Jesus de imediato lhes garante que é o Mesmo que antes, agora transfigurado. Há situações em que não nos reconhecemos! Ou não reconhecemos os outros! – Não sei, hoje estás diferente, tens o olhar brilhante, nem pareces tu, que aconteceu? –. O olhar de Jesus está cheio de vida, cheio de luz, volta com o mundo todo, com todo o Amor, com o Céu e a Terra.

A saudação dá lugar ao envio. Segundo a versão joanina do Evangelho, logo a dádiva do Espírito Santo que os acompanhará na missão: «Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Desde a primeira hora, Jesus chamou os discípulos, preparando-os para o envio. Vinde a Mim. Ide, sem bolsa nem alforge. Vamos a outros lugares anunciar o Evangelho. Foi para isso que Eu vim. Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio. Ide anunciai o Evangelho a toda a criatura.

 

3 – Um acontecimento novo, inesperado, extraordinário deixa-nos, quase sempre, sem reação. Pelo menos, num primeiro momento. A Páscoa de Jesus é um acontecimento que ultrapassa a história e o tempo, a biologia e a racionalidade (abstrata). É um acontecimento inaudito! Ninguém esperaria, apesar das promessas, dos anúncios, dos prodígios extraordinários que Jesus foi operando durante a Sua vida.

A morte é morte para toda a gente. A possibilidade de sobreviver à morte física e entrar numa dimensão sobrenatural, divina, definitiva, ressuscitando, faz parte da fé judaica. Como não lembrar a resposta de Marta a Jesus: «Eu sei que ele há de ressuscitar na ressurreição do último dia» (Jo 11, 24). Fé na ressurreição final para os justos. Voltar à vida neste mundo já era uma categoria que não tinha cabimento. Mas tem, pois, Lázaro volta à vida pela intervenção de Jesus. No entanto, mais que ressurreição é "reanimação", pois Lázaro, como qualquer mortal, há de morrer.

A ressurreição de Jesus, ao terceiro dia, é definitiva, diferente, gloriosa. Ele que já não era deste mundo, vem novamente ao nosso encontro, no nosso mundo e na nossa história. Coloca-Se no meio. Não é um fantasma. Os Apóstolos ficam incrédulos e, mesmo vendo as mãos e o lado, paralisam diante de Jesus que os desperta pelas palavras que tantas vezes lhes dirigiu. Não admira que Tomé tenha dificuldade em crer na ressurreição de Jesus. Ele não estava na comunidade. Ouviu o que disseram os companheiros, mas estes viram Jesus, viram o lado e as mãos, confrontaram a mensagem pré e pós pascal. Tomé coloca-se no mesmo patamar: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei».

Oito dias depois, no segundo domingo da nova criação, Jesus apresenta-Se novamente no meio deles, estando as portas da casa fechadas, e saúda-os: «A paz esteja convosco», dizendo então a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». A profissão de fé de Tomé diz tudo: «Meu Senhor e meu Deus!».

 

4 –Tomé significa gémeo, portanto, nosso irmão gémeo nas dúvidas, nos questionamentos, para que sejamos seus irmãos gémeos na profissão de fé. A ele e nós Jesus diz inequivocamente: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto».

Há alguns dados que importa sublinhar tais como a experiência pessoal de encontro com Jesus e a inserção na comunidade crente. Não se compreende uma dimensão sem a outra. Para que a nossa fé seja firme e esclarecida não basta o que ouvimos dizer aos outros, ainda que o seu testemunho nos prepare e nos aproxime de Jesus. É inevitável que façamos a experiência de encontro com Jesus. Como Paulo a quem Jesus apareceu. E aqui não há receitas. A oração. A escuta atenta da Palavra de Deus e a sua meditação. O bem que nos aproxima dos outros! Cada um faz um caminho próprio cuja primeira condição é um coração disponível para se deixar surpreender por Jesus.

A fé é esclarecida no contexto da comunidade. Quando prosseguimos sozinhos, por mais certezas que tenhamos, podemos estar a caminhar para o abismo. A comunidade é um referencial. Em certas ocasiões pode ser um obstáculo, mas cabe-nos contribuir com a nossa fé para ajudar os outros a caminhar. Como tantas vezes nos tem relembrado o Papa Francisco: juntos, caminhemos juntos, vamos adiante!

O ver para crer continua a ser válido também hoje, para ti e para mim. Mas, no dizer do Antoine Exupéry, no Principezinho, ver com o coração. E, por conseguinte, vemos como Jesus diz aos discípulos vede as minhas mãos e o meu lado. Não lhes diz: vede o meu rosto. Isto mesmo nos lembrou D. António Couto no início da Visita Pastoral a Pinheiros. O encontro com Jesus terá de ser pelo amor e pelo bem que as nossas mãos forem capazes de fazer, abençoando, ajudando, amando, cuidando, servindo.

 

5 – O encontro com Jesus ressuscitado, visível nas marcas da Paixão por nós, compromete-nos, com júbilo, a comunicá-l'O aos outros, para que possam interrogar-se, encontrá-l'O e segui-l'O, na certeza que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.

A alegria do encontro, gera missionários. Não há, como muitas vezes dizemos e ouvimos, discípulos que não sejam missionários. Claro que também não há missionários autênticos, honestos, se não se mantiverem como discípulos, seguidores e servidores de Jesus. Pedro, e os outros apóstolos, vão operando milagres e prodígios, anunciam Jesus e há cada vez mais pessoas a converterem-se.

 

6 – Cedo verificaremos que a vida não é linear. As dificuldades hão de surgir. Afinal somos limitados, finitos, frágeis. Porém, por mais obstáculos, quedas, empecilhos, tropeços que enfrentemos, a certeza: Ele guia-nos e prossegue connosco. «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-Me vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e da morada dos mortos». Vamos adiante, com alegria e confiança. O Senhor não nos desamparará.

 

7 – Por vontade e decisão de São João Paulo II este segundo Domingo de Páscoa é também Domingo da Divina Misericórdia, vincando o carinho com que Deus nos ama, visível e plenizado no mistério pascal de Jesus, que Se entrega até ao fim e cujo o fim (natural, biológico, temporal) é ponte para o encontro definitivo com a eternidade, com o Pai.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano C): Atos 5, 12-16; Sl 117 (118); Ap 1, 9-11a. 12-13. 17-19; Jo 20, 19-31.


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