Domingo II da Quaresma - ano C - 17 de março de 2019


1 – Do deserto para a montanha. No deserto, com Jesus. Como Jesus. Sem seguranças humanas, nem conforto, nem companhia. Sobreveio a tentação, a dúvida, a fome e a sede, e a vontade de colocar o mundo a nossos pés, usando todos os meios, o milagre e a religião, e numa atitude de sobranceria e egoísmo, colocarmos os outros ao nosso serviço, optando pelos caminhos mais fáceis, sem critérios de moralidade!

Com Jesus e como Jesus aprendemos a responder à tentação com a Palavra de Deus, inspirando-nos, uma vez mais, no Espírito de Sabedoria, sabendo que outros momentos de hesitação, de tentação e desencontro podem acontecer, no deserto ou na cidade, quando sós ou em família, na Igreja ou no mundo.

Liturgicamente, um domingo a seguir ao outro, o deserto conduz-nos à montanha. Porém, a transfiguração surge já a meio da vida pública de Jesus, logo depois de anunciar aos discípulos a Sua morte e ressurreição. Mas, tal como o deserto, também a montanha nos aproxima de Deus, torna-nos (simbolicamente) mais perto do Céu. No deserto, a aridez, o inóspito; na montanha, a beleza e a pureza do ambiente que nos circunda. No deserto, tempo para falar com Deus. Na montanha, tempo para Deus nos falar, pela criação. Numa e noutra situação, somos impelidos à confiança, a colocar-nos nas mãos de Deus, a perceber a Sua presença nos momentos nublosos e nos momentos luminosos, a procurarmos nas Suas Palavras respostas para as nossas inquietações, e nessas respostas a encontrarmos desafios para não desistirmos nem de procurar, nem de lutar contra o mal, nem de nos comprometermos uns com os outros.

 

2 – Quando as coisas não nos correm tão bem, em jeito de desabafo e/ou de resignação, dizemos que todos têm dias bons e dias maus, há dias de sol e dias de chuva, nem sempre as coisas correm como desejaríamos, dias melhores virão.

Por vezes basta um vislumbre, uma centelha de luz ou uma pequena chama, um pouco de esperança, para seguirmos adiante. Com efeito, lá diz a sabedoria popular, morremos não quando o coração para, mas quando deixamos de ter esperança! Uma bolacha para enganar o estômago enquanto esperamos pelo almoço, mas que também nos alimenta…

O caminho com Jesus tem altos e baixos. Nem sempre as coisas correm como expectável, pelo menos do ponto de vista dos amigos mais chegados, os seus discípulos. Umas vezes cercados pelas multidões e acarinhados, aplaudidos, com pessoas esfomeadas das palavras do Mestre. A simpatia com Jesus, absorve-os também a eles. Noutros momentos, e sobretudo à medida que o tempo passa, começam as armadilhas, as questões colocadas a Jesus, as insinuações por parte de fariseus, doutores da Lei e outros mais interessados em manter o estatuto social que em defender a justiça e a verdade. Por vezes a abundância, sendo convidados para alguma refeição mais farta, outras vezes, a escassez sujeitando-se a apanhar as espigas para enganar a fome.

O próprio Jesus não os deixa deslumbrar com os sucessos. O filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus e vai ser morto. Mas também não os deixa cair em desânimo. Três dias depois ressuscitará. O caminho é caminho, mas não é o final. Na transfiguração, Jesus mostra-lhes o final, ou melhor, um vislumbre da eternidade de Deus.

 

3 – O denominador comum continua a ser a oração. Jesus sobe ao monte para orar. Mas desta feita faz-Se acompanhar por Pedro, Tiago e João (e quem sabe, talvez Judas, que depois da traição, viria a ser "apagado" da proximidade a Jesus!).

O milagre (de Deus) surpreende-nos e ultrapassa a nossa compreensão humana. Insere-se e insere-nos na dimensão sobrenatural. A oração universaliza o nosso coração, para o alto e levando-nos a abarcar a humanidade inteira. Neste caso específico, é no decorrer da oração que ocorre a "transformação", a transfiguração de Jesus. O Seu rosto alterou-Se e as Suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. É na oração que podemos acolher Deus e o Seu mistério de amor e de proximidade. A conversar com Jesus, Moisés e Elias. A humanidade do passado, e que vive em Deus, torna-se nossa família na oração. Tudo desemboca em Jesus, de Jesus tudo há de partir. A nossa vida e os nossos propósitos, em todo o tempo.

O milagre não é desvendável, ainda que necessitemos de refletir acerca dele, mas com o intuito de acolher, de nos deixarmos deslumbrar e envolver. Pedro representa-nos: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Quando estamos bem, num lugar em que nos sentimos em casa, junto de pessoas que nos querem e a quem queremos bem, não se dá conta do tempo passar. O tempo já não existe, existe o momento, a presença, a alegria, a luz, a paz. É um vislumbre da eternidade. Quereríamos que o tempo cristalizasse, tornando-se eterno. Quereríamos permanecer e que nada se alterasse. Mas ainda não é o fim, é um vislumbre. Há que colocar os pés no chão e voltar à cidade, ao convívio dos homens e das mulheres do nosso tempo. Somos peregrinos, estamos sujeitos à fragilidade e desgaste do tempo.

A transfiguração mostra-nos a Páscoa, a eternidade, mas porquanto caminhamos em quaresma, tendo que lidar com os contratempos e adversidades. Mas a lembrança que "estivemos" no Céu faz-nos caminhar sem desfalecer, por maiores que sejam os obstáculos.

 

4 – Na primeira leitura, Abraão escuta a voz de Deus e deixa-se conduzir por Ele. Chamado, não hesita em partir para outra terra, para outra pátria. De algum modo, a nossa pátria é o lugar em que nos sentimos bem, o lugar para onde Deus nos chama e/ou para onde nos envia.

Diante de Deus, Abraão experimenta um turbilhão de emoções e de sentimentos. O mistério surpreende-o. O medo e a incerteza. Na oração, em diálogo com Deus, Abraão adentra-se no mistério divino. Como sei que assim sucederá? A pergunta de Abraão como que antecipa a de Maria ao Anjo quando este lhe revela que será Mãe do Filho do Deus Altíssimo.

Deus desafia Abraão a acreditar, a confiar. «Eu sou o Senhor que te mandou sair de Ur dos caldeus, para te dar a posse desta terra». Multiplicarei a tua descendência! Deus faz-lhe ver o Seu poder. A sua oferenda é queimada pelo fogo que vem do alto! É, então, que Deus estabelece a Sua aliança com Abraão. Deus toma a iniciativa, vem ao nosso encontro, cabe-nos acolher ou recusar o Seu amor.

 

5 – «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». É o final da oração que envolve Jesus e os seus discípulos. A oração aproxima-nos de Deus, faz-nos escutar a Sua voz, uma e outra vez. A Palavra que devemos escutar, o mandato divino, é o Filho de Deus, Palavra encarnada na história e na nossa vida.

É certo que os afazeres da vida, as distrações, a preguiça, as nossas birrices, podem afastar-nos da Palavra de Deus, podem fazer com que a Palavra seja inaudível em nós. A oração é a resposta. Diálogo de Abraão com Deus. Diálogo de Jesus com o Pai, no deserto e na montanha, procurando que o Espírito Santo O preencha por completo. A oração, como sempre, aproxima-nos de Deus, universaliza o nosso coração, compromete-nos com o que pedimos. «Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória».

O salmo, com que respondemos à Palavra de Deus, faz-nos reconhecer que Deus é a nossa luz e a nossa salvação, o nosso protetor. E, ao escutarmos o nosso coração, a mesma interpelação do Evangelho: «Procurai a sua face».

 

6 – O caminho faz-se caminhando. Abraão saiu da sua terra e foi para onde Deus o enviou. Os discípulos, seguindo Jesus, desceram da montanha, da paz e da luz, para levarem paz e luz aos irmãos; experimentando a glória de Deus, descem para arrastar outros para essa glória.

A interpelação de São Paulo surge neste seguimento. "Sede meus imitadores e ponde os olhos naqueles que procedem segundo o modelo que tendes em nós. Porque há muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo... A nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo. Permanecei firmes no Senhor".

Também o Apóstolo tem consciência da glória do Senhor e da Pátria para onde todos nos encaminhamos, mas é na história, no dia a dia, que testamos a nossa fé e pomos em prática os ensinamentos de Jesus, fazendo com que a Palavra encarne em nós e no mundo que nos rodeia.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Gen 15, 5-12. 17-18; Sl 26 (27); Filip 3, 17 – 4, 1; Lc 9, 28b-36.


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