Domingo I do Advento- ano B - 3 de dezembro de 2017


1 – A vida é mais circular que linear, avançando sempre, mais e mais. A vida é mais em espiral e não tanto em linha reta. O que somos hoje enraíza-se e entrelaça-se no que fomos ontem, ainda que o decisivo sejam as opções que vamos assumindo.

Iniciamos um novo ano litúrgico com o 1.º Domingo do Advento. A palavra-chave – VIGIAI – esteve presente nos últimos dias do ano litúrgico que finalizou. A nossa vida, podemos então dizer, é como uma bola de neve, vamos acrescentando sempre coisas novas, algumas deixamos pelo caminho, alisando e compactando a bola. Permanece sempre alguma coisa, talvez o essencial. Por vezes, nós excluímos o que entendemos ser-nos prejudicial, outras vezes não temos força para deitar fora o que nos faz sofrer e, por vezes, é bom que o que nos faz sofrer esteja presente como memória, como desafio, como gratidão. Algumas vezes colocam-se à bola de neve – a nós – os desperdícios dos outros, outras vezes o caminho percorrido atrai e cola detritos inúteis. A acumulação de situações, momentos, alegrias, sofrimentos, tornam a bola maior, mas não necessariamente mais pesada. Uma bola de neve pode ficar descompensada, desequilibrada, torta ou bastante perto de ser redondinha.

 

2 – «Acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento». A vigilância não é uma atitude passiva, indiferente aos tempos e aos momentos. Exige de nós, compromete-nos, faz-nos arregaçar as mangas e deitar mãos à obra. É sempre uma espera pró ativa, paciente e diligente, que procura antecipar os imponderáveis da vida, ainda que a vida continue a ser um mistério que se desvela e simultaneamente se esconde.

Voltemos à imagem da bola de neve. Como todos os exemplos, também este encontra limitações. Por um lado, tal como a bola da neve também a leveza da nossa vida depende de circunstâncias interiores e exteriores. Mas como a bola de neve não tem consciência nem vontade própria fica mais vulnerável e dependente dos declives do terreno por onde resvala. Claro que o seu tamanho e a sua forma, mais redonda ou achatada, tem influência no progresso, podendo parar porque o terreno é mais plano ou porque encontra um obstáculo maior que a sua energia cinética. Pode encontrar grandes obstáculos e superá-los por um declive mais acentuado do terreno ou pela consistência e tamanho que a fazem ultrapassar os obstáculos, resvalando e contornando ou passando por cima deles.

Como temos vida interior e consciência do que somos, temos vontade e capacidade de discernir, de decidir e noção das nossas capacidades e limitações, já não somos simplesmente bolas de neve que se deixam deslizar pela vida sem qualquer intervenção ativa, como se fôramos autómatos ou meros espetadores do que se desenrola à nossa volta. Não. Nem pensar. Deus chama-nos à vida e confia-nos o mundo inteiro, confia-nos a vida e sobretudo a vida humana. Guiamos a bola de neve a partir do interior ainda que estejamos sujeitos à temperatura exterior, à consistência da neve e do entulho que vamos acumulando, ao declive do terreno e da vida! Sim, mas como a bola de neve também podemos confiar-nos a Deus, confiar-lhe de coração a nossa vida e deixarmo-nos guiar por Ele, pela Sua mão, pela Sua vontade. Não é deixarmos tudo à sorte, é agirmos procurando que em tudo se realizem os desígnios amorosos de Deus.

 

3 – Temos presente as parábolas que escutámos nos domingos anteriores: dos talentos (Mt 25, 14-30) e das 10 virgens que acompanharão o esposo até ao banquete (Mt 25, 1-13). Aí está o entrelaçamento entre o final do ano litúrgico e o início deste novo ano. O reino de Deus é comparável a um nobre que partiu em viagem para ser coroado como rei e confiou os seus bens aos servos. Numa e noutra parábola a espera não é passiva, de quem cruza os braços aguardando que a vida aconteça. Na Parábola das virgens, 5 delas prepararam-se, preveniram-se com azeite nas lamparinas e nas almotolias. Na Parábola dos talentos, alguns multiplicaram o que lhes tinha sido confiado.

A parábola de hoje pode inscrever-se nesta dinâmica pró ativa. «Um homem partiu de viagem... e deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse».

Deus não parte de viagem, permanece sempre perto de nós. Todavia, dá-nos plenos poderes para administrarmos o mundo. Cada um com os seus dons e talentos. Um dia este Senhor há de chegar para nos pedir contas dos nossos irmãos, sobretudo o cuidado que prestamos aos mais pequeninos (Mt 25, 31-46), como escutámos na solenidade de Cristo Rei. Não sabemos o dia nem a hora em que virá o dono da casa: «se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha». E se vier e nos encontrar a dormir? Poderá chegar inesperadamente. Jesus coloca-nos de sobreaviso: «O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!».

Este é também o desafio da primeira oração da Eucaristia: «Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo, de modo que, chamados um dia à sua direita, mereçam alcançar o reino dos Céus». Uma espera que se concretizará na prática do bem.

 

4 – Esta sintonia faz-se ver na primeira leitura e no salmo. Deus acredita em mim, acredita em ti. Confia em ti e confia em mim. Deposita nas nossas mãos a Sua bela e amável criação, sem exigências que não possamos cumprir. É certo, exige muito, exige tudo, que cuidemos o melhor que sabemos e podemos do mundo e de todos os que o habitam. Não faz o que nos compete. Criou-nos livres, tão livres que podemos dispensá-l'O, ignorá-l'O, negá-l'O ou até matá-l'O nos nossos corações e na nossa vida. E podemos matar-nos, destruir-nos uns aos outros. A liberdade engrandece-nos, mas também nos responsabiliza. Não somos marionetas nas mãos de Deus. Ele deu-nos todas as ferramentas para sermos com-criadores.

Nem sempre as coisas correm bem. Mas Deus não desiste. Nunca desiste de nós. Volta uma e outra vez. Acena-nos. Fala-nos. Envia sinais e mensageiros. É como aquela criança que ora faz birra, ora grita, ora chora, ora parte alguma coisa, ora se deita no chão, ora rasga a roupa, tudo para chamar à atenção. Assim Deus, Pai e Mãe, não cessa de Se fazer próximo, ainda assim respeitando-nos e respeitando as nossas escolhas. Mas não podemos dizer que não sabíamos!

O profeta, em nome de um povo em sofrimento, levanta a voz para o Senhor, fazendo o mea-culpa:  Deus afastou-Se de nós não por Sua vontade mas pelo nosso pecado, isto é, nós silenciamo-l'O e impedimo-l'O de agir em nós.  É tempo de percebermos o quanto isso nos fez mal. «Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai e nós o barro de que sois o Oleiro; somos todos obra das vossas mãos... Vós, Senhor, sois nosso Pai e nosso Redentor, desde sempre, é o vosso nome». O profeta pergunta-se porque que é que o Senhor nos deixa desviar dos Seus caminhos e endurecer o nosso coração e então suplica: «Voltai, por amor dos vossos servos e das tribos da vossa herança. Oh se rasgásseis os céus e descêsseis!... Vós saís ao encontro dos que praticam a justiça e recordam os vossos caminhos». Na súplica também o reconhecimento humilde da queda: «Todos nós caímos como folhas secas, as nossas faltas nos levavam como o vento. Ninguém invocava o vosso nome, ninguém se levantava para se apoiar em Vós...».

Também com o salmo suplicamos, rezando: «Deus dos Exércitos, vinde de novo, olhai dos céus e vede, visitai esta vinha. Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, o rebento que fortalecestes para Vós».

 

5 – Deus nunca esteve longe de nós, mas a perceção da Sua presença depende muito da disponibilidade para O escutar, para percebê-l'O perto de nós e acolhermos a Sua vontade. Em Jesus Cristo, essa proximidade humaniza-se, historiza-se e temporaliza-se. Com efeito, já não há barreiras. Deus criou-nos por amor e para vivermos rodeados, recheados, preenchidos por amor, vivendo harmoniosamente entre nós na Sua presença. O pecado fez mossa na capacidade de nos reconhecermos na nossa humanidade e de reconhecermos os outros como irmãos e Deus como Pai. Estabelecemos uma barreira assente no nosso orgulho e egoísmo. Deus tudo fez para romper qualquer distância – ainda que o mistério se mantenha como mistério – e Se tornar visível. A plenitude dessa proximidade acontece em Jesus. Ele é Deus connosco, Deus entre nós.

O Apóstolo Paulo envolve-nos na sua oração e recorda-nos, confiante, que não nos falta nada se Cristo vive em nós e a Sua graça nos santifica. Ele nos tornará firmes até ao dia em que Se manifestar definitivamente e Se tornar tudo em todos.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Is 63, 16b-17. 19b; 64, 2b-7: Sl 79 (80); 1 Cor 1, 3-9; Mc 13, 33-37.


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