Domingo I da Quaresma - ano C - 10 de março de 2019


1 – "Normalmente, nas horas mais dolorosas da nossa vida, zangamo-nos com Deus, porque imaginamos que Ele está longe ou, pelo menos, é indiferente à nossa dor. É difícil crer em Deus quando se está pregado numa cruz, atormentado pela dor e a carne a desgarrar-se" (Ariel Álvarez Valdés). O teólogo argentino contextualiza-nos no momento da crucifixão, mas estas palavras podem ser ilustrativas das tentações que nos afetam e da opção fundamental de Jesus por Deus, ajudando-nos a confiar, a colocar-nos nas mãos de Deus, a entregarmos-Lhe a nossa vida, também nos momentos de sofrimento, de perda, de dúvida.

Eu venho, ó Deus, para fazer a vossa vontade. O meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que me enviou. Mais felizes são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática. São expressões que se espalham pelo Evangelho. Desde o início da Sua vida há um denominador comum: Jesus é conduzido pelo Espírito Santo. No Batismo, o Espírito de Deus desce sobre Ele, em forma de pomba; durante os quarenta dias que permanece no deserto, Jesus é conduzido pelo Espírito. Acima das tentações, o que sobressai é a presença do Espírito Santo que O conduz. Em todo o tempo. Também durante as tentações. Também na superação das mesmas.

 

2 – No primeiro Domingo da Quaresma são-nos apresentadas, cada ano, as tentações de Jesus, colocadas no início da Sua vida pública. No Batismo Jesus é manifestado como o Filho Amado de Deus. Chegou a hora de passar do anonimato para a vida pública, passar da vida em família, discreta, normal, para uma vida exposta, anunciando a Boa Nova da salvação e sujeitando-se à crítica dos que O escutam, à aceitação ou recusa dos que O vão conhecendo.

Como em outras ocasiões decisivas, Jesus retira-Se para um lugar isolado, o deserto, para a solidão dialogante com o Pai. Jesus faz deserto, Jesus faz quaresma, prepara-Se para a Páscoa. Esta primeira quaresma dura 40 dias. O deserto é um lugar inóspito, lugar de morte, de dúvida, não há seguranças a que se agarrar, há de chegar um momento para o desespero, para a incerteza! Mas o deserto é também provação, avalia a nossa resiliência, a capacidade de resistir. Sem distrações, possibilita o encontro connosco, com os nossos medos e esperanças, com os nossos sonhos e desencontros. É um lugar de encontro de Deus, no mais fundo de nós. Nada nos ocupa mais, nada nos distrai, nada nos rouba tempo. Não nos falta a disponibilidade cronológica e com tanto tempo disponível haverá a oportunidade para orar, escutando Deus, para rezar, falando connosco, gritando, chorando sem ninguém para nos ouvir... ou melhor, como Jesus nos ensina, a não ser Deus Pai que sempre nos escuta, também nos desertos da nossa vida.

Analogamente, poderíamos dizer que a vida toda, neste caso, de Jesus, é uma quaresma, na medida em que Se encaminha para o Pai, encaminhando-Se para a Páscoa. No deserto, carrega as baterias para os momentos adversos. Enraíza-se no Pai. É conduzido pelo Espírito Santo. Embora toda a vida possa ser oração, há momentos para "suspender" tudo para ser tudo, o tempo e a vida, o coração e os pensamentos, tudo para Deus, para que Deus seja tudo em nós. É isso que faz Jesus.

 

3 – O espaço acolhe o tempo e a oportunidade. Como sublinha o Papa Francisco, o tempo é superior ao espaço, ainda que este possa ser lugar de procura, de descoberta e de encontro. São as pessoas, com o seu tempo, que preenchem o espaço. Também em outros lugares, nas montanhas e nos vales, nas aldeias e nas cidades, no campo e em casa, Jesus criará momentos para orar, para tornar "sensível" a presença do Pai, pelo Espírito que os une.

A missão que tem pela frente exigir-Lhe-á tudo, a vida por inteiro. Haverá ocasiões em que não terá tempo para descansar ou para comer. Mergulhará completamente na missão, até Se esgotar, até ao último fôlego. Podemos imaginar os discípulos a tentar acompanhá-l'O... vão dormir e Ele continua acordado e quando acordam já O veem preparado para continuar.

Quem vai para o mar prepara-se em terra. É o que Jesus faz antes. As Suas malas enchem-se com a presença do Pai. Mas não vai sozinho. Não quer ir sozinho. Caminha por nós. Caminha para nós. Faz-nos caminhar conSigo, para que também da quaresma da nossa vida possamos um dia experimentar a Páscoa última. Deus Pai acompanha-O. Pela Sua Páscoa primeira, Ele segue peregrino connosco, para que em cada Quaresma, e em toda a nossa vida, O sintamos vivo, ressuscitado, companheiro, guia e Pastor.

 

4 – Não tendo comido durante esses dias, Jesus sentiu fome e a fraqueza potenciou a tentação: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão...  Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu... Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’».

Perante as dificuldades e contratempos? Baixar os braços, desistir, ou usar todos os meios, mesmo que imorais e injustos, para reverter as situações em benefício próprio? Impor-se pela corrupção, pela violência, pela chantagem, pelo engodo? Ou resistir, insistir, lutar, procurar meios e formas justas e honestas de responder às adversidades? Passar por cima dos outros ou procurar respostas e soluções em conjunto? Criar ilusões ou enfrentar a realidade?

As respostas de Jesus são elucidativas: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’... ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’... Não tentarás o Senhor teu Deus’».

Jesus recusa instrumentalizar Deus, recusa usar o poder em benefício próprio. Recusa a espetacularidade e os caminhos fáceis, a imposição pelo milagre ou submeter-Se a poderes obscuros. Um dia far-Se-á Pão para todos! Gastará a Sua vida a nosso favor, respeitando-nos, respeitando a nossa liberdade e as nossas escolhas. Mostra-nos o caminho.

 

5 – «Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me. Se me encontro confinado numa extrema solidão... o orante jamais está totalmente só» (Bento XVI na Encíclica Spe Salvi, 32).

Deus não é surdo às nossas preces. No deserto, Jesus sabe que pode contar com o Pai. A Encarnação revela o quanto Deus nos escuta e o quanto nos ama. Moisés mostra como Deus ouviu os clamores do Povo e veio em seu auxílio. A gratidão e o louvor para com Deus fazem-nos iguais. Não estamos subjugados uns aos outros, superiores ou inferiores, adoradores e ídolos, mas irmãos, peregrinos, voltados para Deus. Só Deus é Deus. Só a Deus adorarás! Também aqui a tentação de endeusamento, de se colocar no lugar de Deus ou de se deixar endeusar por outros.  

O salmista, do mesmo jeito, nos mostra a confiança em Deus e como Ele vem salvar-nos.

 

6 – Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Nesta expressão está contida a dimensão corpórea da pessoa, que inclui o corpo e o espírito. Nem só de pão, mas também de pão. Isso compromete-nos a trabalhar cada dia, para que haja pão para todos. Mas o pão sem a Palavra, sem a vida espiritual, sem a relação com os outros, sem a potenciação dos nossos dons, talentos e capacidades, não será vida humana. A arte, a música, a fé humaniza-nos, liga-nos aos outros além do tempo e do espaço, irmana-nos. Sem abertura ao transcendente, à vida para lá da história temporal, tudo se encerraria num hiato de tempo curto, limitado, finito, desvalorizando tudo o que fizéssemos.

Paulo, salienta que "a palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração". E que palavra é esta? "É a palavra da fé que nós pregamos. Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. Pois com o coração se acredita para obter a justiça e com a boca se professa a fé para alcançar a salvação".

O ponto de partida ou a condição inicial para aceder à salvação é igual para todos. Com efeito, "não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam. Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo".

O que conta, também em tempo de Quaresma, é o arrependimento, a conversão, a abertura a Deus e à Sua palavra, o propósito de fazermos com que a Sua Palavra encarne, se concretize, se traduza na nossa vida de todos os dias.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (C): Deut 26, 4-10; Sl 90 (91); Rom 10, 8-13; Lc 4, 1-13.


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