Domingo I da Quaresma - ano B - 18 de fevereiro de 2018


1 – Desçamos ao deserto, pois lá nos encontraremos mais sós, mais despojados, libertos das luzes e dos ruídos da cidade, da segurança dos amigos e das nossas comodidades; mais pobres de coisas, mais ricos de nós mesmos! Desamparados, precisamos de rapidamente nos colocarmos à escuta, aguçarmos os ouvidos e o olhar para ver o essencial, o que nos pode salvar ou o que nos pode matar!

Ecoam ainda hoje as palavras do papa Bento XVI, em 2005, quando iniciava o Seu pontificado: «Existem tantas formas de deserto. Há o deserto da pobreza, o deserto da fome e da sede, o deserto do abandono, da solidão, do amor destruído. Há o deserto da obscuridão de Deus, do esvaziamento das almas que perderam a consciência da dignidade e do caminho do homem. Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos».

São os desertos do nosso mundo. Desertos que nos destroem! Mas o deserto a que nos convida a Palavra de Deus e o tempo santo da Quaresma é um deserto desejado, assumido, é um deserto espiritual, não para ficarmos vazios, mas para nos enchermos de Deus. Para sentirmos a brisa suave do Seu Espírito de Amor que nos eleva e nos aproxima de Deus e n'Ele nos irmana com os outros.

Jesus entra em modo de deserto. Dessa forma se prepara para o início do Seu ministério "público". É impelido pelo Espírito Santo. Permanece no deserto 40 dias! Ou melhor, o tempo necessário para recargar baterias para o que se avisinha! Terá ocasiões para se resguardar em oração, mas não tanto tempo! O ponto de partida na vida de Jesus é a vida com o Pai no Espírito. É o Espírito que O acompanha nesses dias intimistas. Satanás aparece, mas não é de todo a figura principal! As tentações atravessam a nossa humanidade: a tentação de desistir diante das dificuldades, a tentação do poder para sobrepormos a nossa vontade ao cuidado que devemos uns aos outros, a tentação da idolatria, colocando-nos no centro, à espera de sermos endeusados e que todos nos sirvam, a tentação dos caminhos fáceis, milagreiros, que nos levam a facilitar ora aqui ora acolá! Por vezes até metemos a verdade e a consciência entre parêntesis, até ver! Não é nada de mais! Os outros também fazem!

 

2 – Os momentos vividos no deserto fazem ver as adversidades que Jesus vai encontrar na pregação do Evangelho, as resistências, a oposição à Boa Notícia. É preciso preparar-Se com antecedência e antecipando, com conta, peso e medida, os obstáculos futuros, como Ele fará com os Seus discípulos, para que, quando chegar o momento, não se dê um terramoto de emoções destrutivas. Jesus trabalha bem as emoções dos Seus discípulos, precavendo-os para os limites e fragilidades, para as tentações e (falsas) expetativas, e para o tempo em que o Filho do Homem lhes será tirado!

Reconhecer os próprios limites e que há circunstâncias que escapam ao nosso controlo, sabendo que surgirão pedras no nosso caminho, trevas, dúvidas, hesitações, contrariedades. Esperar o melhor, mas contar que o sofrimento está na outra face do amor e da alegria! E talvez, quem sabe, aprender a ser feliz ao longo do caminho! E talvez, quem sabe, fazer com que as pedras encontradas ajudem a construir pontes, escadas, ligações que nos fazem bem à alma! A profecia também é isto, intuir a vida, vivê-la com paixão, redimensionar o coração, no coração de Deus, para acolher as surpresas positivas e negativas. Não queremos de todo que as contrariedades caiam sobre a nossa cabeça e nos esmaguem por inteiro! Quem anda à chuva molha-se! É bom contar com isso! Mas um guarda-chuva pode livrar-nos de alguma pneumonia!

Não queremos carapaças, pelo menos, no nosso coração, mas também não queremos que o coração seja devastado pelos vendavais do desencanto, do desencontro e do desamor!

Há momentos na vida de Jesus em que a tentação vai ser grande! Jesus vai querer invocar todo o poder de Deus: Ah! Se é possível, afasta de Mim este cálice, esta amargura! Mas Pai, faça-Se já não, nunca, a minha vontade, mas a Tua! E qual é a Tua vontade? Que eu morra? Que seja destruído? Eu sei, Meu Deus e Meu Pai, Meu Tudo, Tu queres apenas que ame e que ame sempre, em todos os momentos e não me deixe vencer pela raiva, pela vingança, pelo poder! Eu Sei, Meu Pai e Meu Tudo, no final é o amor que vencerá! Mas dói! Dói na carne e na alma! Dói esperar que fosse diferente, querer que seja diferente! Dói perceber e aceitar que deitam aos porcos as pérolas que lhes dei! Dói porque lhes dei tudo para neles florescerem jardins de paz, de alegria, de partilha e de fraternidade! E seria tão diferente! Apetece deitar tudo a perder, inverter o caminho feito, só para que saibam, só para que percebam, só para que se arrependam! Mas então também Eu Me perderia na desistência e no desencanto! Não, Meu Deus e Meu Tudo, cumpra-Se o Teu amor em Mim, até ao fim!

3 – E por amor tudo recomeça. Também a caridade do anúncio e do Evangelho. O deserto fica para trás! Ou talvez não, talvez Jesus faça com que o deserto floresça como jardim em Judá, na Samaria, na Galileia e há de chegar o tempo, há de chegar o dia, em que chegará também aqui, a mim e a ti, a este nosso mundo! E mesmo que nem sempre se veja, a semente já foi lançada à terra!

O deserto afinal não foi tanto a tentação, foi mais o encontro, o silêncio, a escuta, o diálogo de Jesus com o Pai na suave leveza do Espírito Santo. O deserto é isso tudo, é solidão, fragilidade, é nudez, é interrogação, dúvida e hesitação. É morte também! Sem nada, percebemos, com Jesus Cristo, que podemos confiar em Deus e deixarmo-nos moldar pelo Espírito. Jesus indica-nos o caminho com a Sua vida e com a Sua pregação.

Depois de João Batista ter sido preso, Jesus partiu, impelido pelo Espírito, a pregar o Evangelho: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

É o caminho do cristão, o caminho da Quaresma, 40 dias, 40 segundos, 40 horas, 40 anos, o que for necessário para nos tornarmos naquilo que somos pelo Batismo, filhos amados de Deus, membros do Corpo de Cristo, a Igreja, novas criaturas redimidas na morte e na ressurreição de Jesus, renascidos pela água e sobretudo pelo Espírito Santo. É uma peregrinação que envolve a vida inteira até à Páscoa eterna, mas porquanto até à Páscoa anual. O arrependimento faz-nos entrar em modo de deserto para reconhecermos os nossos limites e nos abrirmos à misericórdia e à ternura de Deus.

A resposta salmódica à Palavra de Deus é oração, entrega, confiança, súplica: «Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos, ensinai-me as vossas veredas. Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me, porque Vós sois Deus, meu Salvador. Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças que são eternas. Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência, por causa da vossa bondade».

 

4 – Com Adão e Eva, com Caim, e com Noé, comigo e contigo! A Aliança de Deus com a humanidade vem de antes do tempo e da história. Cada um de nós existe desde sempre no pensamento de Deus (Bento XVI). Ele nos criou por amor e por amor Se mantém por perto. Não nos substitui, mas como Pai (e mais Mãe) acompanha-nos, desafia-nos, envia-nos sinais, permite-nos ver e descobrir as marcas do Seu amor, como peugadas que podemos seguir ou ignorar. Ele, porém, não desiste de nós, é fiel ao Amor com que nos criou.

As palavras de Deus a Noé e aos seus filhos chegam a nós: «Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência e com todos os seres vivos que vos acompanham: as aves, os animais domésticos, os animais selvagens que estão convosco, todos quantos saíram da arca e agora vivem na terra. Estabelecerei convosco a minha aliança: de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio e nunca mais um dilúvio devastará a terra».

Há dilúvios que desertificam o nosso coração pela violência com que varrem a nossa vida, as nossas esperanças, afogando os nossos sonhos. Evocando a mensagem do Papa Francisco para esta Quaresma, diríamos que se desvanece em nós o amor quando nos deixamos abater pela iniquidade, quando os outros são um estorvo, quando destruímos a criação de Deus ou quando em comunidade vale mais o que dá nas vistas que o ardor missionário! Então será necessário perceber que o deserto pode florir. O que fazer? A resposta do Papa posiciona-nos na história da salvação, dedicando mais tempo à oração, para encontrarmos a consolação em Deus Pai, «a prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu», o jejum desarma-nos, tira força à nossa violência, permite-nos experimentar o que sentem aqueles que não têm o mínimo para viver com dignidade. «O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome».

 

5 – Aquela água que inundou a terra ao tempo do Noé é figura da água do Batismo, no qual somos imersos na morte e ressurreição de Cristo: não mais a água destruirá o ser humano. Em Cristo, Nova Aliança de Deus com a humanidade, a água, na força do Espírito, torna-nos novas criaturas.

São Pedro fala da espera paciente de Deus enquanto se constrói a arca. Através da água se salvam poucas pessoas, 8 apenas! Agora a água do batismo é compromisso para com Deus que nos «salva pela ressurreição de Jesus Cristo, que subiu ao Céu e está à direita de Deus».

E então o deserto volta a florescer com a força do Espírito, pela dádiva, pela entrega de Jesus que da morte nos guiará à ressurreição!

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Gen 9, 8-15; Sl 24 (25); 1 Pedro 3, 18-22; Mc 1, 12-15.


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