Domingo de Ramos na Paixão do Senhor - ano B - 25 de março de 2018


1 – Jesus Cristo é a nossa Páscoa, a nossa esperança e alegria, e a Luz que nos conduz e nos envolve no Seu amor e na Vida nova que nos dá. Em cada Eucaristia, em cada Domingo, celebramos o mistério maior e único da nossa fé: a morte redentora de Jesus, a oferta total da Sua vida, o Seu amor infindo, eternizado pela Sua ressurreição, inserção na vida divina. Tão grande este mistério que guia, ilumina e dá forma à nossa vida como cristãos. Existimos para a Páscoa, porque dela nascemos. Somos o que somos por causa da Páscoa e sem a Páscoa não seríamos cristãos, não seríamos Corpo de Cristo, que é Igreja. E caminhamos como peregrinos para a Páscoa (eterna), que é Jesus Cristo.

Com efeito, quando batizados, mergulhámos neste mistério maior, morrendo com Cristo, ressuscitando com Ele, tornando-nos novas criaturas. A Eucaristia configura-nos totalmente a Cristo, morto e ressuscitado, somos Corpo n'Ele e com Ele.

A cada ano, a festa das festas cristãs, a Páscoa anual, para recentrar a nossa fé, para imprimir a prioridade que deve habitar-nos, a essência do nosso crer, do nosso celebrar e do nosso agir. Vai e faz do mesmo modo. Como eu vos fiz, fazei vós também. Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Lavei-vos os pés... para que assim o façais aos vossos irmãos. Dai-lhes vós mesmos de comer. Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome aí estarei no meio deles. Estarei convosco até ao fim dos tempos. Não temais, Eu venci o mundo. Quem acreditar em Mim será salvo. Vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei. Vinde benditos de Meu Pai. O que fizerdes ao mais pequeno dos irmãos é a Mim que o fazeis. Quem quiser ser o primeiro, seja o último e o servo de todos. Sede perfeitos e misericordiosos como o Vosso Pai do Céu. Nem um copo de água ficará sem recompensa. Perdoai, sempre, pois assim o Pai vos perdoará a vós. Ide reconciliar-vos com os irmãos.

As palavras de Jesus são acompanhadas por gestos e estes são explicitados pelas palavras. Mas tudo é "sacralizado", fixado, elevado no mistério da Sua Páscoa e que Ele nos deixa como memorial, para que também hoje, na minha e na tua, na nossa vida, Ele Se faça presente com a Sua vida e com o Seu amor sem fim. Ele vive, Ele está no meio de nós. A distância "ontológica" – Ele vive na dimensão do Pai – é contemporaneizada no mistério da Eucaristia, Ele "encarna" nas espécies do vinho e do pão, novamente e sempre pela ação do Espírito Santo.

 

2 – A Semana Santa faz-nos reviver especialmente as últimas horas da vida de Jesus. Toda a Sua vida é entrega e a Sua vida inteira está contida na celebração dos Sacramentos, especialmente na Eucaristia, que torna atual a Sua presença no meio de nós, fazendo-nos participar do Seu mistério pascal. Porém, a expressividade, a intensidade, a profundidade são especialmente dramáticas, visíveis e translúcidas nos últimos momentos da Sua vida terrena. A Semana Maior serve-nos, de forma doseada, para melhor acolhermos, compreendermos e vivermos, vários momentos das poucas horas que separam Jesus da Cruz.

O Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, título deste domingo, condensa os acontecimentos da morte, na expectativa da ressurreição, mas igualmente a nossa história, marcada por altos e baixos, luzes e trevas, esperanças e tristezas. Vejamos: o início é fulgurante, parece ter tudo para acabar bem, contudo logo percebemos que se adensam as nuvens e que a tempestade não tardará em chegar.

Há uma multidão que aclama Jesus: Hossana, Hossana, Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Jesus prepara com os seus discípulos os momentos que estão a chegar, também a entrada triunfal em Jerusalém. O Rei vem num jumentinho! É um Rei sem poder, sem cavalos e sem exército! Desarmado, sem armaduras, nem preparação militar. Um bando de maltrapilhos e malfeitores! São os amigos de Jesus. Entre eles, estamos nós! Uns mais pobres, outros mais desafogados, todos entusiasmados com os cânticos e com a manifestação de júbilo. Por vezes perdemo-nos na multidão, para o bem e para o mal! Deixamo-nos entusiasmar!

O Papa Bento XVI descreve esta multidão distinguindo-a claramente daquela que pede a cabeça de Jesus. Esta é composta por pessoas que vêm da Galileia para celebrar a Páscoa (judaica) em Jerusalém, a cidade santa. Pessoas simples, devotas, maioritariamente pobres ou remediadas na entreajuda solidária. Vêm em festa, agradecer a Deus ou em sofrimento, confiando que Deus lhes dará ânimo para os próximos tempos.

 

3 – Na ceia pascal, o ambiente torna-se mais denso! Sentemo-nos ao redor de Jesus! Também somos Seus convidados. Assim o queiramos!

Um pouco antes, em Betânia, em casa de Simão o leproso, uma mulher derrama um vaso de alabastro, perfume, de alto preço sobre a cabeça de Jesus. Diante de alguma contestação Jesus declara: «Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu de antemão o meu corpo para a sepultura».

Logo depois Jesus envia dois discípulos para que vão à frente prevenir o "proprietário", possivelmente mais um dos Seus amigos, que tem uma sala no andar superior da casa reservada para Ele comer a Páscoa com os Seus. Esta ceia é memorial: recordam as maravilhas realizadas por Deus, mormente através de Moisés que lidera a libertação do povo, outrora escravo no Egipto, e agora na terra prometida, mas celebra-se também a esperança num tempo novo de luz e salvação, em que Israel adquirirá novamente um esplendor que jamais lhe será tirado! Um memorial que nos remete para a Eucaristia, instituída na Última Ceia, antecipando o Seu mistério pascal.

O ambiente começa a ficar mais sobrecarregado. Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco! Não voltarei a beber do vinho até ao Meu regresso, até beber o vinho novo no Reino de Deus! Um de vós vai entregar-Me. Faz o que tens a fazer, fá-lo depressa! É possível que estejamos ali e não compreendamos tudo o que se está a passar. Somos João, Pedro e Judas, somos Tomé e Filipe, Tiago e André. Porque é que o Mestre está tão concentrado, tão sério, tão sisudo? O que é que Lhe vai na cabeça? Que nuvens se adensam à Sua volta?

«Tomai: isto é o meu Corpo... Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança derramado pela multidão dos homens». Jesus não nos deixará sós! Ainda não foi morto, mas já abre uma janela, uma possibilidade, Ele ficará presente!

 

4 – Cantaram os salmos e saíram para o Jardim das Oliveiras e tudo se precipita. Jesus, ao longo do tempo, tinha prevenido e preparado os seus discípulos, antecipando as dificuldades que iriam surgir. Uma vez mais fala da dispersão dos discípulos perante a invetiva dos adversários, das autoridades dos judeus e de alguns grupos sociais e religiosos.

Ser denunciados e/ou traídos pelos adversários, inimigos ou desconhecidos, custa, porque custa sempre sermos colocados em causa. Mas é muito mais doloroso ser abandonado, traído, exposto por aqueles que contam para nós, os nossos amigos e familiares. Jesus sabe das debilidades humanas e sabem quem chamou para O seguir mais de perto. Por isso antecipa e previne. «Ficai aqui e vigiai». Todos garantem que não O abandonarão, mas verificar-se-á o contrário quando o cerco está mais estreito.

Jesus reza, suplica, volta-Se totalmente, uma vez mais, para o Pai: se é possível, afasta de Mim este cálice, «Contudo, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres». Uma e outra vez. E novamente o despertar dos discípulos: «Vigiai e orai, para não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca». A oração gera intimidade com Deus, dá-Lhe o ânimo para não vacilar diante da tempestade que está à porta. «Levantai-vos. Vamos. Já se aproxima aquele que Me vai entregar».

Judas, um dos amigos mais chegados, trai-O com um beijo. Os soldados aprisionam Alguém que prega o perdão, a misericórdia e o amor. Jesus é levado às autoridades dos judeus, que Lhe colocam muitas perguntas, mais para O apanharem em falso do que na tentativa de esclarecer a situação.

Das autoridades judaicas passam ao poder romano, pois só a autoridade imperial pode decretar a morte de alguém. Novamente a multidão se junta. Seguindo a reflexão do Papa Bento XVI, é outra multidão, sobretudo de judeus e outros curiosos, instigados pelos grupos religiosos mais fanáticos. Bem sabemos como, por vezes, a voz de uma pessoa ou de meia dúzia de pessoas, pode virar uma multidão, para o bem e para o mal. «Crucifica-O». Um multidão em polvorosa, inflamada, como que diabolicamente possuída por um desejo de sangue. Infelizmente, a humanidade tem do melhor e do pior. Cada um de nós! Também estamos nesta multidão, na traição de Judas e de Pedro, no abandono dos discípulos e na multidão que pede a cabeça de Jesus, como autoridade judaica que instiga a violência e como autoridade romana que lava as mãos!

 

5 – A morte está logo ali! Perante tanta violência, parece que a morte é a única solução, a única forma de acabar com o sofrimento atroz! Porém, Jesus não Se deixa destruir. Podem matá-l'O (fisicamente), mas não O destroem. Ele entrega a Sua vida ao Pai. Ele entrega a Sua vida para nos salvar. A Sua Cruz é por nós, para nossa salvação. Podia livrar-se, livrar a Sua pele, mas vai até ao fim, até às últimas consequências do amor. Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á e quem perder (gastar) a sua vida ganhá-la-á para a vida eterna. É o que Ele faz, dá-Se até ao último fôlego, até à última gota de sangue.

A oração de Jesus na Cruz envolve o nosso próprio sofrimento, a nossa confiança em Deus e o nosso clamor: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». No meio de tanta dor, quase a sufocar e ainda assim Jesus volta o Seu olhar e o Seu coração, a Sua vida para o Pai.

Soltando um forte grito expirou. Fica o testemunho: «Na verdade, este homem era Filho de Deus». Fica o silêncio e a presença de algumas mulheres: "Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com Ele a Jerusalém". Fica a delicadeza da sepultura: José de Arimateia, ilustre membro do Sinédrio, pediu o corpo de Jesus e deu-Lhe sepultura num sepulcro novo cravado na rocha.

 

6 – A segunda leitura dá-nos a chave de leitura da Paixão de Jesus: Ele que era de «condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz». A obediência até à morte, como entrega e oblação colocam Jesus como verdadeiro e único Mediador entre Deus e os homens: oferece-nos a Deus, abre-nos para sempre as portas da vida divina, fazendo-nos participantes da Sua glória.

 

7 – Na primeira leitura, de Isaías, o desafio é que sejamos discípulos, ao jeito de Jesus. Também Ele Se assume como discípulo do Pai, não recuando perante as adversidades, mas tornando visível o amor de Deus para connosco. Como discípulos, façamos do mesmo modo.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (B): Is 50, 4-7; Sl 21 (22); Filip 2, 6-11; Mc 14, 1 – 15, 47.


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