Domingo da Divina Misericórdia - ano B - 8 de abril de 2018


1 – A fé (cristã), bem entendida, é luz que nos conduz para Jesus e nos aproxima dos outros. Em muitas ocasiões a fé foi confundida com obscurantismo, superstição, atraso civilizacional, mas continua a ser a fé, a religião, a ligar-nos, a tornar-nos mais humanos, a fazer-nos procurar a justiça e a paz, a viver seguindo por critérios éticos, respondendo ao clamor dos irmãos.

O Papa Francisco, na Lumen Fidei (Encíclica preparada por Bento XVI) diz-nos que «a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho... o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros». À fé une-se a esperança, pois a habitação eterna, inaugurada em Jesus Cristo, espera-nos. Vamos construindo aqui esta morada, pelo que a caridade também se junta à fé e à esperança.

Palavras semelhantes, tinha proferido o Papa Bento XVI, aos jovens, na viagem à Alemanha, em 2011: «Ao nosso redor pode haver a escuridão e as trevas, e todavia vemos uma luz: uma chama pequena, minúscula, que é mais forte do que a escuridão, aparentemente tão poderosa e insuperável. Cristo, que ressuscitou dos mortos, brilha neste mundo, e fá-lo de modo mais claro precisamente onde tudo, segundo o juízo humano, parece lúgubre e sem esperança. Ele venceu a morte – Ele vive – e a fé n’Ele penetra, como uma pequena luz, tudo o que é escuro e ameaçador. Certamente quem acredita em Jesus não é quem vê sempre só o sol na vida, como se fosse possível poupar-lhe sofrimentos e dificuldades, mas há sempre uma luz clara que lhe indica um caminho, o caminho que conduz à vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Os olhos de quem acredita em Cristo vislumbram, mesmo na noite mais escura, uma luz e veem já o fulgor dum novo dia…».

É esta a Luz que irradia em Domingo de Páscoa, o primeiro da nova criação, o dia da nossa redenção. As trevas dão lugar à luz, a noite dá lugar ao dia, a morte dá lugar à vida. Jesus vive por mim e por ti, Ele regressa para nos congregar, para nos unir como Seu Corpo, do qual é a cabeça e nós os membros. Ele está no MEIO, atraindo-nos: quanto mais nos aproximamos d'Ele mais próximos ficamos uns dos outros.

 

2 – O regresso de Jesus faz-nos regressar a casa, já não como refúgio, mas como encontro e festa!

O entorpecimento foi total. Um acontecimento inusitado, apesar de Jesus o ter previsto, anunciado e ter preparado os discípulos para o que iria acontecer! Mas a prisão, o julgamento, a condenação e a morte como um malfeitor deitaram por terra as melhores expectativas. A HORA da morte é para Jesus a hora do encontro com o Pai; é para os discípulos, e para nós, discípulos deste tempo, hora de treva e de escuridão, de desilusão. Tudo está consumado! Diz Jesus! Ou está completo! Para nós, todavia, com a morte de Jesus, tudo está acabado.

Apetece-nos dizer: ainda bem que tudo acabou! Até Maria, Sua Mãe, há de ter ficado aliviada, pois os ultrajes, a violência, os impropérios, a carne coberta de sangue a escorrer, a respiração entrecortada a sufocar, é um alívio ver que tudo chegou ao fim. É a história de Jesus. É também a história dos nossos dramas, da nossa vida, quando o sofrimento que nos bate à porta, pela doença, pela solidão, pela morte de um familiar, é tão grande que parece que o coração nos salta do peito!

Mas é só uma parte da história! Jesus está de volta! Aquele que deu tudo, amando-nos até ao último fôlego, é assumido pelo Pai que no-l'O devolve inteiro, ressuscitado, já não circunscrito às coordenadas do espaço e do tempo, mas na vastidão do Céu. Pode agora fazer-Se presente em todo o lugar, em todo o tempo, a todas as gerações! «A paz esteja convosco. A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Jesus traz-nos uma paz que não se dissolve com a morte, uma paz que nos compromete com Ele e com os outros. O encontro connosco faz-nos escancarar as portas de casa para que outros possam entrar e para que possamos sair ao encontro dos outros! Como o Pai Me enviou também Eu vos envio. Recebei o Espírito e sede instrumento de perdão e de vida nova.

 

3 – Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre! O Crucificado é o Ressuscitado! Duas partes da mesma história, a de Jesus e a nossa: o mal e o bem, a doença e a saúde, a morte e a vida, o sofrimento e a festa, as trevas iluminadas pela luz. Ao colocar-Se no meio de nós, Jesus mostra as marcas da Paixão, as marcas do Seu amor. A luminosidade da Ressurreição não anula as chagas da entrega. Ele vem com o todo o Seu amor! É o amor de antes, é o amor fixado na eternidade que ninguém poderá destruir, pois nem a morte foi suficiente para lhe colocar um ponto final.

Jesus mostra as mãos e o lado! Sou Eu. Não é um fantasma! Um espírito a vaguear pelo mundo! Sou Eu, o mesmo que vos amei até ao limite das minhas forças humanas e até ao infinito do Pai. Um amor que nos torna participantes da vida divina. Um amor que nos envia aos outros.

O compromisso é para todos, ainda que cada um de nós tenha o seu ritmo. Somos feitos da mesma carne, do mesmo barro, mas livres, diferentes, com capacidades e insuficiências específicas! Alguns estão num processo de conversão mais amadurecido. Outros precisam de caminhar mais, como Pedro quando nesta manhã de Páscoa foi ao sepulcro com o discípulo amado. A Pedro exigiu-se mais esforço, pois o distanciamento foi maior. Também Tomé! Ele não estava presente naquela hora. Quem está fora da comunidade não vê Jesus com clareza. A clareza do testemunho é importante, mas é indispensável o encontro com Jesus em comunidade. É preciso estar, é preciso ver, ver com os olhos da fé. Oito dias depois Jesus volta novamente a colocar-Se, de forma visível, no MEIO da comunidade, no meio dos discípulos, estando presente também Tomé que tem, então, oportunidade de ver as chagas e o lado de Cristo e comprovar por si mesmo o que os outros discípulos já tinham visto e testemunhado.

 

4 – A fé não é castradora, não nos inibe na nossa liberdade mas capacita-nos para acolhermos o mistério da Sua presença. Com Tomé, a fé em Cristo, morto e ressuscitado: «Meu Senhor e meu Deus!».

O desafio de Jesus remete-nos mais além: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». É necessário ver as chagas e o lado aberto de Jesus nas chagas e no sofrimento dos irmãos. Como Eu vos fiz, fazei vós uns aos outros. Eu lavei-vos os pés, dei-vos o exemplo, para fazerdes do mesmo modo.

Reconhecer que Jesus é o nosso Deus e Senhor nem sempre é fácil, sobretudo se o dissermos, não da boca para fora, mas de coração, pois imediatamente nos "obriga" a reconhecê-l'O nos mais pobres e naqueles que nos aborrecem! Por isso, também nós Lhe pedimos: «Deus de eterna misericórdia, que reanimais a fé do vosso povo na celebração anual das festas pascais, aumentai em nós os dons da vossa graça, para compreendermos melhor as riquezas inesgotáveis do Batismo com que fomos purificados, do Espírito em que fomos renovados e do Sangue com que fomos redimidos».

 

5 – Acreditar em Jesus, celebrar a fé que nos incorpora na comunidade e fortalece os laços que nos unem, envolve-nos no anúncio do Evangelho, para que outros, para que todos, possam conhecer, acolher e seguir Jesus, e isso passa por vivermos ao jeito de Jesus, gastando-nos por amor.

A primeira comunidade expressa bem o modelo de comunidade e da inserção dos cristãos. Com efeito, «a multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. Os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus…».

Vale a pena reler as palavras do Papa Francisco na última quarta-feira, 4 de abril, na Audiência Geral, «Os cristãos não vão à missa para cumprir um dever semanal e depois se esquecer. Vão à missa para participar da ressurreição do Senhor e depois viver mais como cristãos… Participar na Eucaristia compromete-nos em relação aos outros, de maneira especial aos pobres, educando-nos a passar da carne de Cristo para a carne dos irmãos, onde Ele espera ser por nós reconhecido, servido, honrado e amado». A fé não nos espiritualiza, a fé encarna-nos na vida dos outros, como fez encarnar Jesus na nossa humanidade. Uma fé desencarnada não é, certamente, fé cristã!

 

6 – Na mesma linha encontramos a missiva de São João, que liga a fé aos mandamentos: «Quem acredita que Jesus é o Messias, nasceu de Deus, e quem ama Aquele que gerou ama também Aquele que nasceu d’Ele. Nós sabemos que amamos os filhos de Deus quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos, porque o amor de Deus consiste em guardar os seus mandamentos».

Amar a Deus leva-nos a amar a todos os que d'Ele nasceram. Os mandamentos apontam para Deus e Deus aponta para os Seus filhos, especialmente os mais pobres.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia: Atos 4, 32-35; Sl 117 (118); 1 Jo 5, 1-6; Jo 20, 19-31.


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